Os cem anos de Poty e a Páscoa

Que Poty nos inspire neste dia de páscoa. Independentemente de nossas crenças religiosas, que seja este um momento de reflexão e renovação, que possamos deixar perecer velhos hábitos para que nasça uma forma mais bonita e sustentável de vida.

Neste final de semana, seguindo as boas energias emanadas pelo Festival de Curitiba, a cidade está em festa! Na última sexta-feira (29), Curitiba completou 331 anos, Poty Lazzarotto, um de seus filhos mais ilustres, se vivo, faria 100 anos; e, hoje (domingo – 31), judeus e cristãos festejam a Páscoa.

A palavra “páscoa” tem origem hebraica: “pessach”, que significa passagem, e é celebrada pelos judeus porque marca sua libertação, depois de anos de escravidão no Egito. Para os cristãos, a Páscoa também está associada à ideia de passagem, mas da morte para a vida, eis que representa a ressurreição de Jesus Cristo, o filho de Deus.

A origem e a razão da comemoração da Páscoa no judaísmo e no cristianismo são distintas, mas a celebração do renascimento e da esperança, assim como a simbologia da renovação representada pelo ovo como origem da vida, permeiam ambas as religiões.

Na natureza os ovos são tão diversos quanto relevantes, permitem a reprodução de insetos, peixes, anfíbios, répteis e aves, e podem ser encontrados em diversos tamanhos, formatos e cores. As obras de Poty Lazzarotto – pinturas, murais, esculturas, vitrais, cerâmicas, etc – tão variadas em formatos e materiais quanto os ovos, também estão em diversos pontos de Curitiba.

Poty

Napoleon Potyguara Lazzarotto (1924-1998), foi um artista de múltiplos talentos. Filho de italianos, Poty começou a se interessar por desenho ainda criança. Na juventude, demonstrava seus dons no restaurante da mãe, o “Vagão do Armistício”, frequentado por intelectuais paranaenses.

Em 1942, foi agraciado por Manoel Ribas – então governador do Paraná, com uma bolsa de estudos para a Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro; a partir daí, Poty criou asas. Em 1946 foi a Paris estudar litografia e muitos anos depois, em 1968, convidado por Orlando Villas Boas e por Noel Nutels para passar um período no Parque Nacional do Xingu, concebeu cerca de duzentos desenhos sobre os hábitos e costumes indígenas.

O bom filho à casa sempre tornou. Poty e a cidade de Curitiba estão tão intrincados, que diz-se a boca miúda, que todo curitibano tem uma obra ou reprodução do Poty em casa (na RSLaw endossamos essa “estatística”). Galhofadas à parte, Poty Lazzarotto exerceu grande influência na construção identitária dos curitibanos.

Certa vez, entusiasmado em colaborar com os painéis do salão de Atos Tiradentes do Memorial da América Latina, em São Paulo, o artista afirmou: “quanto ao meu trabalho, devo dizer que nunca me senti tão à vontade, pois os temas propostos para os meus painéis me são familiares: os índios, os imigrantes, os edificadores do progresso têm meu especial carinho e sempre estiveram presentes em minha obra” (1990).

Tanto o apelido “Poty” quanto a palavra “Curitiba” têm origem indígena. Curitiba, ou “kur yt yba” em guarani, significa “grande quantidade de pinheiros”, haja vista a grande quantidade de Araucaria angustifolia, o pinheiro-do-Paraná, presenciada pelos seus primeiros habitantes. E Poty botou vários de seus pinheiros pela cidade, entre outros signos que fazem alusão à natureza, fundindo meio ambiente urbano e meio ambiente natural através da arte.

Dentre seus painéis curitibanos, destaca-se o “Quatro Estações” (1984), obra com aproximadamente 370 m², feita de concreto aparente volumétrico, em um bloco único, na fachada do edifício situado na Rua Lourenço Pinto, n. 458, no centro de Curitiba – onde hoje funciona o Hotel Nacional Inn, que descreve as atividades executadas localmente durante o verão, o outono, o inverno e a primavera; célebre pelos campeonatos de escalada urbana.

No Reservatório Cajuru, localizado na caixa d’água do Alto da XV, na Praça das Nações, ao lado da Sanepar, vislumbra-se o graúdo “Evolução do Saneamento Básico” (1996), um painel de 23m de comprimento por 3m de altura, em azulejo branco, onde Poty narra a história do abastecimento de água na capital.

Retratando diferentes momentos, a composição inicia com as mãos de Deus dividindo as águas, formando rios que banham indígenas e bandeirantes, passa por uma mulher carregando uma lata d’água na cabeça, pelo Chafariz da Praça Zacarias e o bebedouro do Largo da Ordem, pelas tubulações do primeiro sistema de abastecimento de água – estruturado a partir dos Mananciais da Serra, até chegar no sistema atual de água encanada e finalizar no símbolo da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar).

A foto que ilustra este texto – de “Evolução do Saneamento Básico” – foi feita durante a pandemia, em um momento de escassez hídrica, quando minha filha, então com seis anos, perguntou de onde vinha a água que faltava na torneira de casa.

Poty, um de nossos artistas mais fecundos, exímio gravurista, ilustrador, desenhista, muralista, atuou como professor em diversas instituições, talvez por isso, para além da beleza, junto com a reflexão que provocam, suas obras têm também esse potencial educativo.
O artista possui extensa e eclética produção, possibilitando a abordagem de outras tantas obras públicas, afora aquelas que estão situadas em ambientes privados. Mas a intenção deste texto foi mesmo ovacionar a existência de Poty Lazzarotto, e os diversos ovos – beleza, técnica, reflexão, exaltação das origens, cultura – que ele nos deixou.

Que Poty nos inspire neste dia de páscoa. Independentemente de nossas crenças religiosas, que seja este um momento de reflexão e renovação, que possamos deixar perecer velhos hábitos para que nasça uma forma mais bonita e sustentável de vida.

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