No mundo da gastronomia, talvez seja hora de ver o copo meio vazio

Mais ubers ou pipoqueiros na praça não vão nos tirar da persistente crise que o país vive

Nem tudo na vida é positivo, muito menos as conjunturas a que estamos submetidos no mercado de trabalho. Crises são cíclicas, irão sempre acontecer. Aparentemente, no entanto, sofremos de uma crise de positividade tóxica, na hora de falar sobre os maus momentos. Nos faz mal tentar relativizar e sufocar sentimentos “ruins” como raiva, inveja, frustração e etc. Fingir que eles não existem prejudica nossa assimilação dos fatos, desenvolvimento pessoal e saúde mental. Porém, toxicamente positivo, o mainstream empreendedor apresenta o mercado como fonte inesgotável de oportunidades, quando talvez ele esteja longe de sê-lo em muitas ocasiões.

Há algumas semanas, o SEBRAE-PR divulgou um estudo sobre Refeições Fora do Lar no estado do Paraná e, apesar da manchete vender os resultados como um grande incentivo ao empreendedorismo gastronômico, é possível lê-lo de maneira quase completamente oposta ao que se sugere. O estudou perguntou com que frequência os paranaenses costumam realizar as seguintes atividades fora de casa: almoçar, comer por vontade própria, comer com a família, jantar, comer por necessidade, café da manhã, Happy Hour, Café ou Chá da tarde, comer com amigos e comer sozinho, e as respostas oferecidas estão bem longe de serem animadoras.

A começar que nenhuma das situações acima registrou uma porcentagem maior do que 31%, de ocorrer de 3 a 4 vezes por mês, isso em se tratando de almoçar fora. Na outra extremidade, com a menor porcentagem, comer com os amigos, para a mesma frequência, ficou com 8% somente. Ou seja, menos de um terço da população do Paraná está disposta a almoçar até quatro vezes por mês fora de casa. Quem o faz por necessidade não corresponde nem a 20% do total, de acordo com o mesmo estudo. Traduzindo em efeitos práticos, as pessoas, nos cinco dias da semana, almoçam somente um dia fora de casa, quando precisam, e menos de uma em cada três o faria a cada final de semana, por lazer, no mês, por exemplo.

Se interpretarmos os tickets médios (que são respectivamente para o Jantar e o Almoço: R$76,00 e R$53,95) a situação do mercado de gastronomia fica ainda mais comprometida. Pode-se depreender da análise que a quantia teto que 80% dos paranaenses estaria disposta a gastar para seu almoço de dia a dia, por necessidade, seria de R$ 215,80, em contraste com a projeção hipotética de R$ 1.186,90, necessária para almoçar todos os 22 dias úteis do mês. Tal disparate deixa flagrante o esvaziamento da demanda para esse tipo de consumo. Situação compreensível já que comer fora de casa todos os dias custaria quase um salário mínimo nacional, em sua totalidade.

Outro dado que pode ser analisado a partir de uma perspectiva de um sintoma e não de uma oportunidade é a preferência pelo tipo de comida dos clientes paranaenses hoje em dia. Massas e comida brasileira são de longe a preferência do estado, ocupando o primeiro e o segundo lugar em todos os rankings elaborados. Na lanterna estão as ‘experiências gastronômicas’ e ‘restaurantes de alta gastronomia’ que podem sugerir, como cita o estudo, uma má compreensão sobre o produto. Porém, é razoável pensar ser a aversão ao risco ou o preço, fatores determinantes. Já que um almoço custa em média R$ 53,95 ou R$ 76,00, no caso de um jantar. Não é tempo para arriscar dinheiro em algo que possa não agradar, em especial se for mais caro.

Lendo os dados desta forma, o discurso inaugural de oportunidades em vista esmaece diante dos fatos. De forma pragmática, as grandezas não inspiram confiança em grandes investimentos, é justamente o contrário, denotam um mercado esvaziado em demanda. Ainda que não agrade, não é justificável o medo de dar as más notícias. Cautela, no longo prazo, traria muito mais benefícios ao mercado do que um investimento desastrado que pode servir somente para engordar os bolsos dos bancos, que oferecem empréstimos com juros recordes e altíssimos.

O afã empreendedor não é de agora, a supervalorização da cultura do patrão de si mesmo já tem vinte e alguns anos. No entanto, apesar da quantidade de negócios abertos, a qualidade de vida e do trabalho não melhorou em nada. A desindustrialização brasileira, que secou empregos estáveis e de salário fixo e previsível, vem acontecendo há décadas e a resultante hiper dependência sobre o setor de serviços acaba causando uma constante insegurança e pressão sobre o trabalhador a cada crise que passamos. No entanto, e infelizmente, o modelo empreendedor é algo que a propaganda estatal brasileira não pretende abandonar tão cedo.

Novamente o SEBRAE em recente estudo, apesar de se tratar um órgão exemplar e fundamental no setor, incentiva a retórica de que o patrão de si mesmo seria a solução de todos os nossos problemas, hoje em dia. Em conjunto com a Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas (Anegepe), no Global Entrepreneurship Monitor (GEM) de 2022, “detectou” que 67% da população brasileira adulta está envolvida com empreendedorismo, está fazendo algo para ter ou deseja começar a empreender nos próximos três anos. Oportunidade ou desamparo?

Em entrevista recente, a terapeuta do Reino Unido, Sally Baker diz que, “negar constantemente tudo o que é ‘negativo’ que sentimos em situações difíceis é exaustivo e não nos permite construir resiliência – a capacidade de nos adaptarmos a situações adversas”. E assim os brasileiros seguem sendo culpados pelas suas mazelas por um discurso que continua repetindo que as oportunidades lá estão e tudo é uma questão de astúcia de mercado. Essa transferência de responsabilidade acaba por distorcer o nexo causal entre a capacidade da geração de empregos e a qualidade de vida dos trabalhadores. No entanto, sentimos em bolsos, mentes e corpos cansados, que talvez estejamos em um caminho que não nos leva a lugar nenhum.

O caminho para uma economia pujante passa invariavelmente por um mercado numeroso e com poder de compra fortalecido. Isso não é possível contando somente com um setor. No Brasil, graças à sua industrialização tardia e financeirização repentina, parte do que fazia uma grande bolsa de empregos, a indústria, jamais voltou a trazer a estabilidade que tantas famílias tiveram para criar seus filhos antigamente. Hoje contamos com prestar serviços uns para os outros, numa interdependência absolutamente vulnerável. Está na hora de começarmos a enfrentar as más notícias, construir resiliência e enfrentar o fato de que mais ubers ou pipoqueiros na praça não vão nos tirar da persistente crise que o país vive.

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