Você conhece alguém que só vê o copo meio vazio? | Jornal Plural
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1 set 2019 - 22h28

Você conhece alguém que só vê o copo meio vazio?

Psicóloga apresenta um mundo de abundância a jovens excluídos socialmente

Não foram poucas as vezes em que a psicóloga Maria da Penha ouviu a frase “Ai, dona Maria, eu não gosto de ler”. Ela é servidora pública e trabalha com adolescentes em vulnerabilidade social. Seu desafio ao ouvir essa frase não é apenas de apresentar o mundo da leitura, mas de vencer as barreiras de déficits cognitivos causados pelas desigualdades enfrentadas por esses adolescentes, desde questões familiares a lacunas na educação formal.

A força de Maria da Penha não está só em seu nome, mas também em sua coragem de humanizar espaços conhecidos por sua brutalidade. Os 60 adolescentes atendidos por ela, no momento, são jovens que estão em um centro de socioeducação do Paraná. “Em cada lugar por onde eu passo, eu tento deixar algo de mim. Gosto de intervir nos ambientes, dar sentido, lembrar que somos humanos”. A sua sala de atendimento é cheia de artesanato feito por ela, plantas e, é claro, livros.

Catálogo de livros de Maria da Penha: ferramentas de transformação. Foto: Michele Bravos/Instituto Aurora.

Ela conta que com 10 anos já tinha lido “Capitães da Areia”, de Jorge Amado. Quem leu, sabe: é um livro denso, do retrato de uma juventude brasileira invisibilizada. Não à toa, hoje, ela volta o seu olhar para os adolescentes da socioeducação, buscando transformações.

Inconformada e amante da literatura, como ela mesma diz ser, resolveu solucionar um problema: a reduzida visão de mundo que muitas vezes impede esses adolescentes de sonhar, enxergar outras possibilidades e até mesmo se comunicar com pessoas diferentes, devido ao pouco vocabulário. A literatura foi vista como um caminho para ampliar a perspectiva de vida desses jovens, ampliar o vocabulário para que possam ter conversas significativas, ampliar quem são e podem ser. O projeto de Maria da Penha é mais do que um projeto de literatura. É, na verdade, um projeto de mudança de ideias, propondo que a mentalidade de escassez seja substituída por uma mentalidade de abundância.

Maria da Penha: cuidado com a humanização do espaço. Foto: Michele Bravos/Instituto Aurora.

O projeto surgiu a partir da doação de 170 novos livros para a unidade em que trabalha, em janeiro deste ano, por meio do projeto de arrecadação Histórias que mudam histórias, organizado pelo Instituto Aurora no fim de 2018. A arrecadação contou com a parceria da Freguesia do Livro e da população, que levou suas doações em três pontos de coleta na cidade: no Orna Café, no restaurante Quintana e na escola de fotografia Portfólio.

Quando recebeu os livros, a Maria se sentiu incentivada a trazer mais alguns da biblioteca de sua mãe. “Ela tem 80 anos e, você pode imaginar, muitos livros adquiridos ao longo da vida. Eu brinco que não haveria tempo para ler tudo de novo”. Assim, ela formou um acervo de 280 livros na unidade, que estão catalogados em uma pasta, organizados por ordem alfabética, com resumo. “Antes de ser psicóloga, eu fiz secretariado. Eu gosto de ver tudo organizado”.  Todos os novos títulos estão reunidos com carinho em duas portas de um armário em seu escritório.

É na porta desse escritório, que ela divide com a assistente social Pureza –  sim, o nome dela é Pureza – há um cartaz que diz “Todo ser humano quer se sentir importante”. Esses e outros cartazes foram entregues aos servidores dessa unidade ao fim de uma sensibilização que o Instituto Aurora realizou durante os meses de setembro a novembro de 2018, falando sobre empatia, comunicação não-violenta, direitos humanos de todos os seres humanos. Fiquei particularmente feliz ao ver o cartaz na porta de sua sala. Representa muito o que a Maria pensa e quem ela é.

Psicóloga, fã de literatura, não se conforma quando um adolescente diz não gostar de ler. Foto: Michele Bravos/Instituto Aurora.

Por acreditar que todo ser humano é importante, a Maria se empenhou em fazer os livros circularem pela unidade de modo particular. Cada jovem que ela atendia e que dizia que não gostava de ler, ela se dispunha a indicar um livro específico, considerando o perfil do adolescente e a sua história de vida. “Nos atendimentos, eu ouço desde meninos que me falam que precisam chorar a jovens que não se veem com possibilidades de escolha. Isso me direcionou para as indicações”.

O adolescente Carlos*, de 17 anos, chegou dizendo que não gostava de ler e que só conseguia entender quando tinha bastante figura, por exemplo em tirinhas e gibis. Diante disso, a Maria o desafiou a ler o livro infanto-juvenil O dia em que Felipe sumiu. A capa amarela chamou a atenção e as pouco mais de 100 páginas de texto foram encaradas. “Ele leu em dois dias”.

Projeto arrecadou 170 livros para o Cense. Foto: Mayumi Maciel/Instituto Aurora.

O Carlos, esta semana, está terminando de ler o Holocausto brasileiro, que fala sobre as vidas abandonadas e torturadas no hospício de Barbacena, em Minas Gerais, no século XX. “Esse livro está me fazendo refletir pela primeira vez sobre as consequências do eu já fiz. Eu tenho pensado sobre a dor das outras pessoas”. Carlos, que só gostava de figuras, vem sonhando em ser engenheiro civil. “Eu quero poder ter orgulho de dizer para um filho meu que eu construí algo na cidade. Passar do lado de um prédio e dizer: ‘Filho, eu fiz esse prédio”.

A unidade em que a Maria trabalha tem o espaço físico de uma biblioteca, mas está literalmente às traças. O número reduzido de profissionais e as limitações da unidade dificultam o funcionamento do espaço. Sendo assim, o hábito de leitura era praticamente nulo entre os adolescentes até o começo do ano. Atualmente, com cerca de 60 jovens na unidade, a Maria se orgulha em dizer que está com 50 livros emprestados simultaneamente. Como os adolescentes só podem emprestar um livro por vez, são 50 adolescentes lendo. Cinquenta adolescentes sendo convidados a refletir e sonhar. Cinquenta adolescentes ampliando suas visões de mundo.

Foto: Mayumi Maciel/Instituto Aurora.

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