Spoilers: a quebra do horizonte de expectativas e a educação sobre o Holocausto

Temos o poder de romper os horizontes de expectativas dos jovens leitores em prol de um bem maior: o da segurança emocional. Uma das formas de quebrá-lo é justamente eliminando o “elemento surpresa” causador da distração da criança (no caso, da ansiedade e da angústia provocada pelo inesperado)

Tenho um filho de sete anos que é aficionado pelos Vingadores. Culpa dos pais, que encontraram no universo cinematográfico da Marvel um escape para as responsabilidades do trabalho e alimentaram esse apego aos personagens criados há décadas por Stan Lee e Jack Kirby. A relação íntima que meu filho construiu com essas figuras não difere do que especialistas e pesquisadores têm debatido acerca da identificação de heróis na infância e da transmissão de valores como coragem e responsabilidade. Afinal, o herói (ou super-herói) é uma metáfora das relações afetivas que as crianças desenvolvem com o seu entorno.

Na gama de personagens que despontam nos filmes, jogos e brinquedos da Marvel, meu filho desenvolveu um carinho especial pelos Guardiões da Galáxia: um grupo disfuncional de heróis improváveis que perambulam pelo universo ajudando outros seres em perigo. O laço emocional tem sido cultivado por meio dos vários filmes em que protagonizaram ou participaram das histórias e das sagas.

A familiaridade com esses personagens crescia a cada produção dos estúdios da Marvel – e com a expectativa da próxima aventura. Até o anúncio de que, em 2023, o público se despediria dos carismáticos Guardiões da Galáxia, no último filme da trilogia escrita e dirigida por James Gunn. Há meses, acompanhando teasers, trailers e entrevistas dos atores, os fãs têm se preparado psicologicamente para esse adeus – que, devido ao tom da divulgação, pressupunha não apenas o fechamento dos arcos dos personagens, mas também, invariavelmente, possíveis mortes deles.

E é a morte um elemento doloroso e catalisador de emoções. Não a morte por si só, que faz parte do ciclo da vida, mas daqueles heróis que proporcionaram horas dedicadas de entretenimento e imaginação – no caso do meu filho, também com jogos e histórias fabulosas criadas com seus bonecos (action figure animes). Ele sabia que esse seria o último filme com tais personagens e o simples fato de existir a possibilidade de ver esses heróis sendo mortos na tela do cinema era suficiente para que seus olhinhos marejassem e revelassem um pânico real, verdadeiro. Surge, portanto, o cerne da discussão: até que ponto valeria proporcioná-lo uma experiência tão intensa e com emoções tão difíceis de serem controladas por uma criança?

Assim como em outro filme recente (Thor: Amor e Trovão) e com a anuência do meu filho, fui assistir ao filme antes dele. Sem pudor com os spoilers, o objetivo era prepará-lo emocionalmente para as possíveis perdas – que, graças à genialidade do roteiro, não aconteceram. De qualquer forma, ele quis saber quem “quase morria”, de que forma e como a morte foi evitada. Ciente do que (não) ocorreria, sua ida ao cinema foi psicológica e emotivamente preparada (e controlada) – o que não o livrou do choro num momento crítico, em que um dos heróis quase morre no clímax final. E no desfecho, ao ser perguntado se gostou da experiência, ele não teve dúvidas: “eu amei”.

Controle e segurança emocional

Todo esse nariz de cera foi o estopim para uma reflexão mais profunda que envolve a segurança emocional das crianças em relação a uma “história difícil”, a “burdening history” esmiuçada pelo historiador alemão Bodo von Borries, e, consequentemente, a educação sobre o Holocausto. Todos nós, durante a infância, tínhamos nossas histórias preferidas. Aquelas que líamos ou assistíamos várias e várias vezes, durante semanas, meses ou anos. Sabíamos de cor as falas, as ilustrações e as trilhas sonoras. Não existia qualquer fator surpresa, o que constantemente resultava em perguntas ou comentários dos nossos pais: “você não enjoou dessa história? Mas essa novamente? Você já não sabe todos os diálogos?” Como se esquecessem que eles mesmos, quando crianças, tinham comportamentos idênticos e eram interpelados pelos seus pais com as mesmas perguntas.

Porque assim se desenvolve a infância. A repetição das mesmas histórias gera sentimentos que as crianças anseiam como a segurança e o controle das situações. Ler e reler, assistir e reassistir continuamente o mesmo produto cria uma segurança socioemocional que permite à criança, num mundo repleto de surpresas e de novas descobertas, sentirem-se acolhidas e sem riscos de provocar ansiedades. Elas precisam dessa repetição: não apenas porque novas facetas são descobertas a cada nova leitura ou pelo processo de alfabetização e letramento, mas principalmente pela segurança em conhecer o desenrolar do enredo. Ter esse controle ajuda a confortá-los.

Aqui, retorno à experiência do meu filho em Guardiões da Galáxia 3. Mesmo sem as mortes, o filme é triste e difícil. Toca em temas delicados como experimentos em animais, perfeições utópicas e nossas incapacidades e qualidades. Um planeta inteiro (e seus fofos habitantes) é destruído por pura vilania. Milhares de seres foram sadicamente mortos, alguns decapitados. Além da violência e dos corpos mutilados no melhor estilo Marvel, nos compadecemos em razão dos maus tratos e a crueldade nos animais submetidos a testes hediondos. Tudo isso não foi suficiente para que esta criança de sete anos, dentro de sua inocência e ingenuidade, se sentisse abalada ou comovida. Afinal, explosões e mortes fazem parte desse universo fantástico dos heróis que salvam o mundo (ou, no caso, a galáxia).

O problema eram “seus” heróis. Cada disparo contra eles, cada ferimento, cada suspiro de dor provocava uma inquietação inevitável e diferente dos outros filmes – mesmo no caso dele, que já sabia do final feliz.

O conforto e a segurança emocional foram criados a partir de uma precaução nítida de que a ansiedade, a angústia e a aflição tomariam conta de uma experiência que deveria ser prazerosa e divertida: a de ir ao cinema comer pipoca e assistir a um filme de super-herói. A ligação emocional que ele carrega com os personagens era forte o suficiente para que os pais previssem o grande impacto emocional que a perda (até esperada, por se tratar do último filme da trilogia) causaria numa criança.

Sem a agonia do “vai morrer” ou “vai viver”, mesmo com alguns sobressaltos, foi o spoiler o responsável com que ele conseguisse viver a experiência do filme, controlar suas emoções e se despedir dos seus queridos personagens, assim como os fãs adultos. Resta agora aguardar com que a obra chegue à plataforma de streaming da Disney para que ele veja e reveja por mais inúmeras e incontáveis vezes.

O spoiler e a educação sobre o Holocausto

Durante anos, com a experiência do Museu do Holocausto de Curitiba, lidamos com um dogma educativo de que qualquer tema pode ser trabalhado com qualquer pessoa de qualquer idade. Significa que até mesmo o genocídio cometido pelos nazistas e seus colaboradores poderia (e deveria) ser fruto de propostas pedagógicas com crianças menores de 12 anos – idade estipulada para visita à exposição permanente do museu. Cada qual com suas especificidades e ancoradas na literatura. Até porque é equivocada a ideia de que existe uma literatura infantil – o que existe, afinal, é literatura. Como já destacou a Myriam Tsimbidy, um livro para crianças é um bom livro quando ele é um bom livro para todos.

No entanto, as interrogações e as formas de ler o mundo são distintas. Aqui, o horizonte de expectativas teorizado por Hans Robert Jauss (que se dá a partir de crenças, preferências e interesses particulares do leitor) nos permite criar ferramentas para que os resultados de um processo educativo criado a partir da literatura seja alcançado em sua plenitude. Em suma, temos o poder de romper esses horizontes dos jovens leitores em prol de um bem maior: o da segurança emocional, que é também do educador, que precisa se sentir seguro quanto aos resultados imprevisíveis de suas propostas pedagógicas.

Uma das formas de quebrá-lo é justamente excluindo o “elemento surpresa” causador dessa “distração” (no caso, da ansiedade e da angústia provocada pelo inesperado, sentimentos que saem do controle da criança). Foi na Escola Internacional do Museu Yad Vashem, em Jerusalém, no fim da década de 1990, onde tive contato pela primeira vez com o spoiler como estratégia educativa para quebrar os “horizontes de expectativas” e proporcionar a conexão da criança com uma história sem os elementos da apreensão e, por que não, do medo.

Em 1995, sob supervisão do historiador brasileiro Avraham Milgram e da diretora pedagógica do museu israelense, Shulamit Imber, foi publicado em hebraico pela escritora Noemi Morgenstein o livro infanto-juvenil Ratzíti lauf cmo parpar (em português, “Queria voar como uma borboleta”). Em três anos, o livro ganhou versões em inglês (I Wanted to Fly Like a Butterfly), espanhol (Quería volar como una mariposa) e francês (Je voulais voler comme un papillon). A obra, escrita em primeira pessoa e com ilustrações e fotos de página inteira, conta a trajetória de Hanna Gotfrit, sobrevivente do Holocausto nascida na Polônia e que reconstruiu sua vida em Israel. Além das letras grandes e da leitura fácil, chama a atenção justamente o recurso do spoiler. Na primeira página, antes de começar a narrar sua história, aparece a foto de uma sorridente Hanna já adulta com o texto: “Quando eu era criança, me chamavam Janchke”.

Quase dez anos depois, a mesma Noemi Morgenstein publicou outro livro, para o mesmo público: maior, de mais fôlego, contando a história da sobrevivente Marta Goren. Publicado em 2006 com o título em hebraico Bat kazót ratzínu (em português, “Uma filha assim queríamos”), também ganhou sua versão em espanhol (Una hija así quisimos). Nele, o recurso do spoiler é ainda mais explícito.

Também na primeira página, consta não apenas uma foto de Marta. O título “Em vez de começar com o ‘era uma vez’, começarei com ‘hoje” é o anúncio do seu desejo de contar onde vive e o que ela e os filhos fazem “nos dias de hoje”. Três fotos ilustram a página: abraçada aos netos e sentada no chão jogando xadrez com um deles, de não mais de cinco ou seis anos de idade. Ao fim do parágrafo, a frase: “e agora vou contar o que aconteceu”. E a história começa, de fato, com Marta ainda criança.

Ambos os livros, não coincidentemente escritos pela mesma autora, usam os spoilers como estratégia pedagógica. Ao anunciar que as protagonistas estão contando suas próprias histórias, a autora pressupõe que os leitores criarão um forte laço e serão afetados emocionalmente pelo desenrolar dos acontecimentos trágicos que sucedem. Porém, ao visualizar de antemão as vítimas já adultas e idosas (ou seja, vivas), a possível ansiedade do “vai viver” ou “vai morrer”, a mesma que poderia ter tomado conta do meu filho durante os Guardiões da Galáxia 3, é neutralizada. Assim, no caso das histórias de Hanna Gotfrit e de Marta Goren, o spoiler faz com que o jovem leitor ganhe o conforto e a segurança emocional que necessita para focar nas lições que a história proporciona, enquanto o educador, conhecendo esse ganho pedagógico, pode se concentrar em questões mais relevantes de sua proposta. Ganham todos.

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