Os perigos de um conjunto listrado e o esvaziamento da simbologia

O fato de as pessoas não associarem um conjunto de listras brancas e azuis acinzentadas ao Holocausto é um triste sintoma

Me pareceu óbvio o espanto quando, durante um passeio pelo shopping neste domingo, me deparei com um famigerado conjunto listrado na sessão feminina de uma loja de departamento que remetia diretamente à imagem dos uniformes dos prisioneiros inocentes em campos de concentrações e extermínio durante a ascensão nazista na Segunda Guerra Mundial.

Diante do choque, não apenas estético (mas humanamente ético), fiz uma postagem no X (antigo Twitter) apontando a falta de noção e de perspectiva histórica dos estilistas (e toda uma cadeia de aprovadores) da marca.

Não me parecia óbvio, então, que no dia seguinte eu estaria dedicando parte significativa do meu tempo para desenhar de forma didática a muitos e muitos internautas qual era, de fato, o verdadeiro problema com a imagem do conjunto listrado e o porquê de ser uma falta de noção, pra não dizer o mínimo.

Ainda mais ontem, 11 de setembro, data marcada pelo apagamento midiático do golpe de estado imposto com a morte de Salvador Allende no Chile em 1973. Faz-se necessário retomarmos a precisa análise do coincidentemente aniversariante do dia, o filósofo Theodor W. Adorno, acerca dos países ditos “em desenvolvimento”, onde o ideal fascista se funde com o nacionalismo e a ordem econômica, com os avanços do capitalismo, acaba por colocar a vasta maioria das pessoas em uma situação de subserviência diante do imperialismo e que para ele “a única coisa que nossa impotência pode lhes oferecer é a lembrança.” Há um compromisso com um fazer diante da memória para não repetirmos as atrocidades do passado. Em suas palavras “A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação”.

Diante das complexidades de um país como o nosso, a realidade de Auschwitz parece distante, mas a ascensão do fascismo em tempos recentes nos países em periferia do capitalismo como os do sul global, tornam essa pontuação alarmante e necessária para que, daqui do Brasil, escutemos bem a essa mesma exigência.

Voltando ao conjunto listrado. O post no antigo Twitter viralizou rapidamente pela rápida identificação que a imagem do conjunto causou a todos pela lembrança da estética nele representada. A modelagem da camisa, as mangas e pernas longas, a largura das listras, o tom de verde-azul acinzentado, o posicionamento vertical, as golas. Todo o conjunto forma a imagem rapidamente associável às conhecidas cenas fotografadas e filmadas dos sobreviventes dos campos de concentração nazista e também remetem àqueles que são as testemunhas absolutas dos terrores dos campos de concentração, aqueles que não poderiam jamais falar dos terrores por não terem conseguido sobreviver ao nazismo, como dirá Agamben, e causa espanto pela possibilidade que isso tenha escapado à percepção de tantas pessoas no processo de criação, aprovação, confecção e display.

Uma imagem produz sentido à medida que é percebida pelas pessoas. O sentido produzido pelas listras verticais pode ser diferente para cada um, como visto pelos comentários ao post na rede social, desde Beetlejuice e Bananas de Pijamas, até o pijama usado por Getúlio Vargas em sua morte – quanto a este último, vale pontuar que a associação de tantas pessoas por essa imagem aconteceu devido à popularização recente de um meme onde uma moça postou em seu Instagram um pijama listrado rosa e marrom e foi comparada com o ex-presidente. As pessoas provavelmente lembram do pijama por conta do meme, não da história.

A não associação de um conjunto de listras brancas e azuis acinzentadas como um dos maiores símbolos estéticos do Holocausto acusa um sintoma da contemporaneidade, onde há um esforço proposital ao apagamento da memória coletiva e esvaziamento da significação por uma flexibilização da ética e da história diante de atos nazistas. De novo citando Adorno, que dizia que o esvaziamento da memória torna as condições favoráveis para o retorno do inimaginável. Não nos espantar mais diante de símbolos estéticos diretamente vinculados às atrocidades da dominação humana sobre as próprias pessoas, é possibilitarmos um terreno fértil para a repetição do pior de nossa história.
Não é de se espantar que argumentos como “mas é a moda do momento” ou “são apenas roupas listradas” permeiem a contra-argumentação desses quem não se indignam. Usar de retóricas mercadológicas onde o consumo e a produção de mercadorias detém um lugar sacro acima de qualquer responsabilidade com o passado ou com o respeito à dignidade humana, caminham lado a lado com a atual ascensão da extrema-direita, esta que sabe muito bem que o uso da estética é fundamental para a dominação e manutenção do poder sobre o coletivo, pois é este o terreno onde a direita atual nada de braçada.

Adorno considerava a sobrevivência do nazismo na democracia mais ameaçadora do que a sobrevivência das mesmas tendências contra a democracia. Pois seria mais fácil identificar e combater o terror da subjugação e dominação sobre as pessoas do que a normalização do terror, sua banalização e transformação em opinião válida diante dos demais por meio de um esvaziamento cínico na atualidade, ao distorcer valores simbólicos e imaginários frente aos traumas da história, como o caso de vermos esses trajes como tendências de moda.

Muitos que comentaram o post disseram uma frase que não deixa de ser também alarmante: “olha, o pijama do menino do filme”. O atual esforço pelo esvaziamento da memória das vítimas do nazismo em prol de uma sensação de “deixar para trás” se reflete em uma identificação estética quase ficcional, onde se lembra de um personagem de filme e se deixa de lado o que o próprio filme representa. Como colocaria Adorno e Horkheimer acerca da indústria cultural, a ficcionalização de eventos históricos sobre a cultura não é sem consequências. O pijama lembrado não é de um personagem de ficção de um filme fantasioso como do Beetlejuice. O pijama lembrado é um signo histórico do genocídio de 6 milhões de inocentes.

Certamente, não é possível afirmar que o uso dessa estética nesse modelo foi proposital, acusando a marca de ativamente apologética. Mas já sabemos que há uma prática de mercado na indústria da moda que se utiliza de simbolismos polêmicos, de tempos em tempos, para gerar engajamento a despeito de qualquer ética e responsabilidade. Das duas uma, podem tanto ter usado como ferramenta estratégica quanto ignorado o impacto da imagem, o que leva ao argumento anterior de um perigoso esvaziamento do simbolismo tão alinhado com a ideologia recente da extrema-direita quanto a primeira opção.

Por fim, é importante apontar o quanto a moda, adotada como arte e da indústria cultural, ainda que plural e efêmera, não pode de forma alguma ser representada em sua estética indissociada dos seus efeitos subjetivos, do respeito à memória, do contexto social de suas representações e da atenção à guerra semiótica que se apropria de significantes e esvazia de significados para reformular a história. Nenhuma trend de sucesso ou tendência de verão pode ignorar a responsabilidade de uso de certos modelos estéticos e imagens que são marcadas no imaginário coletivo, desde a década de 40, como símbolo de um extermínio em massa, e a tentativa de desassociar essa imagem de sua proximidade de representação aponta para um imenso descaso com as vítimas, assim como um cinismo social grave, que rega o terreno para a ascensão de ideais fascistas.

Novamente, como diz o aniversariante de ontem: “A sobrevivência do fascismo e o insucesso da tão falada elaboração do passado, hoje desvirtuada em sua caricatura como esquecimento vazio e frio, devem-se à persistência dos pressupostos sociais objetivos que geram o fascismo.”

Em um país que há poucos meses deu adeus para um governo alinhado com a extrema-direita e ainda luta diariamente com o resgate da memória social da escravidão e da ditadura, a forma que seus cidadãos reagem a uma imagem de óbvia associação ao Holocausto representa o tamanho do perigo que a falta de pensamento crítico, a guerra semiótica que está posta e a crise na educação trazem para uma sociedade onde o passado não foi elaborado e corre imenso risco de retornar em sua pior forma.

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