Carta ao meu avô

Esse texto foi escrito em Cracóvia, na Polônia, para o avô que eu não conheci

19 de novembro de 2021, Cracóvia, Polônia.

Zeide Bernardo,

Desde criança eu penso no quanto queria ter te conhecido. Queria me sentar no sofá branco da casa da Rua Anita Garibaldi, comer varénikes da vovó e te ouvir contar. Contar tudo, desde a tua memória mais antiga de menino em um vilarejo polonês que eu não me lembro nem o nome, até a tua vida no Brasil. Queria saber como era a vida antes de tudo, a vida judaica na Polônia antes que tentassem apagar a memória do povo judeu. Quem eram seus amigos, como era o seu quarto, o que você mais gostava de estudar e qual era tua brincadeira favorita de criança. Queria te ouvir falando o que você sentiu quando voltou da escola e viu tua casa destruída. Para onde você foi? Como você fugiu? Quem te ajudou? Quem eram essas pessoas? Quais eram os nomes delas? Queria ouvir o que você pensou e o que você fez, Zeide. Você sabia o que estava acontecendo? Sabia o que pensavam dos judeus? Você era tão pequeno… E eu tenho tantas perguntas… Eu passaria tardes inteiras, regadas de chá preto com bolachinhas de gergelim da vovó, ouvindo quantas histórias você quisesse me contar.

Infelizmente, eu não tive essa oportunidade. Eu não pude te ouvir, nem te questionar. Você foi embora muito antes de eu chegar e muito antes que eu soubesse perguntar. Por isso, enquanto eu fazia uma visita turística pelo antigo bairro judaico de Cracóvia, procurei por você. Imaginei um menino pequeno, um pouco antes da idade de seu bar mitzvah, tentando passar despercebido pelos soldados nazistas enquanto vagava pelas ruas da cidade, em busca de algum resto de comida que pudesse lhe fornecer algumas calorias. Olhei pela janela do ônibus e tentei te enxergar perambulando pelos bosques de Lupochova, esperançoso de que alguma família camponesa se sensibilizasse com uma criança tão pequena, tão magra e tão sozinha. Te procurei em cada canto cinzento e congelante de Varsóvia, até mesmo dentro dos sombrios crematórios de Auschwitz. Comecei a te ver em todos os lugares e a te sentir perto de mim de um jeito que nunca tinha sentido antes. De alguma forma, eu senti como se você finalmente estivesse contando a tua história para mim, como se eu estivesse passando pelos lugares que um dia você passou. Como se a cidade, os campos, as ruas que um dia tinham sido parte de guetos, falassem sobre a vida que um dia você viveu.

De repente, em meio ao caos, me senti sortuda. Talvez porque sorte tem a ver com algo que a gente não pode explicar e, naquele momento, eu sentia como se você e eu tivéssemos sim passado inúmeras tardes tomando chá na casa da rua Anita Garibaldi. Parecia que, de uma maneira muito esquisita, meu desejo de uma vida toda de te conhecer tivesse se realizado. Acho que foi nesse momento que eu me comprometi a conhecer o máximo de histórias de pessoas que passaram pela Shoá que eu pudesse. Pensei no quanto eu queria contá-las para qualquer um que estivesse disposto a escutar e não só porque assim eu me sentia perto de você, mas porque naquela hora eu percebi que a minha existência era toda baseada no que você viveu.

Zeide, a minha mãe sempre me disse que você era uma pessoa que buscava explicar as coisas e entender o que tinha acontecido com você, mesmo que fosse difícil. Ela me contou, também, que você se frustrou muito com as pessoas e que poucos valoravam os relatos dos sobreviventes no pós-guerra.

Eu te prometo que eu não vou esquecer do que aconteceu com você. Não vou esquecer como tua infância e juventude foram arrancadas de você e de tantas outras crianças. Com 12 anos você se viu completamente sozinho num mundo que mais parecia o inferno em chamas e eu não vou esquecer que você sobreviveu, se escondeu, teve medo e se criou sozinho enquanto queriam nos aniquilar. Eu não vou esquecer de que te desumanizaram, humilharam e torturaram. Não vou nunca deixar que apaguem essa memória e que digam que foram monstros ou demônios que fizeram isso com você. Foram seres humanos como nós, com famílias e paixões como nós, que violaram nossas casas e nossos corpos.

Depois de tudo que eu vi aqui na Polônia, o que mais me choca hoje em dia é o fato de que o ser humano não mudou muito. Intolerância e preconceito continuam ocasionando em violência. A gente precisa entender que as pessoas são sim diferentes e tem histórias diferentes, mas somos todos humanos e responsáveis por aquilo que acontece à nossa volta. O papel de todos é impedir que a identificação e discriminação evoluam para a violência. Eu não posso mudar o que aconteceu com você, Zeide, mas posso estudar esse processo histórico e entender como ele auxilia na identificação de alertas para que o que aconteceu com você não se repita isso. Não quero mais intolerância, nem passividade. Não quero mais que outras netas se sintam afastadas de seus avós, que filhos não conheçam seus pais ou que pais enterrem seus filhos por causa da intolerância. Eu quero a igualdade e cabe a nós mesmos construirmos um mundo menos injusto.

Glossário:
Zeide – “Avô” em iídiche (idioma falado por judeus da Europa Oriental)
Varénikes – Típicos pastéis cozidos recheados de batata, comuns no Leste Europeu.

Sobre o/a autor/a

Compartilhe:

Leia também

Melhor jornal de Curitiba

Assine e apoie

Assinantes recebem nossa newsletter exclusiva

Rolar para cima