Chaveirinho criou a família com o trabalho de engraxate e mantém fé na profissão

Conheça a história de um migrante que cruzou o Paraná e criou sua família em Curitiba

Dois sacos de roupa, um saco de panela, alguns trocados, a esposa e cinco filhos. Assim chegou Aparecido Rodrigues da Silva em Curitiba (PR), no ano de 1993. Natural de Paraíso do Norte, no noroeste do estado, ele se mudou para a capital motivado a dar um futuro melhor para as crianças, onde pudessem estudar e não acabar no trabalho braçal. Hoje, aos 64 anos, ele garante: “estão todos realizados”.

Trabalhar nunca foi um problema para ele. O pai o deixou com a mãe quando o menino tinha oito anos de idade. Aos 11, pediu ajuda para conseguir um emprego. Começou em uma cerâmica, produzindo tijolos feitos manualmente e recebia todo sábado. “Que felicidade quando eu pegava aquele dinheirinho e colocava no bolso”, conta.

A maior parte da remuneração ia para a mãe, e o que sobrava, usava para ir ao circo, ao cinema de madeira e shows sertanejos, programas característicos do interior. Ainda lá, trocou de emprego para uma empresa maior e depois em uma fazenda. Casou-se novo, aos 18 anos, e depois disso se mudou algumas vezes. São Paulo (SP), Londrina (PR) e Paraíso do Norte novamente. Passou por trabalhos como em empresa de amortecedores, de ônibus, distribuidora de doces, e assim conheceu todo o estado até chegar à capital. Aqui, já tinha um amigo, que o convidou para trabalhar como engraxate. “É pouco, mas todo dia você tem dinheiro”, escutou.

Foto: Natália Schultz Jucoski

Chaveirinho, como é popularmente conhecido, criou todos os filhos com o trabalho de engraxate. Três décadas depois, vê a família ainda maior, com sete netos e um bisneto. Mesmo em meio às dificuldades, ele garante que “é uma profissão muito honrosa” e que “o trabalho dignifica”. Não à toa, se denomina “o velho guerreiro”.
“Me emociona falar. Alguns dias eu trabalhava até dez horas da noite com uma caixinha nas costas na rua XV de Novembro, para levar um quilo de arroz e uma caixa de ovo para a mulher dar para as crianças em casa”, lembra.
Sobrevivendo aos vestígios da pandemia.

A “Boca do Brilho”, um local mais seguro e confortável para os engraxates, foi inaugurada em 2001, na Praça Osório, próximo ao campus Garcez da Uninter, região central de Curitiba. Chaveirinho recorda todos os 28 postos ocupados pelos trabalhadores, que chegavam a ter fila de pessoas esperando para dar brilho aos seus calçados. Ao decorrer das duas décadas seguintes, o movimento de clientes cairia bastante.

De acordo com o profissional, a pandemia tornou as coisas ainda mais difíceis. Para ele, os advogados são os principais clientes do serviço, já que os sapatos bem lustrados fazem parte do vestuário, mas se tornam dispensáveis em audiências virtuais. Somado a isso, a necessidade de isolamento impossibilitou que as pessoas compartilhassem do local também utilizado muito para socializar, conversar e trocar experiências.

Foto: Natália Schultz Jucoski

Não por acaso, os assuntos que mais surgem são política e futebol, o “forte” do profissional. Apaixonado pelo esporte, acompanhava fielmente o time do Paraná, mas se decepcionou com o caminho que a gestão tomou e a queda que o clube levou até ficar sem divisão nacional. O neto Lucas Crepaldi foi quem trouxe de volta a alegria de acompanhar uma equipe. Crepaldi que começou a carreira de jogador em categorias de base em Piraquara, foi chamado para treinar com o time profissional do Coritiba. “Me tornei coxa-branca porque abriram as portas para o meu neto […]. Quero ver ele jogar na seleção brasileira, se Deus quiser. Eu tenho fé”, conta com orgulho.

Conversas são cada vez menos frequentes com a inevitável saída de colegas já aposentados e que decidiram encerrar a carreira, assim como outros que encontraram outras ocupações. Dos nove que continuam fazendo parte da Associação de Lustradores de Curitiba, alguns ainda conciliam a função com outros trabalhos, como a reciclagem. Chaveirinho é quem representa a classe na Prefeitura Municipal de Curitiba (PMC) e na Urbanização de Curitiba (URBS), como presidente da associação há quase nove anos.

Com o alvará que conquistaram da PMC, podem atuar no espaço das sete horas da manhã até às sete horas da noite, que, na época do horário de verão, se estendia até às nove da noite. Como autônomos, cada um faz o próprio horário de trabalho. O representante mora a duas quadras do local e chega entre oito e oito e meia da manhã e vai até quatro, cinco horas da tarde. Outros colegas, no entanto, moram na região metropolitana, como Araucária, Piraquara, São José dos Pinhais, e enfrentam uma jornada mais longa até o trabalho.

Quando o movimento aumenta, é pelo crivo de Chaveirinho que os candidatos precisam passar antes de ingressar para a associação. Mas ele reconhece que atualmente “está fraco”, de seis a oito atendimentos por dia. O que pode piorar dependendo da época do ano e o tempo do dia, explica ele. “Estamos conseguindo sobreviver, mas estamos sempre buscando novos ares”, afirma.

Foto: Natália Schultz Jucoski

A alternativa encontrada foi se atualizar às novas tecnologias, não só da função exercida, mas também do meio de divulgação, com a internet e o alcance das redes sociais. Chaveirinho conta que não trabalham apenas com calçados: também são especializados em jaqueta de couro, bolsa de couro, hidratação de couro de carro, consertam tacos de sapatos femininos, trocam cadarços e encontraram produtos para trabalhar com sapatos de outros materiais, como a camurça.

Alguns clientes levam calçados em quantidade e marcam horário para buscar, outros podem contar com a comodidade de receber o serviço em casa e chamar os profissionais pelo WhatsApp. A vitrine que Chaveirinho utiliza para expor e divulgar os trabalhos feitos é o perfil no Facebook, que pode ser encontrado como Aparecido Silva. “Coloco o antes e o depois dos calçados danificados. Os clientes veem e trazem os sapatos para consertar. Tenho clientes que atendo desde que cheguei em Curitiba”, conta.

Questionado sobre o futuro da profissão, ele acredita que, mesmo com o baixo movimento, vê vida longa para o local e tem esperança de que neste ano, após o carnaval, a clientela volte com maior frequência para o espaço.

“Olho para trás e só agradeço a Deus, venci na vida. Ninguém me estendeu tapete, mas também não puxei o tapete de ninguém. Foi só com o meu suor. Em matéria de trabalho, muita coisa eu fiz. Tenho o segundo grau incompleto, mas fiz a faculdade da vida. E fiz da minha vida duas coisas: Deus será o comando e Jesus o alicerce”, finaliza.

Orientação: Larissa Drabeski

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