25 out 2021 - 8h00

Aumento da inflação revela problemas na economia e no bolso dos mais pobres

Desemprego, altas taxas de juro e instabilidade política afetam desempenho do país e torna mais difícil a vida dos brasileiros

A alta do preço já era sentida desde o início da pandemia da Covid-19, mas nos últimos meses a inflação tem afetado de maneira diferente as classes sociais, quanto menos a família ganha, mais ela concentra os gastos em itens essenciais como a alimentação por exemplo, o que acaba tendo um impacto muito forte nos rendimentos de quem ganha menos.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) reportou recentemente que a inflação oficial no Brasil para setembro, acumulada nos últimos 12 meses, ficou bem acima do previsto. A inflação projetada para o ano era de 6,9%, mas o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) aponta uma inflação de 10,25%.

O impacto dessa combinação de aumentos afeta a economia e vida dos brasileiros, o que influencia negativamente no crescimento do país, conforme explica a doutora em Economia e políticas públicas e professora Pollyannna Gondin: “Medimos o crescimento do país pelo PIB (Produto Interno Bruto), então, por um lado eu tenho a redução do poder de compra da população que consequentemente compra menos, afetando a produção das empresas, visto que o que é produzido acaba não sendo vendido, e essa produção acaba sendo estocada. Sem vender, as empresas passam a contratar menos insumos para produção e menos trabalhadores para as linhas de produção e assim vemos um aumento no desemprego”.

Esse ciclo negativo está ligado à condição e qualidade de vida da população, pois quanto mais gente desempregada, maior o índice de extrema pobreza do país. Somado à desvalorização do real perante o dólar, aumento dos riscos a investidores, aumento da taxa de juros e cenário político instável, a tendência é um futuro nebuloso.

R$ 160,00 por mês ou menos, esse é o valor que o Banco Mundial usa como referência para caracterizar a extrema pobreza e no Brasil ao menos 18 das 27 capitais tiveram aumento das taxas de pessoas que vivem nessas condições no último ano.

A FGV (Fundação Getúlio Vargas) apura que a pandemia acentuou ainda mais os impactos da pandemia na população mais pobre, que são diretamente afetadas com o aumento do desemprego e aumento de preços, causado pela inflação. As consequências desses fatores, culminam principalmente da insegurança alimentar da população, a Rede Brasileira de Pesquisas em Soberania Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), aponta que ao menos metade da população brasileira conviva com algum grau de Insegurança Alimentar e que ao menos 19 milhões de brasileiros estão em condições de fome extrema no país, ou seja, não tem o que comer.

Os dados foram disponibilizados aqui.

Dentre as alternativas paliativas, estão programas para facilitar o acesso à crédito para a população mais carente. O problema é que essa medida também aumenta o endividamento das pessoas em vulnerabilidade.  

“O governo lança um programa de crédito, mas ao mesmo tempo ele não mexe de forma efetiva em auxílios que deveriam ser tratados como prioritários e em soluções para o desemprego. Enfim, acredito que o governo deveria fornecer primeiro uma melhora aos auxílios para a população e fornecer crédito para as empresas. Por exemplo, crédito a juro zero. Sim, o governo teria condições de fazer isso sem prejudicar a sua política fiscal. Então eu vejo como uma falta de prioridade o que o governo tem feito”, explica Gondin.

Josué Ribeiro, 48 anos, casado, com 2 filhos um de 6 e outro 8 anos, mecânico atualmente desempregado, reflete a atual situação em que grande parte dos desassistidos se encontram no país. Vendendo balas em meio ao trânsito de Curitiba para conseguir sobreviver, relata que com o pouco que consegue arrecadar com doações e as vendas, não é o suficiente para conseguir pagar as contas e comprar mantimentos, “essa foi a forma que encontrei de ao menos poder levar um pouco de comida aos meus filhos e esposa. Existem muitas pessoas boas que me ajudam, mas cada vez que vou comprar comida é um preço diferente, assim como as contas que a cada dia que passa aumentam e se acumulam sem que eu consiga pagar. O auxilio está para terminar, sem ele não sei como vai ser”, contou.

A elevação da taxa Selic força a subida de outras taxas de crédito. Esses constantes aumentos desestimulam o crédito a população e empresas, tornando o acesso cada vez mais caro. Com menos dinheiro circulando, a economia do país tende a estagnar ou retroceder. Este talvez seja o maior teste para a moeda brasileira, implantada nos anos 1990 e que chegou a valer o mesmo que o dólar.

Orientação: Guilherme Carvalho (professor e jornalista).

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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