O fundamentalismo religioso é uma das principais ameaças à democracia brasileira

Está em curso um projeto político que pretende capturar o Estado em benefício de uma única forma de religião e sua visão intolerante e estreita de mundo

Na semana passada o deputado Henrique Vieira (PSOL/RJ) proferiu, na tribuna da Câmara dos Deputados, um discurso histórico. Durante cinco minutos o parlamentar tratou o fundamentalismo religioso professado e praticado por algumas denominações e lideranças brasileiras pelo seu nome. Trata-se, segundo Henrique Vieira, também ele um pastor evangélico, de uma moral religiosa “fascista, violenta e antidemocrática”.

Salvo engano, nenhum outro parlamentar fez, antes, denúncia tão corajosa e necessária. Pelo contrário, estamos fartos de assistir governos de todas as tendências ideológicas se curvarem às igrejas e ao poder político e econômico de seus bispos e pastores. 

O pretexto para o discurso de Vieira foi outro discurso, o da ex-primeira-dama Michele Bolsonaro no ato de apoio ao genocida miliciano, seu marido, que levou milhares de pessoas à Avenida Paulista no dia 25 de fevereiro. Em meio a mentiras mais ou menos explícitas, omissões deliberadas e fartas doses do patriotismo canalha da extrema-direita, o discurso cínico de Michele revelou ao menos uma verdade.

“Sim, por um bom tempo fomos negligentes ao ponto de dizer que não poderiam misturar política com religião”, disse ela a certa altura. “E o mal tomou e o mal ocupou o espaço. Chegou o momento, agora, da libertação”. Para libertar os bons e os justos, eles, do mal, somente “um Deus todo poderoso (…) é capaz de restaurar a curar a nossa nação”. 

Preocupante? Sim, pelo menos para quem, como eu, acredite que, se é para existir um Estado, ele precisa ser laico. Assustador? Também, ao menos para quem, como eu, ateu e anarquista, não se sente confortável com o risco de viver em uma sociedade que estigmatiza e condena ao fogo, mesmo que simbólico, quem não tem fé ou professa alguma crença religiosa que não a do fundamentalismo cristão.

Alguns dirão que exagero. Em um outro contexto, talvez. Sabemos que no Brasil nem pano de prato é inteiramente laico, quem dirá o Estado. Mas nesse tempo que nos cabe viver, o discurso de Michele Bolsonaro extrapola as relações históricas e algo promíscuas entre governos e igrejas. Ele é expressão de um projeto político muito claro, que avança a passos largos e que nem mesmo a derrota eleitoral de Bolsonaro conseguiu frear. 

E não se trata de um projeto político qualquer, mas de um empreendimento que pretende capturar o Estado e as instituições em benefício de uma única forma de religião e sua visão intolerante e estreita de mundo. Nessa concepção, quem não crê como eles, ou simplesmente não crê, é subcidadão. Em outros termos, o “mal” de quem eles, os bons e justos, serão libertados por ou em nome de Deus.

A igreja e o poder ontem e hoje

Não é preciso voltar à Idade Média, pois a modernidade nos fornece o suficiente de exemplos sobre a proximidade entre os poderes político e religioso. Alguns são escandalosos: nos anos de 1930 e 40, o Vaticano assistiu impassível a ascensão do nazismo porque, além do seu indisfarçável antissemitismo, o então papa Pio XII considerava Hitler uma espécie de antídoto necessário ao avanço do comunismo.

Em 1929, um acordo assinado entre a Itália fascista e a Santa Sé, o “Tratado de Latrão”, devolveu o Vaticano à igreja católica que, em troca, manteve-se silente e indiferente aos excessos totalitários de Mussolini. Igualmente conhecidas são as relações orgânicas entre a igreja católica e as ditaduras fascistas de Franco, na Espanha, e Salazar, em Portugal. 

Um pouco mais contraditórias foram as relações entre as igrejas e as ditaduras na América Latina. Se muitos religiosos e religiosas resistiram a elas, pagando um altíssimo preço por isso, não faltaram bispos e cardeais dispostos a apoiá-las. 

Mas algo distinto ocorre agora, e não apenas porque, na atual conjuntura, não é o catolicismo quem protagoniza o cerco ao poder e ao Estado, mas as religiões evangélicas e, mais notadamente, aquelas denominadas neopentecostais. 

No passado recente, a aliança política entre Estado e igreja se assentava, grosso modo, em uma barganha que trazia benefícios a todos os envolvidos. Simplificando muito: os governos ganhavam legitimidade social, traduzida em apoio e popularidade. As igrejas, por sua vez, usavam os recursos do Estado para ampliar o alcance de sua presença e influência. Além de, eventualmente, aumentarem seu patrimônio. 

A diferença fundamental é que as denominações neopentecostais não querem mais simplesmente dividir o poder, como coadjuvantes, com o Estado e os governos. O propósito agora é exercer o poder dentro do Estado, como afirmei antes, sequestrando-o e as instituições em favor delas mesmas, de sua visão de mundo e de um modelo de sociedade, parafraseando o inelegível, terrivelmente autoritário.

Doutrinação e aparelhamento

Se a voz mais estridente, intolerante e raivosa desse projeto de poder é a de Silas Malafaia, não é sua igreja, mas a Universal do Reino de Deus, quem o sintetiza exemplarmente ao promover um amálgama entre fundamentalismo religioso e ethos militar. Em 2015, a IURD iniciou um primeiro experimento de militarização da fé, os Gladiadores do Altar, espécie de milícia criada para “fazer a obra de Deus e desfazer as obras do mal”.

O grupo não vingou e desapareceu, inclusive, do site da IURD. Mas desde 2018 a igreja de Edir Macedo mantém o Programa Universal nas Forças Policiais (UFP) – que foi, inclusive, objeto de outro discurso de Henrique Vieira na Comissão de Direitos Humanos na Câmara. Presente em 24 estados, a UFP, oficialmente, quer prestar assistência espiritual e religiosa às tropas militares. 

Mas há implicações práticas – em algumas cidades, parte do efetivo e viaturas são deslocados para participar de atividades nos templos da Universal – e ilegalidades envolvidas no programa – PMs usando uniformes nos eventos da igreja e sendo contratados para fazer “bicos” como segurança de pastores, por exemplo –, para as quais governadores bolsonaristas, também interessados nessa aproximação, passam pano. 

Além, claro, da doutrinação e do aparelhamento ideológico das forças de segurança pelos preceitos morais e religiosos da IURD.  

A captura do Estado, obviamente, não está limitada a tentativa de aparelhar as forças policiais – o que já seria grave. Quem acompanha as notícias e os debates parlamentares está ciente dos esforços da “bancada da bíblia” e seus aliados do boi e da bala, para retirar direitos e liberdades, principalmente das chamadas minorias; a tentativa de impedir a regulamentação das plataformas digitais; o funcionamento da máquina de ódio e de mentiras para atacar movimentos sociais como o MST e barrar as pautas progressistas.

O fundamentalismo religioso, portanto, não se limita a um código de crenças transcendentes. Ele toma forma na e pretende impor à realidade uma soma de condutas e regras que tomam como modelo, justamente, aquele conjunto de crenças religiosas e valores morais considerados fundantes e fundamentais. E em relação a eles não se admite nem tolera outra atitude que não a obediência e a servidão, preferencialmente voluntária.

Há quem goste de recorrer às teocracias islâmicas para falar dos riscos de uma “orientalização do Ocidente”, que nos condenaria a um retrocesso civilizacional e ao ocaso de uma democracia construída ao longo de séculos de combates. Mas não é necessário recorrer ao regime dos aiatolás e a iminência do fim da civilização ocidental: quando, para satisfazer a ambição política e econômica de uns poucos é preciso subjugar, pelo medo, outros tantos, já estamos diante do terror e da barbárie.

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