A Sanepar quer que os paranaenses evitem o desperdício de água. Para isso, lançou uma campanha com "dicas para o uso consciente da água". O problema é que as imagens e os vídeos da propaganda são sinalizados como gerados por inteligência artificial (IA), justamente uma das tecnologias que mais consome recursos naturais na atualidade.
A reportagem perguntou à Sanepar se a campanha foi feita com IA, mas a empresa não deu retorno. A descrição oficial no YouTube traz o selo "Criado com IA", indicando que sons ou recursos visuais foram alterados ou totalmente gerados por Inteligência Artificial. Esse silêncio levanta uma questão importante sobre a responsabilidade ambiental da própria estatal: se a ferramenta foi mesmo usada, o esforço que a Sanepar pede para o cidadão fazer em casa acaba perdendo o sentido, já que a produção da propaganda pode ter gasto uma quantidade enorme de água.

A confirmação dada pelo selo do próprio YouTube ganha um peso ainda maior diante da dificuldade de comprovar o uso de IA de forma independente. O professor de Ciência da Computação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Eduardo Todt, explica que as ferramentas de checagem disponíveis no mercado não são totalmente confiáveis. "O problema é que essas ferramentas de detecção de IA têm sido bem criticadas porque têm falhado muito", aponta.
Todt detalha que o formato escolhido para a campanha, uma animação desenhada, dificulta o trabalho de detecção visual, que costuma focar em distorções de fundo ou membros extras em imagens fotorrealistas. "É mais difícil detectar porque foi feito simulando uma animação, um desenho. Mesmo que você ache uma pequena falha, pode ter sido falha na criação do desenho", esclarece. Por isso, a sinalização automática da plataforma do Google se torna uma das poucas garantias sobre a origem do material.
Apesar da dificuldade técnica de rastreio, o professor ressalta que a probabilidade do uso da tecnologia é "enorme" devido às práticas atuais do mercado de comunicação. "As agências de publicidade estão usando em tudo, é um desespero. Estão deixando de contratar um monte de designers porque a IA faz quase de graça, e eles ficam felizes com isso", relata o pesquisador.
A “sede” da IA
A troca de profissionais humanos por algoritmos geradores de imagem tem um custo humano e ambiental severo. Para Eduardo Todt, o impacto da tecnologia ainda é invisibilizado. "A IA é uma tragédia para o meio ambiente. Isso é uma coisa que as pessoas ainda não entenderam, ainda não caiu a ficha", alerta. Ele critica o modelo de expansão da infraestrutura que sustenta essas ferramentas, classificando-o como um "novo colonialismo". "Alguém quer instalar um data center aqui? Que bonito, para poluir nosso rio, pegar nossa energia. Não tem nada de legal vir data center para cá", pontua.
Um relatório da ONU, divulgado em junho de 2026, revelou dados alarmantes sobre a pegada ecológica dessas interações: a geração de uma única imagem por Inteligência Artificial consome cerca de 1.450 vezes mais energia do que uma pesquisa textual simples, o equivalente a manter uma lâmpada LED acesa por 17 minutos e gera uma pegada hídrica estimada em 29 mL por imagem.
Quando avançamos para a geração de vídeos curtos, o consumo escala para até 4,1 litros de água por peça, o suficiente para suprir as necessidades de hidratação de uma pessoa por dois dias. Segundo o estudo, até 2030 a operação e o resfriamento da infraestrutura global de inteligência artificial poderão demandar um volume de água equivalente ao consumo doméstico básico de cerca de 1,3 bilhão de pessoas.
Além da água, a projeção do consumo de eletricidade global por data centers ultrapassará a assombrosa marca de 945 TWh até 2030 para suportar a carga das IAs. Em termos comparativos, esse valor é quase o triplo da soma das matrizes elétricas inteiras do Paquistão, de Bangladesh e da Nigéria juntas, colocando o conjunto mundial de data centers como o 6º maior país consumidor do planeta em termos energéticos.
Texto de Marya Marcondes, aluna de Jornalismo da UFPR.
Sob orientação de Rogerio Galindo.