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Camerata 2019 vai do Réquiem de Mozart à Noite Transfigurada de Schoenberg

Coro e orquestra da Camerata. Foto: Cido Marques.
Escrito por Andre Egg
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Marque na agenda, a programação tem muita coisa boa que você não vai querer perder

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A Camerata Antiqua de Curitiba é uma entidade cultural do município de Curitiba que existe desde 1974. Sendo um grupo mantido por verbas públicas, a Camerata precisa assumir algumas responsabilidades importantes. Já passou bem passado o tempo em que e prefeitura podia investir grana em música clássica como um divertimento esnobe de elite. Agora sabemos que a programação musical precisa ser integrada a uma série de ações, com resultados que estejam mais ao alcance da população. Afinal, cada concerto da Camerata é uma pequena maravilha, mas não cabe a cidade inteira na Capela Santa Maria, não é mesmo?

Neste ponto, a programação da Camerata para 2019 revela boas políticas. O conjunto da programação envolve várias atividades diferentes. Tem os concertos na Capela Santa Maria, que são a principal atividade. Neste ano estão previstos 3 concertos só do coro, 7 concertos só da orquestra, 6 concertos do conjunto completo e 3 apresentações de conjuntos menores (quarteto e quinteto) formados por integrantes da orquestra.

Digo o número de concertos referindo a um mesmo programa musical, porque no geral cada concerto envolve apresentações do mesmo programa em duas datas, na sexta às 20h e no sábado às 18h30. Estão previstos para o ano, mas na verdade os três primeiros já aconteceram.

Essa programação está muito bem construída, e é a principal atividade da Camerata. Para isso são mobilizados os dois conjuntos estáveis, ou seja, músicos contratados por tempo suficiente para participar de toda a programação do ano, a maioria deles por vários anos. Mas também estão envolvidos muitos solistas e regentes convidados. Já faz algum tempo que a Camerata não tem regente fixo.

A programação dos anos recentes demonstrou que foi uma boa decisão, porque a qualidade do conjunto e da programação se mantém em nível alto e crescente. Na verdade, o coro ficou algum tempo sem regente fixo mas depois passou a contar com uma direção musical. Desde a chegada da maestrina Mara Campos para essa função, o coro alcançou seu melhor nível técnico e musical. Daqui uns tempos teremos que fazer uma estátua da maestrina aqui na cidade pelos serviços prestados.

Além da programação, digamos, principal, o ano envolve uma série de outras ações importantes. O coro da Camerata organiza a IV Semana de Canto Coral Henrique de Curitiba, de 11 a 14 de junho, e finaliza o evento com concerto nos dias 15 e 16. O nome do evento é uma homenagem a um dos compositores mais importantes da cidade. É sempre uma semana intensa, com a participação de muitos corais, daqui e de fora.

Nesta semana aparece um pouco do importantíssimo trabalho que o coro da Camerata faz multiplicar cidade afora. Cantores do coro com experiência em regência trabalham com corais abertos à comunidade em ruas da cidadania. O projeto se chama “Nosso Canto”, e os vários corais se apresentam na programação deste evento.

A Camerata faz também uma apresentação imperdível com obras de Villa-Lobos em um concerto cênico voltado ao público infantil. Algumas apresentações são fechadas para colégios. Uma apresentação será aberta ao público – dia 12 de outubro, no Teatro Positivo. Já é uma tradição fazer estes concertos cênicos para o público infantil, e vai ser bom fazer em um teatro maior, porque a procura é muito grande, a Capela Santa Maria não comporta.

Também acontecem três programas distribuídos ao longo do ano por igrejas da cidade, sempre com entrada franca. Num desses programas, coro e orquestra, outro somente com a orquestra e mais um somente com o coro. Cada programa é apresentado 3 ou 4 vezes, entre abril e novembro, em vários bairros da cidade. Essa programação é fundamental, porque os programas são mais acessíveis (obras que já se provaram clássicas, fáceis de gostar) e o espaço é mais informal. É mais fácil você ir ver a Camerata na sua paróquia do que se deslocar até o centro para um concerto mais formal.

Há ainda o circuito chamado “Música pela vida”, com concertos em hospitais e asilos. Essa programação inclui um concerto da orquestra, um concerto do coro e um programa com coro e orquestra que terá 6 apresentações entre agosto e dezembro.

De algum jeito você será atingido por esta programação tão variada, dinâmica e bem planejada. A organização da temporada revela uma correta visão do que um conjunto musical pode fazer pela cidade, aplicando bem as verbas públicas e os patrocínios empresarias (com renúncia fiscal) que lhe são direcionados.

Naqueles concertos da programação principal, posso comentar um pouquinho mais as obras planejadas. Afinal, nestes aí você vai ter que se arrumar, sair de casa, usar transporte coletivo ou estacionar carro particular, pagar ingresso. Já aviso que tem uns dias aí que só comprando ingresso antes, porque vai lotar.

Primeiro, os concertos que já passaram. Infelizmente alguns de nós já perdemos a abertura do ano, que comemorou o aniversário de Curitiba (em 29 de março) a abriu as comemorações dos 45 anos da Camerata. O Te deum de Luís Alvares Pinto é uma obra que representa bem o ideal inicial de um conjunto dedicado à música antiga, e é uma obra que já se notabilizou na história da Camerata. Foi complementada pela Missa nº 2 de Schubert, pra lembrar que a Camerata não é um conjunto dedicado exclusivamente à musica antiga, mas tem se notabilizado por excelentes execuções do repertório clássico tradicional.

No dia 6 de abril já aconteceu o concerto com quarteto de cordas e um pianista convidado, executando obras do compositor francês Ernest Chausson. Nos dias 12 e 14 de abril, tivemos o Stabat Mater de Pergolesi e a Cantata BWV 4 de Bach. São obras muito emblemáticas do final do período barroco, coisa linda de ver.

Depois, o ano traz muita coisa linda demais, que eu não perderia se fosse você. Pega o endereço http://icac.org.br/camerata-antiqua-de-curitiba/programacao/ e já deixa na tua página inicial aí, assim você não perde nada. Ou passa na Capela Santa Maria e pega um folderzinho com tudo que vai acontecer no ano.

Preciso dizer que este material costuma ficar pronto somente por essa época mesmo, quando alguém já perdeu os primeiros concertos. Isso talvez seja a principal coisa que a Camerata vai precisar corrigir – podia divulgar isso já no fim do ano anterior, vender assinaturas e tal. Só falta isso para entrar mesmo no rol dos conjuntos de alto nível (musical e administrativo).

Uma pequena prévia das coisas que mais me chamaram a atenção:

  • dias 26 e 27 de abril, o violonista Walmor Boza solando Tres Danzas Concertantes de Leo Brouwer;
  • dias 17 e 18 de maio, versão orquestral de Noite transfigurada de Schoenberg – o maestro curitibano Marcio Steuernagel virá direto de Viena, onde faz seu doutorado, para reger um concerto só de vienenses (Beethoven e Mozart também estão no programa);
  • clássicos do barroco, se me permitem o trocadilho, são o ponto alto da programação do ano, daqueles concertos que você só entra se comprar com antecedência o ingresso – Dixit Dominus de Haendel, 5 e 6 de julho; Cantatas de Bach, 6 e 7 de setembro; Messias de Haendel, 13 e 14 de dezembro;
  • outro ponto alto do ano será o Requiem de Mozart – 1 e 2 de novembro;
  • como a programação tem pouca música de compositores brasileiros, será ainda mais notável o Quinteto com piano de Henrique Oswald, dia 9 de novembro;
  • também tenho muita curiosidade pelas canções inglesas (Britten, Holst, Vaugham Williams) que o coro vai fazer dias 27 e 28 de setembro e pelas árias de óperas de Haendel, que a orquestra vai fazer com a cantora curitibana (mas que ganhou o mundo) Marília Vargas dias 25 e 26 de outubro.

Avaliando o conjunto geral da programação musical, pode-se dizer que é uma programação bem balanceada. Como sempre na vida da Camerata, bastante música barroca e clássico-romântica, pouca música moderna ou contemporânea e pouca música brasileira. Na verdade esse ano isso piorou um pouco, já tivemos mais música moderna e muito mais música brasileira. Mas pra gente que já assistiu a Camerata nos anos anteriores, e ainda vai assistir nos próximos, isso aí se corrige em outras temporadas.

Ponha na agenda, prestigie o conjunto musical mais importante do município, delicie-se com as ótimas execuções que vão aconteter, reveja os clássicos, descubra coisas novas.

PS: Quando a Camerata fez 40 anos, escrevi um texto sobre a comemoração. Lá tinha um destaque para o que se comemorar e uma preocupação com a falta de estrutura financeira que afetou a programação do grupo. No texto, também links para várias críticas que escrevi e outros comentários como este que estou escrevendo sobre a programação geral do ano. Quem quiser ler, clica aqui.

Sobre o autor

Andre Egg

André Egg é professor da UNESPAR, músico e historiador. Doutor em História Social pela USP. Colaborador no mestrado e doutorado em História da UFPR. Organizador do livro Música, cultura e sociedade: dilemas do modernohttp://andreegg.org

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