Em entrevistas recentes, Sandro Alex repetiu uma narrativa sobre a Copel que merece ser conferida com documentos públicos. A discussão não deve ser tratada como uma disputa de opiniões ou de slogans. Estamos falando de tarifa de energia, qualidade do serviço e investimentos em infraestrutura — temas que afetam diretamente famílias, comércio, indústria e produção rural.
Fui empregado e engenheiro da Copel. Conheço a história da companhia, seus procedimentos, sua estrutura de planejamento e a forma como os investimentos são apresentados nos relatórios corporativos. Por isso, considero importante fazer uma leitura técnica, acessível e verificável de três afirmações que vêm sendo repetidas no debate eleitoral: a ideia de que “Brasília” aumenta diretamente a tarifa; a afirmação de que o Paraná estaria em terceiro lugar entre as menores tarifas e a comparação segundo a qual, quando a Copel era estatal, construía-se uma subestação a cada quatro anos. Tudo isso dito pelo candidato ao governo do Paraná, Sandro Alex (PSD).
Os documentos públicos contam uma história diferente destas afirmações enganosas — e permitem que qualquer cidadão confira as fontes. Vamos aos esclarecimentos:
O reajuste da tarifa:
A primeira correção é de procedimento. A Copel apresenta o pedido de reajuste tarifário dentro do processo regulatório. Mais do que isso: é a concessionária que informa e pleiteia o reconhecimento dos investimentos, obras, custos e demais componentes que pretende ver considerados na tarifa. A relação de obras cujo custeio se busca reconhecer por meio da tarifa é apresentada pela própria empresa, dentro dos procedimentos regulatórios. A ANEEL analisa os componentes previstos na regulação, realiza os procedimentos públicos aplicáveis e homologa o resultado.
Isso não significa dizer que a ANEEL seja irrelevante. Pelo contrário: a Agência é a autoridade reguladora responsável por aplicar as regras e publicar o ato que define o reajuste autorizado. O que precisa ser corrigido é a simplificação segundo a qual “Brasília aumenta a tarifa”, como se a empresa distribuidora não participasse do processo e como se o reajuste fosse uma decisão política unilateral do governo federal.
O Procedimentos de Regulação Tarifária (ProRET) organiza as regras da revisão periódica e do reajuste tarifário anual das concessionárias de distribuição. A própria página oficial da ANEEL lista o módulo específico para o Reajuste Tarifário Anual das Concessionárias de Distribuição de Energia Elétrica. Já o Procedimentos de Distribuição (ProDIST) estabelece regras técnicas e operacionais relacionadas à distribuição e à qualidade do fornecimento.

A formulação correta, portanto, é mais precisa: a Copel solicita o reajuste; a ANEEL analisa e homologa conforme as regras regulatórias. Se a companhia entende que determinadas obras, investimentos, custos, componentes financeiros ou necessidades de remuneração devem ser reconhecidos, isso é apresentado pela concessionária no processo. Cabe à ANEEL examinar o pedido e decidir o que será efetivamente incorporado à tarifa.
Na audiência pública da ANEEL realizada em Curitiba, registrada publicamente pela Agência, foi apresentado que 67% do reajuste em discussão decorriam de componentes de responsabilidade direta da Copel. O número é politicamente relevante porque desmonta a tentativa de atribuir o reajuste inteiro a uma decisão distante de “Brasília”. A agência reguladora participa da análise e da homologação, mas uma parcela majoritária do resultado estava relacionada à própria concessionária: aos seus custos, investimentos, pleitos e componentes reconhecidos no processo.
É importante reforçar o ponto: a relação de obras, investimentos e necessidades de custeio que a Copel pretende ver reconhecidos na tarifa parte da concessionária. Não é a ANEEL que escolhe, sozinha, quais obras a Copel quer realizar ou quais investimentos a empresa apresenta para serem considerados no processo. A Agência examina o pleito, aplica as regras e decide o que pode ser reconhecido. Por isso, quando 67% do reajuste são associados diretamente à Copel, não é tecnicamente correto apresentar o aumento como uma imposição integral de Brasília.
Por isso, a pergunta correta não é apenas “quanto a ANEEL autorizou?”. É também: o que a Copel pediu, quais obras colocou na conta, quais componentes foram reconhecidos e quanto disso chegou à tarifa do consumidor?
Essa distinção é importante porque permite fazer as perguntas certas: quais componentes foram solicitados? Quais foram aceitos? Quais investimentos foram reconhecidos? Quais ganhos de eficiência foram considerados? Qual é o impacto para cada grupo de consumidores? A população tem direito a essas respostas, e não a uma explicação genérica que transfira toda a responsabilidade para “Brasília”.
O segundo ponto: Sandro Alex disse que o Paraná está em terceiro no ranking de tarifa residencial, mas isso não é verdade.
O Paraná é o oitavo colocado, considerando o recorte utilizado na consulta — concessionárias com mais de 400 mil unidades consumidoras, e isso pode ser conferido no próprio site da ANEEL.
É fundamental indicar o recorte porque não existe um único ranking possível. A posição muda conforme se considera tarifa residencial, tarifa média, classe de consumo, modalidade, número de unidades consumidoras, tributos, encargos e data de atualização. Uma comparação responsável precisa informar a métrica, a data e o universo de concessionárias analisado.
Isso não encerra a discussão sobre a conta de luz. Uma tarifa pode ser comparativamente menor ou maior e, ainda assim, pesar excessivamente no orçamento das famílias. O que não é aceitável é usar uma posição incorreta para criar a impressão de que o Paraná oferece uma das tarifas mais baixas do país, quando o dado consultado não confirma essa narrativa.
E, em terceiro lugar, a afirmação de que a Copel entrega muito mais do que uma subestação a cada quatro anos também está equivocada.
Esta afirmação é bem fácil de ser rechaçada: Em entrevista ao XV Curitiba publicada em 21 de agosto, o governador Ratinho Junior afirmou que, no período em que a Copel era estatal, entregava-se “uma subestação a cada quatro anos”, enquanto o novo modelo teria entregue 19 em dois anos. A frase foi usada como argumento para defender as mudanças realizadas na companhia, mas os relatórios da própria Copel desmentem isso:
A série de inaugurações de subestações de distribuição extraída dos relatórios anuais da companhia registra os seguintes números:
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2025 |
15 |
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2024 |
9 |
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2023 |
5 |
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2022 |
3 |
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2021 |
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2020 |
6 |
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2019 |
6 |
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2018 |
3 |
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2017 |
8 |
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2016 |
3 |
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2015 |
9 |
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2014 |
3 |
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2013 |
2 |
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2012 |
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2011 |
11 |
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2010 |
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2009 |
4 |
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2008 |
3 |
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2007 |
3 |
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2006 |
7 |
A relação não pretende transformar obras de naturezas diferentes em uma única estatística. Ela serve para responder a uma afirmação específica: a de que a Copel estatal faria apenas uma subestação a cada quatro anos. Os números acima são entregas efetivas registradas nos relatórios da companhia, não meras previsões de construção. Mesmo com a existência de anos para os quais o relatório não foi localizado — 2010 é um exemplo —, ou anos nos quais não se explicita a quantidade de subestações construídas, os dados disponíveis mostram entregas muito superiores a esse ritmo.
O Relatório Anual de 2015 também registra programas de expansão associados à implantação de redes inteligentes. O Relato Integrado de 2020 informa investimentos de R$ 2,6 bilhões em 42 novas subestações no programa de distribuição, além de mais de 7 mil quilômetros de linhas de distribuição de alta e média tensão. Esses números podem incluir um programa plurianual, mas reforçam a escala da expansão registrada pela própria companhia.
Mais recentemente, o Relatório Integrado de 2025 informa a entrega efetiva de 15 novas subestações no Paraná em 2025, com investimentos de aproximadamente R$ 387 milhões.
Esses números devem ser lidos com método: há diferenças entre subestações de distribuição, subestações de transmissão, unidades previstas, unidades em implantação, unidades entregues, reforços e estações de chaves. Um relatório pode apresentar uma obra como parte de um programa plurianual, enquanto outro registra a entrada em operação. Por isso, a tabela acima utiliza apenas os registros de entregas efetivas identificados nos relatórios.
Também é preciso evitar outra confusão: construir mais subestações não prova, sozinho, que a qualidade do serviço melhorou. É necessário avaliar localização, capacidade, entrada em operação, reforços, linhas associadas, demanda atendida, continuidade do fornecimento e resultados para o consumidor. Investimento não deve ser tratado como propaganda; deve ser fiscalizado.
E a imprensa?
A afirmação sobre uma subestação a cada quatro anos apareceu no debate entre candidatos ao Governo do Paraná, promovido pela Band em 09 de agosto. Foi repetido na entrevista de Ratinho Junior ao XV Curitiba. Em 3 de setembro, Sandro Alex foi entrevistado pela CNN Brasil em uma sabatina na qual, além de repetir as afirmações que contesto neste artigo, defendeu a venda da Celepar e afirmou não ver irregularidades na Copel, Em 15 de setembro, voltou a falar sobre a empresa em entrevista ao telejornal Meio-Dia Paraná, da RPC, reiterando as afirmações in contesto.
O problema surge quando afirmações factuais, especialmente sobre tarifas, ranking e infraestrutura, são apresentadas sem que o público tenha acesso imediato à verificação ou ao contraditório. A imprensa não precisa aceitar a minha interpretação. Precisa, isto sim, conferir os documentos, ouvir as partes envolvidas e permitir que o cidadão conheça a contestação fundamentada.
O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros estabelece que a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e que a produção jornalística deve se pautar pela veracidade e pelo interesse público. O mesmo Código afirma que o compromisso fundamental do jornalista é com a precisa apuração e a correta divulgação dos fatos. Também orienta que sejam ouvidas as pessoas e instituições envolvidas e que se promova a retificação de informações falsas ou inexatas, além da defesa do direito de resposta.
Essas regras não eliminam a liberdade editorial dos veículos. Elas qualificam essa liberdade: a escolha de quem será entrevistado é editorial; a obrigação ética de não deixar passar sem conferência uma afirmação factual é parte da responsabilidade jornalística.
Por isso, solicitei à XV Curitiba e à CNN Brasil espaço para apresentar o contraditório, com os documentos da ANEEL e os relatórios da Copel. Até o momento, não recebi resposta. O pedido não é de privilégio nem de tratamento favorável. É um pedido para que as fontes sejam colocadas na tela e para que o público possa comparar a fala política com o documento técnico.
A gente precisa falar da Copel com responsabilidade
A Copel pode e deve ser discutida politicamente. Sou favorável a uma Copel com qualidade, investimento, transparência e compromisso público. Também defendo fiscalização imediata e a retomada do controle estratégico da empresa pelo Estado. Mas nenhuma dessas posições dispensa os dados. Ao contrário: a defesa do interesse público exige que os números sejam conhecidos, comparáveis e verificáveis.
A população não precisa escolher entre propaganda e silêncio. Precisa ter acesso aos documentos e ao contraditório. É isso que defendo: uma comunicação mais verdadeira dos candidatos e uma fiscalização mais cuidadosa por parte da imprensa.
