Pular para o conteúdo

Velho e menino

Os dois usam ferramentas diferentes para realizar a obra. O menino trouxe a imaginação. O velho, a memória

Por Admin
Velho e menino
Publicado:

O velhoe o menino fazem um castelo. O menino, com um baldinho verde, amontoa areiamecanicamente. O velho, de joelhos, vai devagar, preso a detalhes: aplaina osmontes, ergue torres, cava fossos, faz pontes com pedacinhos de madeira. Omenino para às vezes ao lado do velho para observar seu trabalho, às vezes jogaareia sobre o que ele fez. O velho não se irrita nem repreende o garoto, limita-sea restaurar o que ele destruiu. É um homem alto, magro, quieto. Parececonversar consigo mesmo. Esta conversa talvez inclua a presença (para ele algoremota) do menino. É como se o velho não esculpisse um castelo, mas um meninoperdido.

Os doisusam ferramentas diferentes para realizar a obra. O menino trouxe a imaginação.O velho, a memória.

O meninofaz furos com o dedinho no monte de areia e pronto, tem janelas. Cava um buracona base e eis um portão de entrada. O velho precisa de realismo, já viu muitoscastelos. E antes mesmo de vê-los frequentou escolas, onde lhe cobraram averossimilhança das imagens até eliminar sua leitura interna de nuvens, montanhas,ameias e muralhas. Até apagar dentro dele a potente e subversiva recriação darealidade.

O velhoestá preso à imagem que todos têm deum castelo, e com ela busca malsofrido a infância destroçada. Isso de o meninojogar areia sobre o perfeccionismo do velho é o que devia fazer um verdadeiromestre, penso, sentado a uma distância conveniente do velho e do menino. Umverdadeiro mestre ensinaria a não buscar o quetodos têm em mente quando se diz: mar, morte, homem, castelo. Não limitariaa leitura do mundo às reproduções e técnicas conhecidas, como se faz nestemodelo carcerário da imaginação em que a expressão não pode (não deve) ser obrade uma subjetividade livre. A liberdade do indivíduo é água fresca minando as pedrasdo velho castelo ordinário.

Então,meu senhor, abandone esta arquitetura apoiada em medo, pobreza e ignorância. Desmonte"sua" obra e enfie os dedos na areia, como fez o menino ao buscar emsi janelas e portais.

O solestá atrás deles, agora os vejo contra as chispas do mar de Carcavelos, quasecomo figuras de um teatro de sombras.

Um aviãotraça no céu, alto e preciso, um risco branco – o giz da civilização. O riscose expande, se esfarela, absorvido pelo azul impassível.

O casalde adolescentes deitado perto de mim enlaça as pernas; ela fala algo, ele ri,de um jeito afetado e ingênuo que me comove.

Oprimeiro vento frio encrespa as ondas. Está ficando tarde, preciso pegar ocomboio até o Cais Sodré, voltar para Lisboa. Amanhã é dia de trabalho, deerguer castelos...

Juntominhas coisas. Quando me ergo, olho para os dois construtores. O velho sumiu. Omenino destrói a obra com os pés e, de repente, sai correndo aos gritos:

–Abuela! Abuela!

Sua voz agudase perde na vastidão do mar como um velho nas sombras.

Mais de Admin

Ver todos

De nossos parceiros