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Uma palmeira simples

Uma árvore, nos bárbaros tempos que correm, precisa se proteger, mais do que nunca

Por Admin
Uma palmeira simples
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Sou uma palmeira simples, vivo nas proximidadesdo Colégio Estadual, e hoje sirvo de adorno à fachada de um desses prédios que cadavez mais enfeiam a cidade e se pretendem de alto padrão. Aceito o meu destino, maspeço a vocês a gentileza de não me chamarem, por favor, de palmeira ornamental.Esse adjetivo traz em si uma carga para mim intolerável de indignidade eimprecisão. Árvore nenhuma o merece ou precisa dele, nem as cultivadas paraesse fim. Além disso, essa não é, nem de longe, a minha condição. Nasci poracaso e aqui mesmo, numa esquina da Rua da Floresta, sem nenhuma outra missãoque não a de crescer e verticalizar-me. É o que busco fazer. Mas bastou um diaconstruírem ao meu lado este predinho de arquitetura rebuscada para tudo mudar.Desde então, é como se eu houvesse nascido somente para saudar meus vizinhoscondôminos. Tornei-me um triste pórtico.

Desnecessário dizer que nada disso importaàs palmeiras. Nem o luxo dos condomínios nem o que os humanos pensam a nossorespeito. Eu sou assim. Apenas procuro me manter mais ou menos ereta em meuposto, embora já um tanto curvada pelos ventos que sobem e descem, cada vezmais desgovernados, as ladeiras do Alto da Glória. Como sou uma palmeira particularmentesolitária, não sei precisar a que espécie pertenço, nunca estudei botânica, e talconhecimento me seria irrelevante. Não alteraria o meu modo de ser umapalmeira. Quer dizer, se sou um butiazeiro, como já ouvi comentarem, se sou umjerivá ou coisa diversa, para mim tanto faz, não muda nada. Prefiro ser ummistério, uma palmeira sem nome, nem propósito, nem descendência. Do meu caule,aliás, nunca vi brotar nada além de folhas e espinhos, e fico me perguntando seisso é normal, se é culpa minha, se não teria me distraído e desperdiçadoalguma oportunidade única de florir e frutificar. Mas a verdade é que ainda nãotive chance de revelar ao mundo o grande segredo de minhas flores, e isso, reconheço,me magoa.

Bom, paciência. Como eu já disse, àspalmeiras não convém que se importem com coisa alguma. Eu não me importo. Nunca.Embora haja quem pense exatamente o contrário. Este homem e suas duas filhaspequenas, por exemplo, que sempre passeiam pela Rua da Floresta, discutindoassuntos que não devem interessar a mais ninguém. Nunca deixam de me visitar. Paramaqui embaixo e olham para cima, boquiabertos, admirados da minha presença.

Não porque eu seja, conforme já esclareci,involuntariamente ornamental e, por conta disso, inescapavelmente bonita. Não. Ofato é que não sou bonita, sou até um tanto feia para os padrões românticos emgeral associados às palmeiras. Sou desanimada, pareço fraca, prestes a morrer.É como se este solo em que cresci, tão pobre, estivesse desde sempre fazendo opossível para me manter viva e apresentável. Não sei, sinto que o ar daqui estáintoxicado. Inconcebível alguém olhar para mim e remeter-se àquelas velhas imagensde oásis noturnos, ilhas desertas e paraísos tropicais, sensuais aventuras noOriente. Não, admito que sou apenas uma palmeira deslocada, diminuída entreprédios presunçosos, mas uma palmeira que, mesmo torta e sem graça, não sefurta a uma pequena vaidade. Vejam: bem na pontinha desta minha longa folhapalmada, equilibro um vespeiro lindíssimo, bem mais bonito do que eu, e o façocom toda empáfia a que tenho direito, como se ostentasse o mais valioso, o maisextravagante dos brincos.

Trata-se de um enxu perfeito, esférico einstável como o nosso planeta, mas tão leve, tão elegante neste vaivém pendulara que o submeto, que de imediato desperta em quem o vê a vontade nada salutarde chutá-lo. E é justamente isso que encanta aquele homem e suas filhas: asensação de que, com este meu balanço cadenciado, este sobe-e-desce de vespas eferrões sobre suas cabeças, eu esteja de alguma forma não só marcando oandamento de nossos dias, mas também a sua terrível precariedade.

O enxu, por sua vez, parece contar ashoras até sua própria queda. E não exagera ao esperar o pior. Esta folha, emcuja frágil extremidade ele agora se agarra, está, como tudo que é vivo edinâmico, envelhecendo. Mês a mês, a folha nitidamente vai se acobreando, perdendoum pouco do seu verde, da sua flexibilidade, da sua força, e tornando o enxumais pesado, mais difícil de sustentar. Ouvi inclusive aquele homem dizer às filhasque este vespeiro seria como uma espada de Dâmocles desregulada, cínica eirreverente, que escolheu pairar, ameaçadora, sobre a cabeça de qualquer um, e emespecial sobre a daqueles que já não têm nenhum poder, apenas desejos, carênciase prejuízos a administrar. Escuto essas bobagens e rio, me farfalhando toda.

Não sou assim tão perversa. Vivo há anos nestamesma calçada, onde me coube um trecho de grama sempre bem aparado, numaesquina aprazível, provavelmente mantida assim pelo dinheiro dos condôminos doprédio a que, sem querer, acabei ornamentando. Os cachorros da região, tantos osde rua quanto os de apartamento, adoram a cor e o cheiro desse gramado, e sealiviam e se espojam sobre ele, sem de mim sentirem qualquer vergonha. O mesmofazem estes homens e mulheres que vivem e dormem pelo bairro, a céu aberto (ehá cada vez mais deles). Eu os aceito a todos, sem distinções, humanos e cães. Ese alguém por aí disser que eu não tenho escolha, que sou obrigada aacolhê-los, não estaria mentindo, eu sei. Mas tenho sim as minhas preferências,minhas noções do que considero bom e prazeroso. E talvez eu goste de saber quede vez em quando alguém dorme à minha sombra, e sonha livremente debaixo de minhacoroa e desta colônia de insetos trabalhadores, enquanto tantos e tantos outrospassam por mim todos os dias, a caminho do trabalho, da escola ou da canaletado biarticulado, e me ignoram completamente, e nunca olham para cima, e jamaisreparam no vespeiro que me confere, eis a questão, eis a ironia, um insuspeitadopoder de fogo.

Sim, um dia esta folha se desprenderá demim e, com ela, o enxu que me enfeita e empodera. Até lá, porém, eu o acalantareicomo a uma arma. Uma árvore, nos bárbaros tempos que correm, precisa seproteger, mais do que nunca. Por isso, enquanto puder, embalarei este vespeiro eas vespas que zumbem ao seu redor, e velarei pelos cachorros e por suaimundice, e pelos homens e mulheres que me procurarem atrás de descanso. Continuareibalançando ao vento minhas folhas compridas, feito uma canastrona esfregando asmãos, antecipando sua vingança, divertindo-se com planos e pensamentos secretos,fantasias a que ninguém nunca terá acesso. Pois enquanto eu puder dançar e farfalhar,fazendo subir e descer este enxu que me embeleza, que me torna tão invulgar, sereisimples e feliz, como uma criança do século passado brincando com seu ioiô.

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