Nascida em Arroyo Cabral, uma província deCórdoba, na Argentina, Maria Teresa Andruetto transita por diferentes gêneros literáriose possui uma obra refratária a classificações.
Entusiasmada pela reflexão sobre a escrita,sua literatura – destinada a crianças, jovens e adultos – explora questões comoas particularidades dos modos de dizer, o rescaldo da ditadura militar em seupaís e os universos atravessados por diferentes subjetividades femininas.
Dentre os prêmios que recebeu, destaca-se oHans Christian Andersen, concedido pelo InternationalBoard on Books for Young People (IBBY), em 2012. Por causa desse prêmioe de sua trajetória dedicada à formação de leitores, sua obra para adultospermanece menos conhecida.
No Brasil, esse panorama começa a serreconfigurado com o lançamento de “Caça”,livro de contos publicado pela editora curitibana Arte & Letra, comtradução de Nylcéa Pedra.
Na entrevista a seguir, a autora fala sobreesse lançamento, contextualiza sua produção literária e revela detalhes sobre suaforma de trabalho.
Nylcéa Pedra, tradutora de “Caça”, falou sobre o desafio de trabalharcom contos como “A felicidade”, “As marcas do que era” e “A morte e as aves”.Neles, expressões referentes à ditadura militar argentina sugerem uma relaçãode proximidade e distância entre os dois países que demanda um leitor bastante ativo.Como você percebe essa relação, agora que seus contos chegam para os leitoresbrasileiros?
Isso me faz pensar que o ato de traduzir émaravilhoso. Através dele, uma escritora ingressa em um novo espaço, adquireuma nova voz e isso só é possível graças à atividade de criação que é inerenteà tradução. Lendo e ouvindo a tradução dos contos mencionados, observo que nãohá entraves ou quebras. Então me pergunto a respeito da recepção de umanarrativa que trata, ainda que indiretamente, de um episódio que aconteceu durantea ditadura militar na Argentina. Talvez o leitor se atenha à relação entre umhomem e uma mulher, identificando nele a capacidade de torcer a vontade dela,sem perceber que se trata de um torturador ligado à ditadura. Por outro lado,caso tenha informações históricas, talvez ele infira, mas não é seguro que issoacontecerá. Mesmo porque, para além da tradução, trata-se de algo inerente àliteratura. Nunca se deve esperar que o leitor faça exatamente o que estavaprevisto. Também acho oportuno comentar que, ao escrever, abordando um temacomo a ditadura, por exemplo, não trato os personagens na condição absoluta devítimas ou culpados. A vida possui uma complexidade que me leva a buscar algo daordem do não dito, uma espécie de espaço vazio no qual o leitor possa entrar epreencher com o seu próprio mundo.
Você poderia nos dar exemplosde como essa escolha narrativa está presente em sua literatura?
Poderíamosmencionar o caso de “La mujer en cuestión” [inédito no Brasil]. Nesse romance,ambientado no contexto pós-ditadura, mas trabalhando com memórias que remetemàquele período, mobilizo a figura de um investigador que ouve testemunhas ereúne informações a respeito de uma personagem que se chama Eva. O informe queesse investigador-narrador compõe é inconclusivo, posto que as testemunhasevocam lembranças desencontradas, contraditórias entre si, deixando margem paraque se diga algo a mais sobre a personagem. Assim, o conteúdo do livro nãoesgota o que a mulher em questão é ou foi. Obviamente, isso se deve à minhacompreensão de literatura. Outro tipo de texto, de natureza factual, porexemplo, poderia indicar de maneira precisa: aconteceu isso, depois isso eentão isso. No entanto, teríamos outro registro de escrita. Para mim, pretendendotocar o outro, a escrita literária precisa colocar o leitor em movimento, fazercom que ele pense e se posicione em relação a algo. Por isso a necessidade deum elemento que pertence à ordem do não dito. Por isso, também, o meu interessepela questão do narrador. Quando o ponto de partida é um narrador que deixaclaro que não sabe de tudo, que a sua própria relação com a história a sercontada é precária, isso me ajuda a compor um relato que deixará espaço para oleitor. Eu sempre comento que, no processo de escrita, a escolha do narrador éuma tarefa que mobiliza especialmente a minha atenção. Seria um truísmo dizerque não há escrita enquanto não se encontra essa voz, mas me parece oportunocomentar sobre a necessidade de se estabelecer conscientemente a voz condutora doprocesso narrativo.
Você poderia nos dar pistas decomo foi sendo feita a construção dessa compreensão de literatura?
Tem a ver com algo pessoal e que dizrespeito à descoberta, dentro do meu próprio espaço familiar, de que nem todospensam o mesmo a respeito de um mesmo problema. Na verdade, trata-se dadescoberta angustiante, de natureza profundamente humana, que se experimenta aodeixar a infância. No meu caso, ela se transformou em matéria fértil quando comeceia escrever. É claro que esse lugar instável no qual as pessoas percebem arealidade de maneiras diferentes também foi alimentado pela leitura de ficção ede ensaios. Fui muito influenciada por um ensaio de Sartre, por exemplo, sobretrês modos distintos de conhecimento: a observação, na qual o sujeito gira aoredor do objeto e fica com algo que escapa ao seu campo de visão; aconceitualização, na qual o sujeito compreende o objeto em sua integralidade,mas o faz a partir de uma ideia, algo que não é mais o objeto em si; e oimaginário, no qual se vê tudo ao mesmo tempo, o que é e o que não é, semdeixar margem a dúvidas. Feito esse comentário, diria que me apego à observação,que busco um narrador que rodeia um objeto para traduzir minha percepção de quehá algo que eu mesma desconheço. Isso acabou sendo importante para a minhaliteratura porque, apesar de eu sempre ter tido posicionamentos políticosclaros, na hora de escrever, me interessa não delimitar o caminho dos meuspersonagens e não me adiantar aos fatos. Procuro segui-los e receber aquilo queaos poucos eles me dão, porque eles são mais complexos do que as minhas ideias.Acredito que, enquanto se está em movimento, aparecem muitas coisas ao longo docaminho, o acaso, aquilo que é pouco consciente ou inconsciente, e isso meparece a parte mais interessante que envolve a escrita.
Você aponta a importância que ogênero ensaio teve sobre a construção da sua compreensão de literatura. Poroutro lado, você também possui uma extensa atividade como ensaísta.
Sempre tive interesse pela escrita em si,pela ficção, pela leitura e pela reflexão sobre o fazer, sobre a prática, sobreessa parte artesanal que rege a construção do texto. Acredito que isso estáligado ao meu exercício como docente. Além disso, durante muito tempo, preciseigarantir o meu sustento com oficinas de escrita. Em algumas delas, eu interagiacom pessoas que já escreviam, que escreviam de maneiras distintas e que meprocuravam para revisar as suas produções. Para fazer esse trabalho, eu selecionavaum texto de qualidade exemplar, digamos assim, e o desmontava. O meu objetivoera convidar à leitura daquilo que está nas entrelinhas, a busca das relações,os intertextos, os narradores e a construção do ponto de vista. Desse modo, como passar do tempo, os ensaios começaram a dar vazão a essa atividade reflexivaque era voltada para resolver problemas essencialmente práticos.
Essa atividade ensaística nosajuda a compreender o seu processo pessoal de escrita?
Acredito que eles contam um pouco dos meuscaminhos de escrita, mas, além disso, há uma entrega minha ao desejo deescrever, de que a escrita seja desejável. Eu não me submeto, por exemplo, aprojetos que me impõem procedimentos determinados. Consegui encaminhar a minhavida de outra maneira, como professora e oferecendo oficinas, de modo que aescrita começou como – e segue sendo – um espaço de recreio.
E como começa um projeto deescrita para você?
Sempre começa ao acaso. Posso dar umexemplo relacionado ao romance “Lengua madre”[também inédito no Brasil]. Eu havia me mudado depoisde viver por 20 anos no mesmo endereço. Estava colocando os meus livros emcaixas e encontrei o “DicionárioFilosófico”, de Voltaire, que havia pertencido aos meus pais. Nele,estavam duas cartas que minha mãe havia escrito para mim em 1976, no período emque estive exilada internamente. Como as cartas podiam ser rastreadas, elas circulavamatravés de um senhor que transportava os ataúdes fabricados na minha pequenacidade. Elas circulavam precariamente e eu também passei por mudanças queaconteceram de maneira precária, de modo que muitas se perderam. No entanto,por alguma razão, aquelas ficaram guardadas, eu as encontrei e, então, deimediato, duas coisas me marcaram: uma foi a minha mãe contando que haviaviajado 60 quilômetros para poder comprar três quilos de açúcar; outra foi anotícia de que haviam sequestrado uma mulher que conhecíamos. Sobre essesequestro, minha mãe teve o cuidado de comentar que não havia acontecido dojeito que eu poderia estar pensando e isso me fez perceber que, ao contrário doque eu supunha, ela compreendia muito bem a situação pela qual passávamos.Então eu me vi sentada no chão com os livros, as caixas, as cartas e esse acasocomeçou a delimitar a montagem do romance.
E a partir desse acaso, comofoi o processo de escrita?
Nesse caso específico, aproveitei o modo dedizer da minha mãe, o estilo de sua fala. Eu levei quatro anos para escreveresse romance, porque na metade do caminho acontece a vida e muitas das coisasque me aconteceram acabaram entrando na narrativa. Uma das coisas que meacontece quando estou envolvida em um projeto mais extenso é que não escrevo otempo todo, nem todos os dias. Pode acontecer de eu ficar dois meses semescrever, o que torna a escrita algo próximo à deriva, e isso é assim porque mehabituei a ter outras atividades para poder ter tempo para escrever. Sintomaticamente,agora que tenho mais tempo porque estou aposentada e nada impede que me dediqueexclusivamente à escrita, me organizei para impor obstáculos a esse tempocontínuo. É que aí existe algo: tem a ver com a escola, com meus compromissos,com minha militância, e a literatura se alimenta de toda essa vida. São coisasque têm a ver com a minha maneira de estar no mundo, que fazem com que aescrita siga sendo um recreio. Talvez, agora, ela seja um pouco mais ampla. Dequalquer modo, ela segue sendo um recreio.
Você acredita que o ofício deescritor está associado ao treino?
Às vezes, a imagem do escritor se confundecom a de uma pessoa mesquinha. Por outro lado, o mesmo não pode acontecer com aimagem de um professor. Nesse sentido, acredito que eu me aproximo da escritamais através desse segundo caminho. Além disso, não me agrada a tentativa de cercaro ofício com mistério, a mistificação de que existe algo que nunca se sabe aocerto de onde vem. Sempre percebi o espaço do trabalho e esse não deixa de ser umponto delicado, porque um escritor depende do ofício que adquire. Ao mesmotempo, no entanto, esse ofício pode funcionar como um inimigo. É por isso quecomentei sobre o cuidado em relação ao desejo de escrever, em preservar eproteger esse desejo, para que aquilo que se inicia não fique abandonado, não parede motivar e se restrinja a uma operação exclusivamente formal.
Como recebeu a notícia sobre o lançamentode seu livro “Caça” no Brasil?
Inicialmente, fiquei muito feliz porque,apesar de ter minha obra traduzida para outros idiomas, a maior parte estárelacionada com a literatura para crianças e jovens. Sempre carrego essa marca,apesar do trabalho intenso para romper com esses rótulos. É algo normal. Aminha produção para crianças e jovens acabou ofuscando o restante do meutrabalho. Portanto, todo o movimento que atenta para essa dimensão da minhaobra me deixa muito grata. Além disso, está o tema dos contos como gênero, algoque me encanta, que propõe um desafio grande para mim e que tem em “Caça” um significado especial naconfiguração dos meus processos de escrita. Com os primeiros contos desse livro,senti que estava dando um salto sobre mim mesma no que diz respeito ao ofício eem relação a tudo que havia escrito antes. Escrevi esses contos em meio a umacrise pessoal particularmente intensa, o que despertou em mim o propósito de meacercar à subjetividade de mulheres diversas. Tenho a lembrança de que, duranteum verão, na casa onde vivo hoje – na época era uma casa muito pequena e semeletricidade –, eu fiquei sozinha por três meses porque meu companheiro estavade viagem, e nessa espécie de retiro monástico apareceram alguns dos contos. Pudesentir, enquanto os escrevia e quando os vi finalizados, que havia chegado aoutro estágio de escrita. Isso aconteceu por volta dos meus 40 anos, foi tremendamentesignificativo para mim e me alegra que esses contos ainda tenham vida aqui naArgentina e, agora, no Brasil.
Seria possível identificarescritoras e escritores com quem você dialoga em seu trabalho?
A resposta para essa pergunta está nasepígrafes, que são sempre importantes para mim e nos meus livros de contos issofica evidente. Existe aquele comentário de Faulkner sobre a necessidade que nósescritores temos de matar nossos pais literários para escrever com liberdade,mas acredito que minha geração não precisou passar por isso. Ao contrário,tivemos que nos preocupar em ressuscitá-los, principalmente no caso dasmulheres, porque nos relacionávamos com escritores mortos ou silenciados peladitadura. Nesse sentido, tenho particular interesse pela geração imediatamenteposterior a Borges e a Cortázar que também ficou obscurecida, por assim dizer, emfunção do peso desses escritores. São pessoas que tinham algo próximo aos 50 anosquando a ditadura chegou. Poderia citar alguns que são importantes, mas nãoesgotaria a lista. Antônio DiBenedetto é um contista fantástico. Gosto muito deRodolfo Walsh e Sarah Gallardo. Juan José Hernandez tem uma obra pequena, masseus contos são extraordinários. Aleatoriamente, poderia mencionar Capote, Cheever,Carver, McCullers, Flannery O’Connor, que são leituras às quais ainda retorno. Enão posso deixar de lado Juan Rulfo.
Quais escritoras e escritoresvocê tem lido mais recentemente?
Leio principalmente escritorascontemporâneas, mulheres mais jovens do que eu. Gosto muito da chilena AndreaJeftanovic, da boliviana Liliana Colanzi e me parece que Gabriela CabezónCámara tem trazido novidades. São escritoras distintas entre si e inclusivedistintas da literatura que escrevo, mas todas despertam o meu interesse.Obviamente, me interessa e leio com atenção a literatura feita por mulheres. Noentanto, o meu caso não está associado a movimentos que buscam escritoras e quese organizam para alavancar a literatura feminina. O interesse pelassubjetividades femininas sempre me acompanhou e acredito que fiquei maisconsciente a esse respeito quando comecei a trabalhar nas oficinas. Compartilharleituras de textos escritos por mulheres me fez ficar mais atenta. Quando se dáaulas, você se depara com o instituído, com o cânone, algo que obriga você atrabalhar com uma literatura que é predominantemente masculina. Então, procurarpor escritoras, nomeá-las, citá-las e incluí-las num curso ou numa oficina,dar-lhes identidade, é importante para romper com a lógica.