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Tico e Teco

Escrito por Cezar Tridapalli
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Eis o que a minha memória de infância me entregou essa semana, de bandeja, sem ofícios de solicitação: o termo cabeça de purunga. Aqui do presente fiquei especulando se era uma expressão conhecida no Brasil inteiro ou um código secreto falado apenas pelo povo da Vila Hauer, onde nasci, cresci e para onde volto até hoje, sem falhas, para levar meus filhos a almoçar com meus pais. Sou filho e sou pai, fico ali no meio, espremido e tímido, entre essas duas gerações, entre essas quatro figuras – um senhor de 73, uma senhora de 70, uma senhorita de 8 e um (o que mesmo?) de 4 anos – que afetaram a minha existência como ninguém mais. A ideia drummondiana de família viajando através da carne nunca me foi tão apropriada.

Mas eu estava falando de cabeça de purunga, retomo o fio para não ganhar o apelido. Nas minhas especulações linguísticas, ainda sem recorrer ao Google, pensei que originalmente o termo pudesse se referir ao porongo, aquele bagulho oco com que se faz cuia de chimarrão. Daí, por associação metafórica, cabeça de purunga significava cabeça de porongo, que por sua vez descrevia alguém aéreo, cabeça-oca, cabeça de vento, sem nada na cabeça (supondo erroneamente que vento e nada fossem sinônimos). O Google confirma minhas suspeitas e diz ser o porongo (ou “porunga”) sinônimo de cabaça. Cabeça de cabaça daria um joguinho de palavras e tanto, não?

Eu podia ser cabeça de vento na infância, daqueles a quem se falava “só não esquece a cabeça porque está grudada”, frase a que recorro hoje como expressão prêt-à-porter para os esquecimentos da minha filha. As coisas de que eu esquecia? Esqueci. Mas as palavras com que os adultos me descreviam permanecem até hoje.

No entanto, conforme o tempo foi passando, a nossa cabeça ganhou metáforas diferentes. Em vez de oca, passou a ser habitada por um par de alguma coisa. Já ouvi alguém dizendo que fulano tinha duas ervilhas no lugar do cérebro, outro dizia que dentro da cabeça de alguém menos favorecido de razão habitavam Tico e Teco, os esquilos atrapalhados da Disney. Há ainda o já clássico 2 neurônio (assim no singular fica mais gostoso dizer).

Tuuuudo isso para eu falar do quê? Nem sei mais (sou cabeça de vento, pô, no máximo uma bolinha de feno voando de uma orelha a outra), mas aproveito então a lacuna para associar essa introdução a um problema humano bastante em voga: a polarização (se bem que Polo Sul e Polo Norte até que têm bastante coisa em comum). Vamos de novo, um problema humano bastante em voga: o binarismo, a ideia de que não há múltipla escolha, só alternativas A e B. E precisamos escolher uma delas.

Cecília Meireles tem razão parcial quando propõe “ou isso ou aquilo”, que é o título de um livro de poemas canônico dela – para crianças, mas não só. Também pode existir “isso e aquilo”, assim como pode existir “nem isso nem aquilo”. Gosto da metáfora aérea, da cabeça de vento que faz a gente voar como pipa (eu negando minha origem vilahaueriana, pois deveria dizer “raia”, não pipa), mas acho que no binarismo dos dois neurônios, das duas ervilhas e do Tico e Teco há espaço para uma potencial dialetização dos contrários que nos habitam. Há estranhezas que nos são familiares, bem como há familiaridades (pensamentos automáticos, aprendidos por inércia) que, se investigadas um pouco, podem se tornar estranhas. Se um neurônio propõe uma tese, o outro pode apresentar uma antítese: a partir daí, eles podem ficar brigando entre si para sempre ou tentar uma síntese. É isso que eu estou chamando de dialetização. Essa síntese pode reorganizar a tese e a antítese e nos dar outras formas de representação das coisas da vida exterior e interior.

Balão 1: “Se você não estudar, vai acabar como ele”. Balão 2: “Aquele homem tem um trabalho que faz bem à comunidade. E faz mais do que aquela idiota poderá fazer com sua formação em Filosofia”.

Eu não consegui identificar a autoria dessa tira (se alguém souber, me diz pra eu creditar aqui, por favor), mas vi que ela existe em mais de uma língua. Em inglês e português, por exemplo, o balão 2 diz: “Se você estudar bem, poderá ajudar a tornar a vida dele melhor”. Peguei essa versão italiana porque ela simula um binarismo do tipo “ou isso ou aquilo” que me parece falso, como se o segundo balão quisesse lacrar, quisesse ser a forma certa de pensar, fosse um corretivo inesquecível para a frase infeliz do balão 1. Como Tico e Teco resolveriam isso? O binarismo raiz vai eleger um dos lados. Dialetizar poderia fazer Tico concordar com o balão 1, Teco com o 2 e a partir daí ficariam puxando os balões-nozes até baterem as cabeças e ficarem zonzos. Aqui me parece muito possível usar o “nem isso nem aquilo”, a não ser que sejamos do time que acha a Filosofia algo inútil no campo da vida prática, e só quem não conhece nada dela concordaria. Torço para que Tico e Teco abandonem essas vozes e essas nozes. Encontrem novos balões possíveis.

Com o recente bafafá que o fim do horário de verão gerou entre os brasileiros, me pego ouvindo numa rádio de notícias as mensagens apaixonadas (paixão é também patologia) enviadas por WhatsApp para a redação. Muitos ouvintes diziam não gostar do horário de verão porque trabalhavam e que a mudança só interessava aos desocupados quem queriam tomar cerveja até mais tarde. Aqui não podemos pensar em “isso e aquilo”? Se sou trabalhador, não posso estender o dia alongando-o com uma saída? Se tomo uma cerveja ou passeio num parque com o sol ainda alto, sou vagabundo?

Aquela canção do Caetano, “Fora da Ordem”, termina com “eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem, apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final”.

Que esquilos, ervilhas e neurônios aprendam a conversar, dentro e fora da nossa cabeça. Mas, claro, deixem espaço, afinal cabeça de vento voa, voa. É tão bom.

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Sobre o autor

Cezar Tridapalli

Cezar Tridapalli é tradutor, professor e romancista, autor de "Pequena biografia de desejos" e "O beijo de Schiller".

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