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Crônicas diárias

Socorro, estou livre

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Sábado de manhã, um homem ruivo me abordou no Passeio Público. O dia estava frio, vocês sabem, e a temperatura, pouco acima de zero. Diante do viveiro dos passarinhos, eu me distraía observando os azulões, quando o homem, a princípio reticente, me cumprimentou. Mal agasalhado, vestia jeans, camisa de flanela, jaqueta imitando couro, e só. Fingiu se interessar pelos pássaros, mas logo pediu licença para me contar uma história pessoal. Falou que era de Colombo, que estava desempregado e era viúvo, pai de três filhos, e que há quase uma semana pernoitava em Curitiba por conta de um acidente com seu caçula. O rapaz teria caído da garupa de uma moto na Estrada da Ribeira, sem capacete, e agora se encontrava internado no HC, em estado grave.

O homem ruivo dizia estar exausto, carente de banho e comida decente, não suportando mais dormir em bancos de hospital. Queria de mim qualquer coisa de que eu pudesse dispor, de preferência dinheiro, e, se o pedia daquele jeito tão brusco, é que já não via outra saída. Assenti, em silêncio, pensando no que fazer. Não me envergonho de confessar que o considerei, logo de cara, um péssimo mentiroso. E não por já ter sentido, de antemão, o seu hálito de álcool, que era forte, ou por ter desaprovado naquele seu discurso, tão bem ensaiado, certa entonação entediada, maquinal, típica dos canastrões. Apenas achei que mentia e, enquanto o julgava, inventariei mentalmente o conteúdo da carteira que trazia comigo, num bolso interno do casaco. Talvez estivesse vazia, talvez não. Eu realmente não lembrava, e essa desnecessidade de lembrar fazia de mim um indivíduo quase feliz.

Decidi desejar boa sorte ao homem ruivo e ao seu filho. Nada mais. Diria a ele que estava sem dinheiro. Não me incomodavam tanto as mentiras, a que ele me contava e a que eu contaria, e sim minha preguiça de desembolsar as mãos no frio, abrir um ou dois zíperes, vasculhar a carteira diante de um homem desafortunado. E já ia, inclusive, dispensá-lo, quando vi um cardeal voejando do lado de fora do viveiro. Não sei dizer por onde o bicho teria escapado e creio que nem ele o soubesse, pois tentava desesperadamente retornar ao cativeiro, forçando a cabecinha vermelha, sem sucesso, por entre os vãos da tela de arame. Lá dentro, dois outros cardeais o incentivavam, nervosos, e o excluído, talvez estimulado pela saudade dos colegas, batia as asas numa exasperação cada vez maior e mais patética, trinando alto, como se dissesse: Socorro, estou livre!

Não compreendi bem o que houve comigo, mas confirmo que a aparição repentina daquele passarinho de topete foi o que me fez mudar de ideia e apanhar de vez a carteira. Desejei felicidades ao pai do rapaz acidentado e, ao meu voto de melhoras, acrescentei a miséria de cinco reais. O homem ruivo me agradeceu, embora nada efusivamente, e se afastou depressa, sem se despedir.

Antes de ir para casa, dei mais uma volta pelo Passeio, pensando menos no homem ruivo que no cardeal em pânico. Na pista de patinação, vários moradores de rua aproveitavam a manhã limpa para bater e esticar ao sol os seus cobertores de lã, muitos ainda novos, recém-doados. Ao longe, ouvia-se o som dos carrinhos de feira e o de duas ou três vassouras de piaçava. O parque estava quieto, nenhuma criança no playground. Alguns trabalhadores pintavam os brinquedos, e o ar gelado do sábado recendia a tinta fresca. Ajoelhada na areia, uma moça posava para uma foto. Outra moça, de pé, brandia um celular e lhe dava ordens simples: vire o rosto pra lá, erga o queixo, sorria, feche a boca.

A moça de joelhos obedecia. Trajava gorro, cachecol, luvas, sobretudo e botas forradas de pele. Na ponta de um indicador, equilibrava uma pequena borboleta amarela e preta, aproximando-a do rosto maquiado. Olhava para ela com uma ternura calculada, e mais um tanto de surpresa e sensualidade, tudo congelado num mesmo sorriso. Estavam lindas, disse a moça de pé, que as fotografou por um ou dois minutos. Satisfeita, e também orgulhosa, a moça ajoelhada se levantou, desarmando a pose difícil e baixando os braços, a fim de bater a areia da calça. A borboleta, então, desprendeu-se de sua luva e caiu no solo entre as pedrinhas, inerte, sem peso algum. Devia estar morta havia horas. Nas redes sociais, porém, continuaria viva.

No domingo, voltei ao Passeio Público, aproveitando a segunda manhã consecutiva de sol e frio em Curitiba. Perto do portão da Carlos Cavalcanti, reencontrei o homem ruivo que, no dia anterior, havia me pedido dinheiro. Estava com a mesma roupa: jeans, flanela e imitação de couro. A barba crescida, os olhos inchados. Não me viu e, mesmo que visse, estou certo de que não me reconheceria. Dava o braço a uma das mulheres que fazem ponto ao redor do parque e, com ela, entrava numa portinha de pensão. Não parecia triste nem alegre, somente cansado. Naquela hora, admito com algum espanto, ele não me pareceu um mentiroso. Era só um homem aflito, preso a uma expectativa terrível.

Quanto ao cardeal, nunca mais o vi. Não sei dizer se conseguiu reintegrar-se à prisão ou se, pelo contrário, teve a sorte de sobreviver à própria liberdade.

 

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Sobre o autor

Luís Henrique Pellanda

Luís Henrique Pellanda é escritor e jornalista, autor de dois livros de contos e três de crônicas.

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