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Sobre malandros e otários

Ao ver um sujeito aplicando o golpe das tampinhas, escondendo a bola para o otário não achar, Felippe Anibal pensa como alguém ainda cai numa esparrela dessas. Mas, pensando bem, a gente cai em coisas bem piores...

Por Admin
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A técnica é a de um prestidigitador, embora o truque seja tão velho quanto a própria malandragem. Sobre uma mesinha ordinária, diante dos olhos cobiçosos do apostador, o homem move três tampinhas, alternando-as de lugar em movimentos rápidos e circulares. Sob uma delas, há uma pequena esfera de metal. Ao fim desta coreografia, o antagonista deve descobrir qual das peças esconde a bolinha. O negócio é que ele não vai acertar nunca.

Você já deve ter visto por aí: trata-se de um golpe. No meio da movimentação, como num passe de mágica, o vigarista consegue retirar a bola e a esconde entre os dedos. Pronto. A partir de agora, qualquer das opções que o jogador indicar estará vazia. Em seguida – e triunfante –, o golpista levanta uma das tampinhas restantes, deixando cair a esfera, como se ela sempre estive estado ali.

A fraude tem até nome: “golpe das tampinhas”. Quando, nasemana passada, vi uma mesa dessas armadas ali em plena Praça Rui Barbosa, noCentro, o que me deixou estupefato não foi a agilidade com que o malandro – umtipo falastrão e risonho – manuseava as peças, nem o fato de a polícia passarindiferente à cena, mas o cúmulo de, ainda hoje, no avançar do século vinte eum, haver quem caia em um embuste deste naipe – e que, convenhamos, é maismanjado do que o MDB se bandeando para o governo após cada eleição,independentemente de quem vença (“Hay gobierno, estoy dentro”).

Quando eu exercia a função que se convencionou chamar de“repórter policial” - aquele que cobre segurança pública, de delegacia emdelegacia –, me deparei com uma série de vigarices tão grosseiras quanto essa,das tampinhas. E tome golpe do paco, golpe do bilhete premiado, golpe deenvelope vazio… Conforme, à época, me chamou a atenção um delegado, as vítimastinham um elemento em comum: todas, por seu turno, caíram na trapaça porqueesperavam levar algum tipo de vantagem sobre o outro. Quem jogou mais luzessobre esta relação foi um homem que havia sido preso, acusado de aplicar golpesdeste quilate. “Só cai quem quer se dar bem. Então, eu não passo a perna emquem é honesto. A culpa é da ganância ‘dos patos’ [das vítimas]”, justificou,dando de ombros.

Como ainda nos é dado filosofar, tenho, a partir de minhascismas, feito analogias para tentar entender esses tempos bicudos. No caso emquestão, vi similaridades entre a essência da vítima dos golpes e o statusatual da “pátria” (cof, cof, cof). É que ambos me parecem estar diretamenterelacionados à equação segundo a qual para todo problema complexo há uma saídasimplória, aparentemente fácil e – talvez por isso mesmo – sempre equivocada. Éo sujeito que se acha esperto e, justamente por isso, o “um-sete-um” lhe passapra trás. Para meu finado tio Pedro 70, este tipo tinha até nome:malandro-bobo. “É o idiota com excesso de confiança, que age como se estivesseabafando, mas que, no fim das contas, é só um otário. E o malandro só existeporque existe o otário”, dizia.

Em tempos de embustes, se dermos um passo adiante, chegaremos a um dos aforismos do jornalista, poeta e dramaturgo austríaco Karl Kraus. Embora tenha morrido três anos antes do início da Segunda Guerra, K.K. cunhou uma máxima que parece um polaroide da “república” (cof, cof, cof) de hoje: “O segredo do demagogo é se fazer passar por tão estúpido quanto a sua plateia, para que esta imagine ser tão esperta quanto ele”. Não importa se é cortina de fumaça, desvio de foco. Caneta Bic, almoço em bandejão, limpar as lágrimas (cof, cof, cof) na bandeira nacional… Tudo é digno de aplauso à claque ensandecida, ávida por uma “mitada” (quando foi que um meme passou a valer mais que uma tese?).

Voltemos das divagações – e, aqui, pagarei na mesma moeda. Quando comentei com amigos que tinha visto uma quadrilha na Rui Barbosa, aplicando o golpe das tampinhas, perguntei: “Como é que pode? Como as pessoas ainda caem nessa?”. Quem matou a questão e jogou uma pá de cal sobre o causo foi o Leandro, que é sempre direto e rápido no gatilho: “Mano, você está no país que acredita em mamadeira de piroca e que elegeu o capitão”. Tome aqui sua mitada. Fim, taoquei?

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