Um ataque publicado nas redes sociais expôs com clareza o racha que hoje divide a direita em Foz do Iguaçu. Na quarta-feira (26), o perfil Paraná Pop, operado por Darlon Dutra, apontado como assessor oculto do grupo político dos deputados Vermelho, afirmou que “Foz está nas mãos de uma quadrilha” e responsabilizou o governador Ratinho Junior (PSD) por “trazer prefeitos incompetentes” para comandar a cidade. A publicação foi feita no momento em que, segundo o próprio social media, a página alcançou 15 milhões de contas no último mês.
A resposta partiu do secretário municipal de Comunicação, Cleberson Belino, recém-nomeado pelo prefeito Joaquim Silva e Luna (PL). Em vez de rebater o ataque, Belino escreveu: “Darlon… você é grande e sabe disso.” A mensagem surpreendeu integrantes do primeiro escalão e foi interpretada internamente como mais um fator de desgaste para uma administração que já enfrenta pressões simultâneas no Legislativo e entre os órgãos de controle.
A gestão comandada pelo general da reserva - ex-diretor de Itaipu e Petrobras -, chega ao fim do primeiro ano com perda de base parlamentar, formação de um bloco independente de nove vereadores (o G9) e avanço de duas CPIs (Foztrans e Educação). Uma terceira, a CPI do Asfalto, aguarda instalação após o Ministério Público do Paraná validar questionamentos sobre R$ 17,9 milhões em contratos de emulsão asfáltica.
A fala pública do secretário também evidenciou um contraste com a postura de outras autoridades do governo. Darlon responde ao menos a 14 processos nas esferas cível, criminal e eleitoral, parte movidos por integrantes da administração, entre eles o próprio prefeito Silva e Luna, o procurador-geral do Município, Rafael Germano Arguello, a secretária de Obras, Thaís Escobar, e a superintendente do Foztrans, Aline Maicrovicz.
As ações tratam de difamação, injúria, danos morais, propaganda irregular e ataques a servidores e gestores públicos. Mesmo assim, Belino optou por uma abordagem de aproximação, vista por auxiliares do governo, sob a condição de anonimato, como desconectada do ambiente político da cidade.
Racha na direita
A divisão interna do campo conservador em Foz do Iguaçu remonta às eleições de 2024. Naquele pleito, a executiva nacional do PL rejeitou a candidatura defendida pelo deputado federal Vermelho - a do ex-prefeito Paulo Mac Donald - e lançou Silva e Luna, que recebeu apoio do governador Ratinho Junior e do bolsonarismo.
O militar da reserva foi eleito no primeiro turno com 50,14% dos votos válidos, e o rearranjo reduziu o espaço político do grupo Vermelho na cidade. Na mesma eleição, Darlon foi candidato a vereador pela coligação que apoiou o Macdonald, derrotado.
Após o resultado, em abril passado, o deputado federal Vermelho deixou o PL alegando desacordos internos. O distanciamento se refletiu nas redes sociais ao longo de 2025, quando perfis operados por Darlon intensificaram ataques ao prefeito e ao governador.
Dinheiro público em família

A atuação política de Darlon é estruturada a partir de vínculos diretos com o grupo Vermelho. Reportagem do Plural Curitiba, publicada em 1º de outubro de 2024, mostrou que ele produzia conteúdo para o deputado estadual Matheus Vermelho e acompanhava suas agendas, além de administrar perfis como Paraná Pop, usados de forma recorrente em disputas políticas locais.
Sua irmã, Andreia Dutra, foi exonerada do gabinete de Matheus Vermelho em 10 de março de 2025, após a reportagem apontá-la como funcionária fantasma. Na sequência, ela assumiu como titular da empresa TMD Martins Marketing e Publicidade Ltda., razão social utilizada por Darlon para operar a Agência Pop e estruturar o ecossistema digital que atende os interesses políticos dos Vermelho.
Seu pai, João Linto Mota Martins, é titular do CNPJ que recebeu R$ 303,5 mil do gabinete do deputado federal entre 2019 e 2023, por meio de 42 notas fiscais, algumas com valores repetidos. A empresa não apresentava capacidade técnica compatível com os serviços contratados, e o telefone registrado no CNPJ coincide é o mesmo utilizado por Darlon.
Os deputados negam irregularidades. Em ocasião anterior, ao ser procurado, Darlon respondeu apenas: “Mete marcha. Nem precisa me avisar. Agora, se você escrever, terá que provar.”
Procurado, o secretário municipal de Comunicação, Cleberson Belino, informou que não comentaria as próprias declarações. Integrantes do primeiro escalão ouvidos pela reportagem também preferiram não se manifestar publicamente sobre o episódio. A assessoria dos deputados Vermelho e Darlon Dutra não responderam aos pedidos de posicionamento enviados pela reportagem. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações.
A assessoria do deputado Vermelho mandou uma nota comentando o assunto. Leia a nota na íntegra:
Nota do deputado federal Vermelho
Em resposta à reportagem publicada pelo Portal Plural, esclarecemos que Darlon Dutra, mencionado no texto e proprietário de um perfil no Instagram, não presta serviços ao deputado há bastante tempo. Ressaltamos ainda que o referido profissional, responsável por uma página em rede social, não recebe qualquer tipo de orientação, ingerência ou pedido referente a publicações, remoções ou cancelamentos de conteúdo. O deputado federal Vermelho defende a livre e espontânea expressão, independentemente de quem a exerça.
No que diz respeito às questões mencionadas sobre o prefeito General Silva e Luna, o deputado mantém uma relação cordial, republicana e pautada no diálogo institucional. Ao longo de seus dois mandatos, já foram destinados mais de R$ 100 milhões em recursos ao município, muitos dos quais seguem em execução.
O deputado reforça que não atua movido por divisões políticas, mas sim pelo interesse público. Assim, atende todos os prefeitos, vereadores e lideranças que o procuram, sempre com foco no desenvolvimento e no bem-estar da população.
Atenciosamente
Comunicação
Deputado Federal Vermelho (PP)