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Quem elegeu Pimentel?: uma análise eleitoral a partir dos bairros

A principal explicação para a confortável vitória do vice-prefeito no segundo turno foi a transferência de votos de Ducci para Pimentel

Quem elegeu Pimentel?: uma análise eleitoral a partir dos bairros
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No último domingo (27), Eduardo Pimentel (PSD), atual vice-prefeito de Curitiba e apoiado quase por todos os setores da política tradicional paranaense, conquistou a Prefeitura da capital com uma confortável margem (57,64%) de sua adversária, a jornalista e representante da “direita raiz” Cristina Graeml (PMB). Em uma eleição que, perto do primeiro turno, ganhou rumos, de certa forma, inesperados.

O apoio do ex-coach Pablo Marçal (PRTB) e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), cujo partido compunha a chapa de Pimentel na figura do bolsonarista “raiz” Paulo Martins (PL), alavancou a candidatura da até então desconhecida, por amplas margens da população, Cristina Graeml. A jornalista saiu de 5% na primeira pesquisa Quaest divulgada dia 27/08 para 21% na pesquisa de véspera, atingindo 31% dos votos válidos no primeiro turno dia 6/10, apenas 2 pontos atrás de Pimentel.

No entanto, o abalo sísmico que Graeml representou no primeiro turno, contrariando as expectativas de um segundo turno entre Pimentel e outras figuras tradicionais da política curitibana, como Ney Leprevost (União) e Luciano Ducci (PSB), perdeu forças no segundo turno, com crescimento de Pimentel e vitória confortável no dia 27/10 com mais de 14 pontos percentuais de distância.

É certo que a proposta da campanha bolsonarista de atrelar a tarifa do ônibus ao quilômetro rodado, aumentando o custo para quem mora na periferia, teve impacto. Porém, procurarei mostrar como o voto por renda no primeiro turno e a transferência de votos de Ducci para Pimentel no segundo, teve importância significativa no resultado eleitoral.

Desde a entrada de Ratinho Jr. na cena política curitibana em 2012 é possível identificar um forte atrelamento do voto pela renda. Usando dados do Censo de 2010, percebe-se que no pleito de 2012 e 2016, Ratinho e Ney Leprevost, então apoiado pelo atual governador, fizeram votações acima da média nos bairros mais pobres da cidade, especialmente na periferia sul da cidade. Tendo suas derrotas explicadas pela altíssima votação de seus adversários nos bairros ricos da cidade.

Embora em 2020 esse fenômeno não tenha sido percebido, com Greca, apoiado por Ratinho, tendo votação homogênea na cidade, em 2024 foi novamente perceptível a clivagem dos votos por renda, ao menos no primeiro turno. Pimentel, com Ratinho como principal cabo
eleitoral, fez votação novamente expressiva e acima da média nos bairros pobres, especialmente da zona sul como Tatuquara (47%), Umbará (43%) e Caximba (58%), região que vem se consolidando como uma “ratinholândia”. Os bairros nobres da cidade, por sua vez, foram importantes redutos para Graeml, alcançando 41% no Água Verde e no Mossunguê e 45% no Jardim Social. Ducci teve melhor desempenho nos bairros de classe média alta centrais como Centro (32%) e Alto da XV (27%).

Já no segundo turno a renda não se torna elemento tão marcante, visto que o desempenho de Pimentel já havia sido alto nas periferias. O verdadeiro crescimento do atual vice-prefeito do primeiro para o segundo turno vem dos bairros, majoritariamente de classe média, em que Luciano Ducci teve alto desempenho. No Centro, em que Pimentel havia ficado em terceiro lugar no primeiro turno, ele apresentou um crescimento de 39% de um turno para outro, mais do que dobrando sua votação inicial. Porcentagens parecidas são encontradas no São Francisco (35%), Campina do Siqueira (37%) e Alto da XV (35%), todos bairros em que Ducci pontuou acima da média no primeiro turno.

Dessa forma, é possível perceber que as periferias e a “ratinholândia” foram fundamentais para Pimentel. No entanto, a principal explicação para a confortável vitória do vice-prefeito no segundo turno foi a transferência de votos de Ducci para Pimentel, ocorridas especialmente em regiões de classe média que Graeml havia ganho no primeiro turno e o candidato do PSB havia pontuado acima da média.

Esse resultado evidencia que, embora a esquerda se encontre muito reduzida na cidade, ela ainda pode ser o fiel da balança em disputas internas da direita. Mostrando inclusive que o eleitorado de esquerda se coordenou no segundo turno mesmo sem orientações de suas lideranças, visto que PSB e PT não declararam voto em Pimentel.

O cenário para o campo de esquerda não se mostra fácil em Curitiba e a falta de força dos partidos nas periferias, dominadas por Ratinho, se mostram entrave para o crescimento.

No entanto, a coordenação do eleitorado, evidente no segundo turno e na eleição da maior bancada progressista de vereadores das últimas eleições, mostra caminhos possíveis para a esquerda na cidade.

Para Pimentel e Ratinho, por sua vez, o pleito serve como demonstração de força pela consolidação da votação nas periferias e bairros pobres na cidade. No entanto, a eleição também deve ser vista como alerta pela divisão do eleitorado mais abastado da direita que, repentinamente, passou a rejeitar Ratinho e Greca, apoiando uma alternativa mais radical ainda. A dependência de Pimentel dos votos de Ducci se mostrou uma fraqueza, ficando evidente que o campo político da direita tradicionalíssima da cidade não consegue eleger sozinha um prefeito. Precisando, ou manter a preferência puramente pragmática do eleitor de esquerda ou se reconciliar com o eleitorado bolsonarista.

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