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Quando jornalistas se abrigavam em bares para lutar contra a ditadura

Leia trecho do livro “A Luta Bebe Cerveja”, vencedor do Prêmio Sangue Novo

Por Admin
Quando jornalistas se abrigavam em bares para lutar contra a ditadura
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Não houve um jornalista que não pisou, ao menos uma vez, no Bar Palácio. Generalizações à parte, se cabe a um lugar o título de “reduto de jornalistas”, é lá. Fundado em 1930 na Barão do Rio Branco, é do tipo folclórico e tradicional. Só foi mudar de endereço nos anos 90, para a André de Barros, logo ao lado, onde está até hoje. A Barão era a mesma rua que abrigava a redação do jornal O Estado do Paraná, o Estadinho, e por isso acabava sendo de lei fechar o expediente nas mesas de madeira do Palácio. Isso foi antes do Estadinho mudar de sede e migrar para as Mercês, onde morreu em 2010.

Não era o maisbarato, mas o importante era estar junto. Além disso, incontáveis reuniões do Estadinho ocorreram no Palácio, não naredação. Era como se o bar fosse uma sala, um escritório, um anexo – extensão.Pra que fazer reunião no jornal se a gente pode fazer no bar? É só descer arua, afinal de contas.

E esse foi o combinado daquele dia entre alguns repórteres e Luiz Manfredini, o Manfra. Entre os jornalistas, Adélia Maria Lopes, mato-grossense que veio para Curitiba estudar Jornalismo e Ciências Sociais (como boa libriana, não conseguiu se decidir por um só). A ideia era discutir uma cartilha de redação no Palácio. Mas aí o Manfra deixou a reunião pra lá e foi assistir a um jogo do Atlético Paranaense, assim, “sem avisar ninguém”.

Adélia ficoudoida da vida e quando ele finalmente apareceu, soltou um palavrão. Manfredinia demitiu na hora. “Você manda o chefe para a puta que pariu... Por maisliberal que você seja, você está sujeita a ser demitida”, conta ela. A redaçãointeira tomou as dores de Adélia. Organizaram uma outra reunião no Palácio,chamaram a moça e fizeram-na ser recontratada. É engraçado que a vida dosjornalistas acontecia quase como que 50% na redação e os outros 50% no bar. Atéas reuniões!

E olha só quecoisa do destino, Adélia e Manfredini já foram casados. “Essa história foiantes ou depois do casamento?”, pergunta a curiosidade. “Antes. Daí eu me caseipor vingança”, brinca.

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Adélia Lopesveio de Aquidauana, interior do Mato Grosso do Sul, ser jornalista em Curitiba.Pisou na cidade dos pinhais no dia em que foi proclamado o Ato Institucionaln.º 5 - 13 de dezembro de 1968. Achava a cidade feia. Fazia teatro com DeniseStoklos, Jornalismo na Universidade Federal e Sociologia na então FaculdadeCatólica.

No dia doAI-5, Jaques Brand, outro jornalista, se lembra de estar tomando umas no bar.Era o Bar do Leleco, que ficava na frente da Casa da Estudante, ao lado daReitoria, intensamente frequentado por estudantes. Para eles, a coisa todaacontecia no Bar do Leleco (ou Bar do Quim. É que Quim era o dono e Leleco, ogarçom), na cantina da Reitoria (que servia pizza nos intervalos!) ou noRestaurante Universitário.

Quem estudouna Federal em 1968 se lembra de ter reuniões dentro do RU para organizar aocupação da Reitoria, um dos movimentos de resistência democrática ocorridos emCuritiba contra o regime militar. Nada melhor do que pensar quem é que vaiderrubar o busto do reitor comendo um prato de arroz com feijão.

Além disso,não era seguro conversar sobre essascoisas na frente de todo mundo. Na sala de aula, por exemplo, vira e mexeaparecia um informante, um araponga. Eles entravam lá e ficavam de tocaia, às vezesdisfarçados de alunos, só para descobrir se havia algum subversivo na área.

As pessoastinham muito cuidado com o que falavam em voz alta, porque se fossem pegospelos milicos, podiam não voltar. E como saber em quem confiar? A ideia deperseguição ideológica era real: o medo de falar mal do governo, o medo de sercapturado, o medo de ser ouvido por quem não deve. Tudo estava lá. As pessoassimplesmente desapareciam, não voltavam, ninguém ficava sabendo o que houve. Nofundo, lá no fundo, sabiam sim, mas era difícil de acreditar.

O AI-5, maissevera das medidas arbitrárias tomadas durante o regime militar, retiravadireitos civis e políticos dos cidadãos e legalizava, por exemplo, a tortura.Foi assim até 1979, com a Lei da Anistia.

Os estudantessentiam todos esses medos e também a dor de serem perseguidos, mas estavam atentos e fortes, como diz a música. Eiso causo do busto do reitor: 1968, quem comandava a Universidade Federal doParaná era Flávio Suplicy de Lacerda, indicado por Castelo Branco. Rondava porele um acordo chamado MEC-Usaid, em parceria com os Estados Unidos, paraaplicar uma anuidade aos calouros da universidade, até então, pública egratuita. A ideia toda era tornar a educação brasileira mais tecnológica, comreformas desde o ensino fundamental, nos conteúdos, até a universidade,tornando-a paga.

A revolta foigeral. Os estudantes ocuparam a Reitoria e só saíram quando o acordo caiu porterra. Nesse ínterim, arrancaram o busto de Suplicy do pátio e arrastaram pelaXV de Novembro, como sinal de protesto. É de conhecimento geral que o busto emhomenagem ao ex-reitor voltou para seu posto no pátio da Reitoria, mas foinovamente arrancado por estudantes em 2014, cinquenta anos após o golpemilitar.

Osuniversitários também foram protagonistas de outro movimento de resistência emCuritiba, que ficou conhecido como “chácara do Alemão”. Veja só, em 1968, ocongresso da UNE, em Ibiúna, São Paulo, foi descoberto, e mais de milestudantes foram pra cadeia. Aí cada regional da União Nacional dos Estudantesdecidiu fazer seu próprio minicongresso. Aqui em Curitiba ficou agendado nachácara do Alemão, no Boqueirão, perto do quartel.

Paradisfarçar, disseram que era um churrasco de confraternização. Infelizmenteforam pegos no flagra. E 17 participantes acabaram presos e condenados, combase na Lei de Segurança Nacional.

De qualquermodo, na época florescia na juventude a ideia (até) apaixonante de lutar contraa ditadura. O mundo inteiro estava em revolução, exemplos não faltavam. Asprimaveras de 1968 em Paris e Praga. Brigitte Bardot desfilando de biquíni.Woodstock e a coisa toda. Lisérgicos e contraceptivos à disposição.Descobria-se a liberdade de ser quem era em um ambiente repressivo.

Não só entreos estudantes – todo mundo estava com um espinho no coração. Imagine a dor deviver assim, pressionado, contra a parede, onde tudo é proibido, nada érealmente divino maravilhoso.

E é assim queler um poema no bar, usar um batom, cortar o cabelo e a irreverência toda sãoformas de dizer com o próprio corpo que se está contra tudo que “está aí”.Havia os que não escovavam os dentes – “ir ao dentista é coisa de burguês” – eos que não tomavam banho. Porque todo mundo estava frágil, sentia-se no ar quealguma coisa estava errada, e o corpo se torna uma forma de protestar nessasalturas.

O corpo épolítico. A fala, a bebida, o escarro: tudo que sai de ti é o início de ummovimento. Em nome do que, depende de você.

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Um outro fatosobre a ditadura militar era a censura sobre a imprensa. Havia, portanto, nasredações de jornal, TV e rádio, murais com bilhetinhos colados diariamentesobre o que era proibido falar naquele dia. Assim, desse jeito mesmo.

Quando pouco, um censor batia às portas, em pessoa. Às vezes, acontecia de a matéria estar pronta e ser barrada. Mas o que rolava muito no Paraná era a autocensura: já sabendo o que seria proibido, os jornalistas não falavam sobre aquilo, se cuidavam, conversavam com os editores e mudavam o tom das próprias palavras.

E é por isso também que ninguém mencionava assalto ao banco, morte de índio, violência em geral e, é claro, corrupção. Ficava por debaixo dos panos. Sem notícia, a população não ficava sabendo o que de ruim vinha do governo. A mídia sempre é alvo de regimes autoritários.

Às vezes, dava raiva. Enquanto jornalista, saber que algo tinha acontecido, e não poder fazer nada, chega a dar desespero. Não precisava nem ser um militante dos grandes para sentir raiva de ser censurado. Essa manipulação geral é tão poderosa que com o passar dos anos gera uma dormência no público.

        Maslá vai ele, todos os dias para a redação. O jornalista. Ler os bilhetinhos,descobrir o que não podia falar, trabalhar com metade das forças. O clima dasredações não era dos piores, porque todo mundo era amigo, falavam muito, abarulheira das máquinas, o amor em comum pela palavra, o cheiro de cigarro, osflertes.

Só nas maioreshavia aquele medo de ter um espião entre os repórteres, mas geralmente nessescasos já se sabia quem era o espião. Então era só não falar nada ali por perto– de coisas básicas a grandes artimanhas. De qualquer maneira, viver sobcensura é agoniante. Às vezes, por dizer um A, o sujeito saía taxado decomunista. Ser comunista era atestado para cadeia, veja só. E na maioria dasvezes, nem comunista era.

Para descontar a raiva, vez ou outra o encontro depois do expediente era no Bamboliche, na Marechal Deodoro, no Palácio do Boliche, no ginásio do Atlético, ou no Bebum Boliche, na Duque de Caxias. Os três boliches da cidade. A bola de boliche voando a sabe-se lá quantos quilômetros por hora para acertar os pinos era o meio encontrado para descarregar. Pá! Uma descarga elétrica, adrenalina mesmo.

Na diversão também há força.

Quem quiser pode ler o livro completo aqui.

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Tags: Paraná

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