“pelo que vosmecê é – província, cárcere, lar –, esta Curitiba, e não
a outra para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo.” Dalton Trevisan
Província: Naquele arraial de serra acima, vozes de restos de florestas se orquestraram com altissonantes arapongas e pintassilgos, bem-te-vis animadíssimos, fragorosos juritis, modulações de sabiás, na manhã em que, em 1693, a fim de ofertar “paz, quietação e bem do povo”, pelas mãos de um Mateus Leme já idoso (hoje apenas mais uma avenida congestionada), Capitão-Povoador, é fundada a Vila da Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.
E então a coivara, a queimada em volta das rústicas cabanas. E lavadeiras cantavam na beira dos riachos, depois roupas ao sol nas cordas de cipó. E a carne do caititu para comer com mandioca e pinhão. E a matinada dos galos. E a relação com os Tinguis. E a enxada e a foice nas plantações. E criação pastando na tiguera. E as fogueiras pontilhando na escuridão dos pinhais. E eu tirando essas informações de um livro chamado Goiobang, de O. Martins Gomes.
Cárcere: a cidade, becos escuros e sussurros. Quem pode medir a dor de cada alma? Cidade constipada. Cidade de cinzeiros com poemas queimados. Cidade das bocas-de-lobo. Cidade desembocada em marginais. Cidade da timidez desencantada. Cidade das perversões mais ultrajantes. Cidade do ódio sincerão. Cidade do misto-quente com afeto e repugnância. Cidade do ratatá. Cidade do monge executivo. Cidade das caras cartas de malbec e merlot. Cidade do pessoal do escritório, das alheadas salas de reuniões. Cidade da usura nos termos dos versos de Pound. Cidade do lá fora o clima está piorando. Cidade dos bares glaciais. Cidade da mosca pousada no sanduíche de pernil. Cidade dos frívolos hoteis.
Lar: em meio aos indiferentes caixotes de concreto e dos aquários-ostentação, em meios a prédios e mais prédios, em alguns bairros ainda, porventura, assaltam-me coloridas casas de madeira com lambrequins, resistentes em sua frágil antiguidade. Viajo essas casas como se fossem casas de meus antepassados. O que eu tenho diante de mim é o meu passado. E para frente, para frente, para frente Curitiba prosseguindo em palavras que meu corpo jamais poderá mentir. Viajo a chuva que canta nas calhas, tão curitibana quanto uma modinha de Nhô Belarmino e Nhá Gabriela. O som dos sinos das igrejas, o cheiro de comida de rua, os violões dos músicos autorais, as crianças brincando nas praças, as praças públicas que igualam a todos.
Curitiba Taki-Keva.