O preço do gás de cozinha subiu cerca de 55% desde 2018, último ano do governo Michel Temer (MDB), atravessando os governos Bolsonaro (PL) e Lula (PT), apesar de o preço do petróleo no mercado internacional ter ficado praticamente no mesmo nível ao longo do período.
A conclusão consta de um estudo da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), que atribui a escalada do botijão a mudanças estruturais na política de preços e à reorganização do mercado de GLP (gás liquefeito de petróleo), e não à cotação do barril.
A pesquisa analisou uma série histórica de dez anos, de 2015 a 2024, com base em dados oficiais da Agência Nacional do Petróleo (ANP), da Petrobras e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
O levantamento foi elaborado pelo Instituto Latino-americano de Tecnologia, Infraestrutura e Território (ILATIT/UNILA), com texto e revisão teórica do professor Ricardo Morel Hartmann, doutor em Engenharia de Energia, e coleta e tabulação de dados de Isabela Ferreira, graduanda em Engenharia de Energia.
Três governos, mesma trajetória
Segundo o estudo, em 2018 o botijão custava em torno de R$ 75, encerrando um período de relativa estabilidade observado nos anos anteriores.
A partir de 2019, já no governo Jair Bolsonaro (PL), foi consolidada a política de paridade de preços internacionais (PPI), que passou a atrelar os preços internos dos combustíveis às cotações externas. Nesse mesmo período, em dezembro de 2020, foi concluída a privatização da Liquigás, então subsidiária da Petrobras responsável pela distribuição do gás de cozinha.
Para os autores, essas duas decisões - a consolidação da PPI e a saída da Petrobras do segmento de distribuição - tiveram papel central na mudança da dinâmica do mercado de GLP, ao reduzir a capacidade de contenção de preços e ampliar o espaço para a elevação das margens privadas.
A partir de 2023, já sob o terceiro mandato do presidente Lula (PT), a Petrobras revisou a política de preços para alguns combustíveis, buscando amortecer oscilações do mercado internacional.
Ainda assim, segundo o estudo, o preço do GLP ao consumidor permaneceu elevado, alcançando cerca de R$ 115 em 2024, mesmo com o petróleo novamente girando em torno de US$ 75 por barril.
O relatório aponta um descolamento entre a cotação do petróleo e o preço final do gás de cozinha, fenômeno atribuído à composição do preço do GLP.
Mais de 50% do valor pago pelo consumidor corresponde às margens de distribuição e revenda, parcela que inclui custos operacionais e lucros. Dados da EPE citados no estudo indicam que, entre 2019 e 2023, a inflação medida pelo IGP-M foi de 48%, enquanto a margem líquida das distribuidoras de GLP cresceu 188% no mesmo período.
O trabalho destaca ainda a concentração do mercado. Segundo estudos da EPE incorporados à análise, quatro empresas controlam mais de 60% da distribuição de GLP no país. Com a saída da Petrobras da atividade de distribuição, avaliam os pesquisadores, reduziu-se a capacidade de moderação de preços em um mercado considerado essencial para a população.
Oeste em foco
O recorte do estudo concentra-se em Foz do Iguaçu e Cascavel, cidades-polo do oeste do Paraná. Ao longo da década analisada, as duas cidades alternaram a liderança nos preços médios do botijão, e, em 2024, Foz do Iguaçu voltou a registrar valores mais elevados.
Para os autores, a alternância reforça a avaliação de que fatores locais não explicam sozinhos a alta, indicando o predomínio de fatores estruturais de alcance nacional.
O impacto social do modelo atual é apontado como significativo. Com base em dados da EPE, o estudo indica que, para famílias em situação de extrema pobreza, o custo do botijão pode comprometer até 67% do orçamento mensal, enquanto para as faixas de renda mais altas o peso varia entre 1% e 2%.
No Paraná, onde o gás de cozinha é amplamente utilizado por domicílios e pequenos negócios, o encarecimento também pressiona o preço dos alimentos, uma vez que restaurantes, padarias e serviços de alimentação dependem do insumo.
O estudo conclui que, apesar de o Brasil ser autossuficiente em petróleo desde 2006, a atual estrutura de preços e de mercado do GLP, consolidada ao longo de diferentes governos, não tem garantido acesso ao gás de cozinha a valores compatíveis com a renda da população, especialmente entre os segmentos mais pobres.