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Por que revitimizar mulheres serve de entretenimento?

Não, Carla Diaz não precisava de nenhum julgamento não solicitado

Por que revitimizar mulheres serve de entretenimento?
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Já faz algum tempo que as pessoas vêm questionando o namoro de Carla Diaz e Arthur Picoli no BBB21. Nas últimas semanas, pipocaram meia dúzia de posts feministas na minha timeline apontando a natureza abusiva dessa relação. As cenas replicadas eram bastante ilustrativas: primeiro ele performando o galã apaixonado, depois passando a ignorá-la de forma bastante manipuladora, chamando-a de chata, forçando beijos e falando mal dela para os amigos. 

Não acompanhei o programa de cabo a rabo, assim como não acompanho de cabo a rabo a evolução da relação tóxica de nenhuma amiga. A vida cotidiana não tem pay-per-view. Mas no BBB eu assisti o suficiente para notar o padrão que esse tipo de dinâmica carrega. Lembro do dia em que uma das sisters disse à Carla que ela intimidava o rapaz com sua independência. Isso foi lá no começo, quando ele ainda era um pretendente. Depois, vi essa mesma mulher chorosa abraçada ao corpo imóvel de um marmanjo viciado em culpabilizá-la.

Ontem (23), a atriz dividiu o paredão com um cara que fez comentários homofóbicos em rede nacional e mesmo assim ela foi a eliminada. Só isso já seria suficiente pra gente relembrar que ainda vive no país misógino e homofóbico que elegeu Bolsonaro. Mas quero ir um pouquinho além. Hoje, assisti a conversa de Carla com Ana Maria Braga e fiquei enojada, mas não surpresa com a insistência da apresentadora em fazer da humilhação da moça um pouquinho de entretenimento. 

Ana Maria fez questão de resgatar cenas constrangedoras e pautar todo o bate-papo com Carla, do início ao fim, nas atitudes do cara com quem ela estava se relacionando. Ainda que houvesse um incômodo claro, a apresentadora não parava de perguntar se a atriz não tinha se tocado que o carinho não era recíproco, se ela não estava magoada, porque ela tinha que se mostrar magoada. Tudo pela audiência. 

Fiquei me perguntando: por que as pessoas consideram prazeroso ver uma mulher sendo revitimizada?

Espelho, espelho meu

Algumas cenas do namoro de Carla me serviram de gatilho. Por instantes, voltei ao momento em que aceitei namorar um homem cishetero padrão, anos atrás. Foi o começo de relacionamento que o mito do amor romântico nos promete, regado a declarações e promessas impraticáveis, porque raramente resta saúde para cumpri-las. Em poucos meses, o meu príncipe encantado tratou de fiar uma trama bastante dramática e manipuladora, dessas que a gente precisa de anos de terapia para desatar. Eu me sentia constantemente culpada por tudo o que era e fazia.

Foi difícil sair dessa situação. Longe das câmeras, precisei de três anos, algumas crises de pânico e uma dúzia de agressões para reunir forças. Mesmo com todos os meus amigos dizendo com todas as letras que eu vinha sendo abusada, o sentimento era de julgamento e culpa. Fartas doses de culpa. Eu me sentia culpada por ficar. Eu me sentia culpada por ir embora.

No mesmo ano em que terminei esse namoro, li um estudo britânico que apontava que 96% das mulheres sentiam culpa pelo menos uma vez ao dia. Em comum com o Brasil, a Inglaterra tem uma herança cristã. Há milhares de anos, ouve-se que o papel da mulher é ser submissa como diz a Bíblia. Coincidência? Certamente não.

Eu já fui tão Carla que assistir a Carla me desperta sentimentos horrorosos. Se não tivesse consciência disso, talvez também quisesse eliminá-la. O mesmo possivelmente acontece com muitas e muitas mulheres. Só que a culpa não é minha, dona Ana Maria Braga. Nem sua. Nem das outras mulheres que votaram na moça que foi abusada. Nem da própria Carla. A culpa é do patriarcado que autoriza o tipo de narrativa que a senhora mostrou no seu programa.

O que é essa tal de revitimização e como evitá-la?

A pesquisadora Soraia da Rosa Mendes chama de revitimização o seguinte processo ao qual é submetida uma mulher vítima de violência: após o ato sofrido, ela geralmente encontra uma série de “obstáculos estruturais”, que vão desde o difícil acesso às delegacias especializadas até o “julgamento de conduta” ao qual ela é submetida dentro do sistema criminal ou dentro da sociedade em geral. 

O caso Mariana Ferrer deixou evidente como as mulheres são revitimizadas pelo judiciário, mas não são só os juízes e advogados que volta e meia fazem as vezes de algozes. A mídia, a família, os amigos… Muita gente tem parte nesse processo. E vale lembrar: violência psicológica também é violência.

Ano passado, quando uma colega me contou que estava passando por uma situação deplorável com o marido, eu quis dizer a ela que aquilo era um abuso e ela precisava se conscientizar. Foi doído. Eu quis gritar que ela não podia aceitar aquela situação, como eu um dia já aceitei, mas aí eu lembrei que tem mulher que se sente tão julgada e envergonhada que deixa de pedir ajuda. Também tem mulher que morre tentando sair de casa. A gente precisa ter cautela.

Em vez de dar a minha opinião, mandei uma mensagem para o psicólogo que me atendia naquela época: Matheus Vieira, especialista em relacionamentos. E ele me disse exatamente o que eu precisava lembrar: mulheres que vivem relações abusivas não precisam de julgamento, precisam de redes de apoio.

Jess Carvalho

Jess Carvalho

Jornalista investigativa com foco na defesa dos direitos humanos. É formada em Jornalismo pela Universidade Positivo e mestre em Jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa

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