A Polícia Civil (PC) está investigando um caso de racismo e capacitismo contra o angolano Angelino Cassova, de 32 anos, ocorrido no dia 6 de junho, dentro de um ônibus biarticulado de Curitiba. Passageiros gravaram um vídeo do embate (confira abaixo) e a suspeita do ataque racista foi identificada como Donzila Agostini.
Cassova é deficiente físico e usa cadeira de rodas para se movimentar. No dia do crime, ele pegou o biarticulado da linha Santa Cândida–Capão Raso e, por causa de um problema no elevador de acesso da estação-tubo, precisou embarcar pela porta quatro, em vez de usar a porta três que dá acesso ao local reservado para passageiro em cadeira de rodas.
Ao Plural, Cassova, que é negro, contou que precisava chegar até o espaço reservado para prender a cadeira de rodas com o cinto de segurança. Todos os passageiros permitiram a passagem dele, mas Agostini se negou a dar licença e afirmou que Curitiba "é uma floresta agora”.
Angelino Cassova
Diante da situação, passageiros começaram a gravar um vídeo e houve bate-boca. "Floresta por quê?", disse umas das passageiras que argumentavam com a mulher. As imagens registradas por Rachel Bento, que agora será testemunha do caso, viralizaram na internet. Por meio das redes sociais, o advogado que representa a vítima, Valnei França, conseguiu ajuda para confirmar a identidade da acusada.
Durante o episódio, além de sofrer ataques racistas, Cassova também foi vítima de capacitismo, já que a agressora disse que não tinha “culpa da condição dele”. “Veja, eu também não escolhi nascer assim. Às vezes, quando acaba a bateria da minha cadeira, fico pensando: meu Deus, que bom se tivesse pernas para sair da chuva. Então isso foi capacitismo, porque eu também não escolhi essa condição”, diz Cassova.
Racismo
Entre janeiro e outubro do ano passado, a Secretaria de Segurança do Paraná (Sesp) contabilizou 44 casos de racismo em Curitiba, além de 224 de injúria racial. Hoje, após mudanças na lei, os dois crimes se equiparam, o que torna a punição mais dura em caso de condenação.
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De acordo com Valnei França, se condenada pelos crimes de capacitismo e racismo, a acusada pode pegar até oito anos de cadeia. “Os casos de racismo não aumentaram, o que acontece é que agora eles estão sendo filmados. E essas provas podem ajudar no processo e numa eventual condenação”, diz França.
Cassova veio ao Brasil pela primeira vez em 2016 e depois retornou à Angola. Mas, desde 2019, vive em território brasileiro para estudar. Ele trabalha numa empresa na região central da cidade e usa a linha Santa Cândida–Capão Raso todos os dias.

No dia em que foi vítima de racismo, Cassova não percebeu de imediato a gravidade do crime. “As pessoas começaram a me chamar no WhatsApp, falando do vídeo e dizendo que aquilo era um crime. Foi quando entendi melhor o que tinha acontecido", diz. "Porque, até então, achava que [a agressora] era só uma pessoa desequilibrada. Depois percebi como aquilo me fez mal. Espero que haja alguma punição.”
Investigação
A Polícia Civil não detalhou o andamento da investigação. Por meio de nota, a assessoria de imprensa afirmou que não vai repassar mais informações “para não atrapalhar o andamento das investigações”.
O boletim de ocorrência, feito no dia 7 de junho, um dia após o crime, foi registrado como injúria contra pessoa com deficiência. A vítima prestou depoimento no início da semana e identificou a suspeita. A polícia ainda não indiciou a mulher por nenhum crime referente ao caso do angolano.
A reportagem entrou em contato com Donzila Agostini e pediu que ela retornasse a ligação para comentar o assunto. Até a publicação deste texto, ela não havia se manifestado.