Em época de eleições observamos com maior atenção os políticos. Foi com este espírito que assisti a um vídeo do vereador Guilherme Kilter, editado para servir de propaganda eleitoral. O título: “Vereador de Curitiba prende morador de rua que se recusou a tirar a barraca”.
No vídeo, observamos que Kilter, sem se apresentar, aborda um rapaz pobre e preto, afirmando que ele não pode dormir na calçada e que tem de retirar sua barraca dali. Pergunta, de maneira sarcástica, onde ele mora. O rapaz, que muito provavelmente nem sabe quem é aquele jovem branco e bem vestido, nega-se a sair, dizendo vender balas na rua para o sustento, dele e de sua mulher, que é surda e muda. Kilter chama a polícia para prendê-lo e ri, de forma escarnecedora: A decisão de Alexandre de Moraes (leia-se, do STF) proíbe retirar as pessoas, mas dá para retirar. Seu método: assediou a pessoa e depois chamou a polícia, alegando “desacato à sua autoridade”, num ato, segundo ele, de limpeza da praça.
Verifico no site da Câmara Municipal que Kilter se apresenta como líder de jovens da Primeira Igreja Batista de Curitiba (PIB), sendo parente de dois clérigos, e que se formou em Relações Internacionais, mas sua profissão antes de ser eleito era a de produtor de marketing digital. Com este pequeno currículo, foi o segundo vereador mais votado de Curitiba em 2024.
Em outro vídeo, ele, de maneira debochada, imita uma pessoa em atitude de oração, e afirma estar pedindo a Deus a morte de Lula. Noutro, elogia alunos da rede pública cantando uma marcha do BOPE (Batalhão de Operações Especiais), cujo conteúdo celebra a valentia de quem mata pessoas da favela. E expõe seu preconceito racial, ao menosprezar o funk, gênero musical de origem afro-americana que tem muitos admiradores no Brasil.
Ofender o princípio da divisão de poderes – afinal, ele pertence ao Legislativo, não lhe cabendo dar ordens e punir quem quer que seja, - debochar de ritos religiosos e dos professores da rede pública completam o quadro. Fazer morrer parece o seu mote: o jovem não oculta sua falta de empatia pelo gênero humano. Ademais, ele mesmo não está trabalhando, mas gravando um vídeo com imagens de pessoas que não deram sua autorização, logo, uma prática ilegal.
Leio no site Coletivo Bereia que este vereador, cuja difusão de desinformações é uma constante, afirma ter chegado à política por indicação de Deltan Dallagnol, ele também membro da Igreja Batista. O ex-procurador foi acusado, diversas vezes, de aproveitar o púlpito para fazer campanhas eleitorais. E o rapaz se ufana de ter conquistado o voto religioso.
A pergunta que me vem é a seguinte: é risível a agressão às pessoas pobres, quando elas acabam de responder por que são pobres? É risível expor os pertences de alguém apresentado como um “sem nome”, sendo retirados da calçada como se fosse um monturo? É risível pedir a morte de alguém, elogiar crianças que se inspiram em policiais treinados para assassinar pessoas? Não seria o riso um artifício para naturalizar o ódio?
O filósofo Etienne Balibar elabora o conceito de “violência extrema” para este tipo de crueldade. Afirma que tais atos se caracterizam por excluir da vítima a capacidade de reagir; a vítima é atingida de maneira objetiva e subjetiva, momento em que perde seus mecanismos de defesa. E apequena sua autoestima.
As atitudes de Guilherme Kilter assemelham-se muito mais às de um membro das gangues juvenis, que praticam atos infracionais e os ostentam nas redes digitais como símbolo de virilidade, pertencimento e admiração por organizações criminosas. Atrelar tais imagens e discursos aos poderes de estado, além de uma atitude extremista e antidemocrática, encoraja a discriminação social, o racismo e a xenofobia. Nada acrescenta ao bem público, apenas chama para si a condição de agressor, não como um vício, mas como virtude. Isso não é uma ideologia de direita, a qual carrega consigo a defesa do livre mercado e da propriedade privada sem nunca ter atacado o convívio pacífico entre os diferentes. Tampouco exercício do voto religioso, que tradicionalmente recomenda que se observem determinados valores morais para o exercício da política. Trata-se bem mais do culto à personalidade autoritária, a incentivar a obediência cega e acrítica perante líderes fortes, que punem severamente aqueles que tentam desafiar a sua presença. Segundo o Jornal Plural, ele destinou, por meio da lei Orçamentária R$270 mil reais a entidades comandadas pela Primeira Igreja Batista, cujo presidente é Michel Piragine, primo de Kilter, a quem o vereador concedeu o título de cidadão honorário de Curitiba. É também proprietário de uma editora que publica livros religiosos.
Este parece ser seu capital político para disputar uma vaga na câmara federal, mas é a linguagem sensacionalista e detratora quem responde pelo seu marketing pessoal.