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Podcast: O terceiro cavalo

Escrito por Rogerio Galindo
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Há um poema italiano que à certa altura diz assim: “três anos vive um arbusto, três arbustos vive um cachorro, três cachorros um cavalo, três cavalos um homem. E feliz de quem enterra os dois primeiros.”

Penso, pesaroso, nas pessoas que nem chegaram a sonhar uma vida de adultos; e nos que, adultos, não conseguiram fazer planos de maturidade, seja por doença, seja por maldade. O mundo é mesmo cheio de histórias interrompidas. Caixões brancos ou de madeira clara, pais chorando uma morte nunca planejada; adultos com vergonha e inveja por estarem de pé, vertendo lágrimas pelos que se foram antes de sequer deixarem marcas pelo caminho. Equilibrar-se sobre o terceiro cavalo não é para amadores.

Depois que passamos do segundo cavalo, sabemos  que cada ano é um desafio sem lógica. O terceiro cavalo tem saúde instável e desejos raros. É incrível o quanto desperdiçamos a história dos dois primeiros: excessos e faltas, intensidade e um tanto de cabeçadas; corridas ensandecidas e morosidade excruciantes. E quando, apesar disso tudo, alcançamos essa terceira chance, perguntamo-nos onde estávamos que não planejamos como viver a vida desse  cavalo depois dos cavalos que largamos indolentemente pela estrada. Há tanta estupidez prazerosa na juventude e há tanto arrependimento inútil na maturidade!

E então – como se fosse óbvio – cavalo a cavalo, acreditamos tornamo-nos sábios. Agora – dizemos serenos –  serão só trotes regulares, alfafa  orgânica e terrenos planos. Como se nossa moderação fosse de fato sapiência, quando – admitamos –  é angustia e medo de jogar fora o tempo que antes era moeda podre.

E ainda chamamos esse comportamento de “experiência” e então cobramos a atenção dos potrinhos inquietos.

Ah, convenhamos, admitamos:  é só inveja!  É só saudade! Pelo contrário, deveríamos dizer aos jovens: “corram”, “desembestem”, “não se contenham”, haverá tempo para a moderação. E moderação é a consciência de que esse tempo que resta é ouro e por isso tememos até mesmo respirar mais forte. Mas não dizemos nada disso a eles. Ao contrário, tornamo-nos inconvenientes, conservadores. Somos sérios de arrependimento dos dias que desperdiçamos nossa alegria.

Nos meus muitos anos como professor, muitas vezes meus jovens alunos me disseram que pretendiam fazer algo  de seus futuros porque esse era o sonho de seus pais. Tremo. Conheço bem essa história.

Não quero nunca ser um elemento de inquietação familiar , mas quando ouço isso tento, perpendicularmente, intervir: “mas esse sonho não era deles?” E não era um sonho de um tempo da juventude que eles viveram e deixaram virar nada? “Por que agora querem respirar o ar que vocês respiram?” “Por que agora querem que vocês abandonem os prados verdes  por árvores que quase já não dão  frutos?”

Que papel feio esse de ser uma sombra longa na estrada poeirenta , tentando laçar as jovens almas alvoroçadas. Não há sonhos certos. Não se pode viver feliz por encomenda.

O terceiro cavalo, olhando triste para os jovens potros, pensa sempre que deve lhes dizer algo. Mas para quê? Para alerta-los de que a fome de ter sempre fome é efêmera? Para lembra-los de que tudo esmaece ? E dizer isso com que propósito? O terceiro cavalo, eu sei porque nele cavalgo, precisa é ter a tranquilidade de caminhar largo e compassado e sorrir seus dentes amarelos para os apressados cavalos de primeira viagem, abrindo-lhes espaço e desejando-lhe uma viagem grata, sem julgar ou desdenhar, mas, quando muito, apontando uma vereda ou uma colina de sombra ou um vale de água fresca. Isso é educar.

A educação não é um progresso, mas uma herança. Não é um lugar aonde chegar , um objetivo que está no futuro, mas um sentido que pode ser partilhado, que transcende tempos e espaços: o de dividir sorrisos e afetos, novos e veteranos, chegados e partintes. Um cavalo velho não tem lições para ensinar. Apenas histórias para compartir. E o mais importante: quando chegamos ao terceiro ciclo de nossa vida tão pequena nesse tempo que é o do mundo, não ficamos para trás dos que chegam agora. Somos contemporâneos de jornada. Eles com fogo nos olhos, nós com névoa; eles com vigor, nós com ritmo; eles com pressa e nós sem hora; eles com esperança e nós com notícias; eles com fome e nós com um xerez. Se der sorte, há sempre a chance de um encontro no qual todos saiam felizes, encantados com a proeza da vida, que não espera mas não separa e sempre aposta no momento, a única unidade de tempo que existe. O resultado serão, sempre, memórias doces. Doces memórias.

Sobre o autor

Rogerio Galindo

Rogerio W. Galindo é jornalista e tradutor. Responsável pelo blog Caixa Zero, é um dos profissionais que criaram o Plural.jor.br

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