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Podcast: O terceiro cavalo

No novo episódio de Sine Ira et Studio, Daniel Medeiros fala sobre a velhice

Por Admin
Podcast: O  terceiro cavalo
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Há um poema italiano que à certa altura diz assim: “três anos vive um arbusto, três arbustos vive um cachorro, três cachorros um cavalo, três cavalos um homem. E feliz de quem enterra os dois primeiros.”

Penso, pesaroso, naspessoas que nem chegaram a sonhar uma vida de adultos; e nos que, adultos, nãoconseguiram fazer planos de maturidade, seja por doença, seja por maldade. Omundo é mesmo cheio de histórias interrompidas. Caixões brancos ou de madeiraclara, pais chorando uma morte nunca planejada; adultos com vergonha e invejapor estarem de pé, vertendo lágrimas pelos que se foram antes de sequerdeixarem marcas pelo caminho. Equilibrar-se sobre o terceiro cavalo não é paraamadores.

Depois que passamos dosegundo cavalo, sabemos  que cada ano éum desafio sem lógica. O terceiro cavalo tem saúde instável e desejos raros. Éincrível o quanto desperdiçamos a história dos dois primeiros: excessos efaltas, intensidade e um tanto de cabeçadas; corridas ensandecidas e morosidadeexcruciantes. E quando, apesar disso tudo, alcançamos essa terceira chance,perguntamo-nos onde estávamos que não planejamos como viver a vida desse  cavalo depois dos cavalos que largamosindolentemente pela estrada. Há tanta estupidez prazerosa na juventude e hátanto arrependimento inútil na maturidade!

E então - como se fosseóbvio - cavalo a cavalo, acreditamos tornamo-nos sábios. Agora - dizemosserenos -  serão só trotes regulares,alfafa  orgânica e terrenos planos. Comose nossa moderação fosse de fato sapiência, quando - admitamos -  é angustia e medo de jogar fora o tempo queantes era moeda podre.

E ainda chamamos essecomportamento de "experiência" e então cobramos a atenção dospotrinhos inquietos.

Ah, convenhamos,admitamos:  é só inveja!  É só saudade! Pelo contrário, deveríamosdizer aos jovens: “corram”, “desembestem”, “não se contenham”, haverá tempopara a moderação. E moderação é a consciência de que esse tempo que resta éouro e por isso tememos até mesmo respirar mais forte. Mas não dizemos nadadisso a eles. Ao contrário, tornamo-nos inconvenientes, conservadores. Somossérios de arrependimento dos dias que desperdiçamos nossa alegria.

Nos meus muitos anos comoprofessor, muitas vezes meus jovens alunos me disseram que pretendiam fazeralgo  de seus futuros porque esse era osonho de seus pais. Tremo. Conheço bem essa história.

Não quero nunca ser umelemento de inquietação familiar , mas quando ouço isso tento,perpendicularmente, intervir: “mas esse sonho não era deles?” E não era umsonho de um tempo da juventude que eles viveram e deixaram virar nada?"Por que agora querem respirar o ar que vocês respiram?” “Por que agoraquerem que vocês abandonem os prados verdes por árvores que quase já não dão frutos?”

Que papel feio esse deser uma sombra longa na estrada poeirenta , tentando laçar as jovens almasalvoroçadas. Não há sonhos certos. Não se pode viver feliz por encomenda.

O terceiro cavalo,olhando triste para os jovens potros, pensa sempre que deve lhes dizer algo.Mas para quê? Para alerta-los de que a fome de ter sempre fome é efêmera? Paralembra-los de que tudo esmaece ? E dizer isso com que propósito? O terceirocavalo, eu sei porque nele cavalgo, precisa é ter a tranquilidade de caminharlargo e compassado e sorrir seus dentes amarelos para os apressados cavalos deprimeira viagem, abrindo-lhes espaço e desejando-lhe uma viagem grata, semjulgar ou desdenhar, mas, quando muito, apontando uma vereda ou uma colina desombra ou um vale de água fresca. Isso é educar.

A educação não é umprogresso, mas uma herança. Não é um lugar aonde chegar , um objetivo que estáno futuro, mas um sentido que pode ser partilhado, que transcende tempos eespaços: o de dividir sorrisos e afetos, novos e veteranos, chegados epartintes. Um cavalo velho não tem lições para ensinar. Apenas histórias paracompartir. E o mais importante: quando chegamos ao terceiro ciclo de nossa vidatão pequena nesse tempo que é o do mundo, não ficamos para trás dos que chegamagora. Somos contemporâneos de jornada. Eles com fogo nos olhos, nós com névoa;eles com vigor, nós com ritmo; eles com pressa e nós sem hora; eles comesperança e nós com notícias; eles com fome e nós com um xerez. Se der sorte,há sempre a chance de um encontro no qual todos saiam felizes, encantados com aproeza da vida, que não espera mas não separa e sempre aposta no momento, aúnica unidade de tempo que existe. O resultado serão, sempre, memórias doces.Doces memórias.

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Tags: Paraná

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