Há muitos anos trabalho com história e com jovens. Nesse tempo todo, a ideia de contar sobre o passado conheceu várias versões, indo do relatar os fatos tais quais se encontram nos documentos até interpretar os documentos para enxergar neles a história não contada por aqueles que foram silenciados. E, entre uma e outra versão, outras variações sobre o mesmo tema criaram uma espécie de catálogo de cores que vão do fosco ao brilhante, do herbal ao cítrico, do pastel ao intenso.
Enquanto isso, as crianças e os jovens buscam saber, quando eventualmente buscam saber, apenas o que aconteceu. A pergunta deles é sempre breve e clara: o que aconteceu? E nessa hora eu digo para eles: veja bem, antes de contar o que aconteceu é preciso compreender o contexto no qual os fatos se desenrolaram, o clima político e econômico da época, a ideologia dominante, o tratamento que a imprensa dava aos termos que usaremos na nossa narrativa… e as crianças e os jovens escutam tudo aquilo, e depois anotam e depois estudam para a prova.
A minha impressão, porém, é que na busca por ensinar o que aconteceu quando tudo o que eles esperam é saber o que aconteceu, alguma coisa muito importante se perde.
Tive um amigo cujo pai morreu durante a ditadura militar. Ele era menino e só bem mais tarde entendeu o que havia se passado. Uma kombi com explosivos se chocou com a porta de um quartel e o pai dele foi uma vítima acidental do atentado. Seu nome nem mesmo apareceu nas estatísticas, porque morreu apenas quatro meses depois do episódio, ficando todo esse tempo agonizando em um hospital público que primeiro cortou sua perna, depois não conseguiu controlar a infecção, a gangrena e, bom, meu amigo levou tempo para entender que o pai dele foi vítima da ação de pessoas que queriam - na versão deles - um país melhor para pessoas como o pai do meu amigo.
Uma vez tentei descobrir - para depois contarpara meus alunos - o que ele pensava sobre o período, como ele avaliava asações dos que lutaram contra o governo autoritário, o que ele achou do desfechode todo o processo de abertura e de volta para a democracia. A resposta delefoi breve e clara: a ignorância e os hospitais continuam matando gente que nãodevia morrer naquela hora. Nunca mais voltei a abordar o assunto com ele. Soube, anos depois, que esse meu amigo fora preso envolvido com receptação de cargaroubada.
Contar histórias é um desafio e tanto. Se vocêenche de detalhes importantes para a compreensão adequada do que aconteceu,depois de alguns minutos ninguém consegue mais prestar atenção. Se você entãobusca prender a atenção com uma performance rápida e intensa, todo mundo achainteressante mas ninguém compreende direito o que aconteceu. Um meio termoresulta em um meio termo entre desinteresse e desinformação. O professor deHistória é como o pai que lê fábulas para o filho dormir: se ele dormir, vocêacha fez o que era certo. Mas se ele dormir, nunca ouve a história completa.
Hoje, a moda perversa dos que ganharam o podercomo prêmio por não sermos capazes de contar histórias com mais raízes , édestratar os professores. Fake news, dizem, a boca cheia de satisfação por usaruma expressão estrangeira como se fosse uma gíria de infância. Vamos mudar tudoisso aí, como se houvesse um lado certo sendo esquecido ou negligenciado.Jardineiros com vício de poda, esquecem que da árvore o essencial não é a parteque dá sombra, mas a que negocia o sal da terra.
Mal sabem esses agressores que da angústia dadúvida sobre o que fazer e sobre o que contar já estamos fartos. E agora todaessa acusação de que agimos errado! Quemdera que fosse algo que fizéssemos com tanta clareza e simplicidade. Fazererrado! Há muita ciência e sabedoria para fazer algo com limites tão claros eprecisos. E contar Histórias carece dessa precisão. Não é preciso o ofício doprofessor de História. Vivemos errando. Ora para um lado, ora para outro, que équando descobrimos que lados não são dois, mas muitos, e em cada canto há umasereia com a cauda escondendo a rocha. Ora, as crianças e os jovens não queremque ninguém acerte. Querem apenas que alguém aponte. Estar perdido é não terideia de que quem ensina também carrega no que diz a dúvida sobre o que houve.Quem conta não é nunca dono doconhecimento. Tem porém a intenção deque sua história contada não ajude ofuturo a ser mais triste.
Quando alguém escolhe o que contar, como quemrega a planta, deve saber que frutos quer colher. O passado é uma ave quecanta. Quem ouve agouros quer matar a ave e esquecer o canto. Quem ouve (não ocanto), mas o voo do pássaro, admira e protege. As crianças e os jovens, quandoeventualmente querem saber o que aconteceu, guardam nas suas perguntas o desejode uma história que as façam sorrir e desejar. O passado como pássaro.
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