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Minha criação foi toda marcada pelo ódio ao nazismo. Desde os testemunhos, passando pelas histórias dos livros, das palestras, dos filmes e então de novo, filmes, palestras, livros, misturando tudo, em uma purgação sem fim. O nazismo sintetizou, para a criança que eu fui, todos os males do mundo e por meio dele é que devíamos aprender como evitar os males, como identificá-los, como enfrentá-los, etc. Porque, desta vez, os nazistas não teriam vez.
Meus amigos simulavam, nas nossasbrincadeiras de mocinho e bandido, cenas horripilantes de tortura e violênciasanta contra os coitadinhos que resolviam fazer de conta que eram soldados daSS. E voltávamos rindo, juntos, lembrando das facadas e pauladas que daríamosse tudo aquilo acontecesse de novo, de verdade.
Também cresci em um país que era umaditadura e, nesse tempo todo li e vi violência contra muitas pessoas, umabrutalidade que deixava meus sentidos enevoados. Depois que meu país voltou aser uma democracia, acreditei que os bandidos seriam presos e julgados e quetudo aquilo seria o fim de uma época. Um fim de filme sem continuação. O fim deum clássico triste como Casablanca. Nada de Casablanca, parte dois.
Agora devo fazer uma revelação: nuncagostei das brincadeiras de matar nazistas. Meus pais achavam que eu era muitofraquinho, meio efeminado, como era comum dizer na época, e se preocupavamcomigo, achando que eu deveria ser como meus colegas. "Como assim, nãoquerer matar nazistas?" Demorei a compreender meu incômodo e nem seirealmente quando isso se deu com clareza. Mas o fato é que meus sentidos seembotam com qualquer tipo de violência, apenas isso. No fundo, sem que eujamais tivesse revelado aos meus amigos, sempre pensei que deveria existir umaforma melhor de enfrentar os nazistas. Sei o que eles me diriam: "Aconteceque os maus não pensam assim, e vão fazer de você picadinho." Eu, meiofraquinho, molenga, certamente os meussentidos iam virar geleia.
Cresci em um país que virou umademocracia e enredou-se em terríveis transações. No fundo da caixa de Pandora,a esperança que é o outro nome da vontade egoísta de satisfazer desejos,despertou muitas vontades com nomes inquietantes: “limpar”,"varrer”, “novotempo”. As ruas se encheram de intensas intenções e, como o meu país era umademocracia fraquinha, molenga, era possível até mesmo querer rodar uma continuaçãodaquele filme triste.
Eu continuo não gostando da ideia dematar nazistas, de atirar em Hitler, como na comédia que achei completamentesem graça dos bastardos inglórios. Para os meus sentidos, a violência, toda aviolência, se parece. Por isso penso que deve haver alguma outra forma. Meu ódio,estimulado por adultos e amigos, nunca teve nenhuma utilidade prática para mim.Pensar sobre ele, assumir meu assombro e minha inquietude, estas foram ascoisas que me fizeram começar a me sentir adulto. E agora é a hora de assumir:eu nunca quis matar Hitler. Sempre quis vê-lo julgado e condenado. Como todosque, como ele, usam o ódio como palanque, transformam os desejos mesquinhos daspessoas egoístas em promessas e se regozijam com a discórdia e com a violência.
Eu nunca quis matar Hitler. Mas seique gente como ele é o que faz com que muita gente deseje matar. Por isso pensoneles como uma doença que contamina e vai tornando todo mundo assim, cheio domesmo ódio que eles disseminam. E penso que por eu já ter visto e lido tantasformas de violência, fiquei meio vacinado disso tudo. Desculpem todos os queespumam sua raiva santa. Para enfrentar nazistas e não acabar parecido comeles, tem de ser de outro jeito..