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Há certo tempo, li um depoimento, creio que daMaria Rita Khel, psicanalista de mão cheia, sobre um episódio que ocorreudurante as eleições de 1989. Ela, petista engajada, voltava para casa dotrabalho e, em meio a uma chuva torrencial, fura o pneu de seu carro, em plenamarginal Tietê. Ela encosta o carro como pode, liga o pisca alerta e vaibatendo o desespero sobre o que fazer até que vê um vulto se aproximar no meiodo vendaval. Maria abre o vidro e então identifica um senhor com uma barba grisalhaempapada pela chuva, os óculos embaçados, que lhe diz: "a senhora quer queeu ajude a trocar o pneu?" Aturdida, ela só balança a cabeça. O homemdesaparece de seu campo de visão e logo volta com os apetrechos necessáriospara a tarefa ingrata debaixo do temporal.
Pouco tempo depois, pneu trocado, o coitadoenlameado da cabeça aos pés, diz apenas: “tá pronto” e sai correndo em direçãoao seu carro, sem nem dar tempo de Maria agradecer-lhe, perguntar seu nome oumesmo oferecer-lhe algo pelo favor incrível. Ao acompanha-lo com o olhar,observa o adesivo pregado no vidro do carro do homem: “Paulo Maluf parapresidente”.
Recentemente, em meio a uma enchente, um semteto usou um caixote, humor e habilidade para permitir que uma senhoraatravessasse a rua sem se molhar. O vídeo viralizou nas redes sociais e o quechamou a atenção é que a senhorinha, após pisar a calçada do outro lado da rua,sequer esboçou uma agradecimento ao senhor que pareceu também não ter seimportado.
Gostamos muito dos gestos simples, como o olá,o adeus, o "parabéns" ou o “meus sentimentos". Quando morrealguém marcante, aguardamos as condolências oficiais. Quando alguém recebe umprêmio importante e não há um reconhecimento oficial, fica uma certa lacunaesquisita que chamamos de “grosseria". Gestos. Como o de ligar pra casaquando se viaja pra dizer que chegou bem. Ou perguntar ao amigo que se separouse ele quer conversar; ou como ensina o ditado popular, nunca falar de corda em casa de enforcado.
São tantos os gestos possíveis para tornar a vida menos cruel e sufocante. Um dos que mais me emocionam é o carro que para na faixa. Eu sempre cumprimento. Ou o jovem que se levanta para a senhora no ônibus. Ou a senhora que aplica injeções para a minha artrite todas as semanas e sempre avisa: “agora uma picadinha”. Renova minha esperança no mundo. Ou quando alguém corre atrás de mim na saída do restaurante pra devolver o casaco, celular, carteira, cabeça que esqueci. Ou quando me avisam do troco que dei a mais. Ou quando informam que o prato que pedi é grande e que pode ser dividido, sem precisar pedir dois. Ou quando escrevem pra dizer que gostaram de algo que fiz ou disse; ou quando me abraçam, porque sabem que adoro ser abraçado. Ou quando limpam os pés antes de entrar em um lugar qualquer. Ou quando avisam que tenho uma sujeira nos dentes. Ou quando esperam com a porta do elevador aberto para que eu possa compartilhá-lo.
Existem mesmo essas pessoas cujos gestos são marcantes. Pessoasenternecedoras. Mesmo que os gestos esgotem-se em si mesmo, incapazes deconscientizar o mundo ou desfazer a névoa de ideologia alienante ou o modo deprodução opressor. Gestos de mão, como um tchau ou de olhar, como uma piscada,ou de lábios, como um beijo lançado ao vento.
Ou palavras. Gestos na forma de palavras: deconsolo, de promessa, de incentivo.
Ou ações. O braço estendido, a vaquinha, otempo cedido, a presença na busca, a companhia no desconsolo.
Há tantos brutos que querem salvar o país sem serem capazes de uma gentileza no seu dia a dia; há tantas pessoas delicadas que apoiam canalhas oficiais. Se uma escolha é necessária, prefiro sempre os gentis. Minha esperança é que é mais fácil uma pessoa doce enxergar o mal dos outros do que uma pessoa acre entender que não se muda o país sem antes ter coragem de mudar um pneu de um estranho durante a tempestade.