Quando houve as Guerras Mundiais, aquele pinheiro estava lá. Quando ainda havia escravidão no Brasil, aquele pinheiro já estava lá. Antes mesmo de haver Brasil, quando aquele era um território ainda nem descoberto pelos europeus, o pinheiro já estava lá. E embora não seja possível ter certeza absoluta, o mais provável é que aquele pinheiro tenha nascido gerações antes de Pedro Cabral vir a existir, quando ainda se vivia na Europa aquilo a que hoje damos o nome de Idade Média.
Por isso, quando o pinheiro caiu em 2023, nos campos de Cruz Machado, no interior do Paraná, depois de prováveis 700 anos em pé, os pesquisadores correram para ver o que podia ser feito - salvar a árvore era impossível, mas o importante agora era salvar as suas células. Ali dentro, estavam genes claramente responsáveis por criar um ser extraordinariamente resistente.

“É absolutamente incomum uma araucária chegar a 700 anos”, afirma Ivar Endling, engenheiro da Embrapa Florestas. “Não chegamos a ver a árvore de pé, mas ela tinha 42 metros de altura, o que também não é comum.” Diante daquele gigante, a ideia de preservar os genes parecia uma obrigação para o engenheiro florestal.
Nesta semana, dois anos depois dos ventos terem derrubado a araucária, os pesquisadores anunciaram que o plano de clonagem da árvore funcionou. Por meio da enxertia, uma técnica que reproduz cem por cento da genética de um único indivíduo, foram criadas quatro novas araucárias que estão sendo plantadas em Cruz Machado, no Centro-Sul do Paraná.
Conquista científica
“Foi uma grande conquista científica”, diz Ivar, que comandou o trabalho. A enxertia não é uma técnica incomum. Usa-se, por exemplo, na produção de laranjas. Uma árvore de limão pode ser usada como base para que se enxerte um broto de laranjeira. A partir daí, o limoeiro serve como suporte, dando as raízes e a base para o crescimento das laranjas.
No entanto, no caso da araucária a dificuldade era maior. “Pense numa criança e numa pessoa bem mais velha. Se os dois sofrem um pequeno corte no dedo, quem cicatriza mais rápido?”, diz Ivar. Para as plantas, vale a mesma coisa: com a idade, o poder de multiplicação das células, de renovação dos tecidos vai ficando mais lento. Portanto, clonar um indivíduo multicentenário é muito mais complicado do que clonar uma árvore jovem.
Para surpresa dos pesquisadores, porém, os enxertos funcionaram bem e as mudas de pinheiro começaram a se desenvolver. Com as mudas plantadas, agora será preciso cuidar para que sobrevivam aos anos mais difíceis, quando ainda são pequenas e podem ser derrubadas facilmente por animais, por exemplo. Depois disso, o crescimento poderá indicar fatores importantes sobre a genética da árvore-mãe.
Gigante
Uma das dúvidas sobre a araucária que caiu em 2023 era seu tamanho. Segundo Ivar Wendling, quando uma árvore chega a ter 42 metros de altura, como aconteceu nesse caso, é de se imaginar que algum fator ambiental tenha forçado a planta a ir tão longe. “Uma hipótese é que ali na região, séculos atrás, houvesse uma floresta com copas altas e que ela precisou ir até essa altura para poder receber a luz necessária”, diz ele.
Ou seja: além de ajudar a entender como uma maior longevidade é possível para plantas de sua espécie, o pinheiro de Cruz Machado pode ajudar a entender a própria história do ambiente em que cresceu, possibilitando compreender que tipo de vegetação, solo e clima havia na região no século 14, uma época, em que, como lembra rindo Ivar Wendling, ainda não havia Google Earth para observarmos o terreno.
“Existe uma área da Engenharia Florestal chamada Dendrocronologia, que serve para estabelecer a idade da árvore”, diz o pesquisador. A técnica mais fácil e conhecida é fazer um corte na base do tronco para ver os anéis de crescimento (um por ano). No caso do pinheiro de Cruz Machado, porém, isso não vai ser possível.
Por algum motivo, nos últimos anos de vida, a árvore passou a ser tomada pela umidade, que apodreceu a madeira interna dos 12 primeiros metros a partir do solo. Quando caiu, a árvore estava oca. “Esses 12 metros representam os primeiros anos de crescimento da ;arvore, as primeiras décadas. Mas temos o material da parte alta para analisar, e isso pode trazer muitas informações”.
História
Em tese, a análise dos anéis e de outros elementos da árvore pode inclusive contar para os pesquisadores em quais períodos fez mais frio ou mais calor e a velocidade das mudanças climáticas.
Mas o mais importante é mesmo preservar o material genético do pinheiro. E graças à conquista científica da Embrapa Florestas, diz Ivar, as células não estarão preservadas numa geladeira. “Esses genes vão estar em células vivas de plantas em desenvolvimento”, afirma.
Essas árvores, pelo tipo de clonagem, provavelmente serão menos altas do que a original. Como o material para enxerto foi tirado do tronco, poderão mesmo assim chegar a dezenas de metros (enxertos feitos a partir de galhos criam pequenas araucárias de cinco metros de altura, à vezes).
E, se tiverem a resistência do pinheiro original, essas novas mudas poderão sobreviver a séculos e se reproduzirem na região por muito e muito tempo.