"Através da fotografia, ecoamos saberes ancestrais e revelamos a potência viva dos quilombos." É com essa premissa que a fotojornalista Fernanda Castro conduz o projeto "Passarelas da Memória", um acervo visual que documenta gerações da comunidade quilombola Serra do Apon, localizada a 55 quilômetros de Castro, nos Campos Gerais do Paraná.
A relação entre a jornalista e os espaços quilombolas do Paraná começou em 1978, quando, recém-formada pela UFPR, visitou o Apon pela primeira vez. Nestes primeiros contatos, Fernanda fez imersões antropológicas e captou o cotidiano de quilombos e seus familiares em preto e branco; imagens que permaneceram inéditas por décadas. Apesar do arquivamento involuntário das fotografias, o desejo de compartilhar os registros com os integrantes do quilombo seguiu intacto por anos a fio.
Esse povo, segundo a história tradicional, tem suas origens nos ancestrais escravizados da fazenda Capão Alto, também localizada em Castro. Com o abandono das terras pelos colonos, os afro descendentes permaneceram no local e conquistaram a liberdade. Organizados de forma autônoma, passaram a viver da agricultura e da criação de gado, garantindo o próprio sustento.
Os dados do Censo 2022 revelaram que o Paraná é o segundo estado da região Sul com a maior população quilombola - atrás apenas de Santa Catarina. Dentro do mapa de Castro, onde fica a Serra do Apon, vivem 533 quilombolas autodeclarados, o que coloca a cidade como a quarta em concentração dessa população no estado.
Foi apenas em meados de 2005 que Fernanda teve a oportunidade de retomar esse elo, ao integrar um grupo de trabalho voltado ao mapeamento das terras e populações quilombolas do Paraná e à implementação de políticas públicas. A iniciativa lhe deu a oportunidade de revisitar a Serra do Apon com a câmera analógica em mãos e registrar novas imagens, nos mesmos moldes da primeira experiência. As visitas frequentes estreitaram os laços, a ponto de cultivar amizades. "Eu chego lá e eles me reconhecem: 'Ah, você esteve aqui naquela época, né?'", conta.
Essa proximidade, construída a partir da confiança, foi essencial para os trabalhos de campo. De um lado, os moradores sabiam que a fotógrafa os retrataria sem estigmas; de outro, Fernanda pôde enquadrar, focar e registrar as vidas que aconteciam na região em diferentes épocas.
Vinte anos se passaram e, em 2025, a fotojornalista e sua pequena equipe propuseram um objetivo simples e, ao mesmo tempo, ambicioso: retornar à Serra do Apon para mostrar as fotografias aos próprios retratados e a seus descendentes. "Havia pessoas que nunca tinham visto uma fotografia da mãe, já falecida. Ao se depararem com a imagem, puderam se reconhecer e se identificar", relata Fernanda.
A partir do contato direto com os moradores, cada integrante da comunidade teve um papel fundamental no reconhecimento dos personagens registrados nas fotografias antigas. Foram eles próprios que apontaram para as imagens e identificaram nomes que antes permaneciam desconhecidos pela jornalista.
Além dessa dinâmica, o projeto inaugura, no dia 6 de setembro, uma exposição no Museu Casa da Praça, no centro do município, acompanhada por um catálogo da curadoria. A iniciativa busca dar visibilidade à cultura e à história da população quilombola da Serra do Apon, frequentemente silenciadas na narrativa histórica tradicional do Paraná, marcada pela predominância da presença europeia.
Um exemplo concreto desse apagamento foi vivido pela própria equipe. Luana Victória, assistente do Passarelas, relata: "em Castro, fomos até a Secretaria da Cultura e perguntamos sobre imagens das comunidades nos museus. Eles não souberam responder. Visitamos dois museus e não havia nada. Uma das poucas imagens que vimos era de uma esposa de comandante, mostrando apenas o cotidiano da elite. Por isso comentamos que o trabalho também serviria para, mais adiante, entregar materiais que pudessem compor um futuro acervo".
Em contraposição a este constante apagamento, Fernanda destaca a importância de mostrar a resistência e a beleza dessa cultura, que permanece viva e forte apesar das dificuldades. Assim, explorar o olhar da história dos quilombolas como uma história pessoal e de tantos outros negros e negras que vivem no Paraná.
"Eu era a única pessoa negra na universidade. Quando comecei a me questionar sobre a ausência de negros na graduação, também iniciei meu trabalho com a fotografia das comunidades quilombolas. Fui aproximando o jornalismo da antropologia e, aos poucos, me inteirando das histórias do Apon, sempre buscando trazer uma perspectiva mais positiva" disse a fotojornalista.
Nascida em Arapongas (PR), Fernanda Castro é pioneira da fotografia no Paraná e é referência no jornalismo feito por mulheres e pessoas negras. Foi a primeira mulher fotojornalista com carteira assinada em Curitiba, abrindo caminho para outras profissionais. Formada em Jornalismo pela UFPR, com pós-graduação em Artes Plásticas e especialização em Fotografia como Pesquisa, trabalhou em veículos como O Estado do Paraná, Correio de Notícias e Gazeta Mercantil, além de lecionar fotojornalismo na PUCPR e na UEPG.
Seu trabalho valoriza as histórias quilombolas, indígenas, negras e rurais, preservando legados, rostos e saberes. Publicou livros sobre terras quilombolas do Paraná e tem obras nos acervos do Museu Oscar Niemeyer, Museu Paranaense e Museu Afro Brasil. Em 2009, apresentou a exposição "Comunidade Negra do Sutil" em Paris.
Este texto faz parte do projeto Periferias Plurais, em que jovens de Curitiba e região são convidados a falar de suas vidas e suas comunidades. O projeto tem apoio do escritório de advocacia Gasam e da Itaipu Binacional.