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O peso e a recompensa da docência

Na linha de frente da educação, cientista social e professora narra os dilemas entre a angústia e o prazer ao lecionar

O peso e a recompensa da docência
Educadora das ciências humanas, Nicolle expressa uma experiência que atravessa a realidade da categoria. Foto: Eric Rodrigues/Plural
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Levar o pensamento de autores clássicos da Sociologia para as salas de aula da rede pública paranaense é uma missão que vai além do pedagógico para Nicolle Camillo, 30, que leciona a disciplina em duas escolas estaduais.

Há dez anos usando jaleco, Nicolle testemunha uma realidade individual que se mostra comum entre os seus pares. E nas correrias entre salas e turmas, vive a linha tênue entre os afetos cultivados com alunos e colegas e as questões de uma educação cada vez mais 'plataformizada'. 

Em um relato genuíno, a docente reflete sobre lições que só a escola é capaz de ensinar. Leia.

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Antes de ser professora, pensei em fazer Jornalismo quando estava no Ensino Médio. Minha motivação sempre foi o impacto nas pessoas, desenvolver o senso crítico e o olhar por cima do muro. Sempre tive essa ideia.

Acreditava que atingiria esse objetivo por meio da comunicação, mas chegou um momento em que refleti que talvez isso não fosse suficiente. Foi quando conheci a graduação em Ciências Sociais. Já era entusiasmada com a área de humanidades e acabei ingressando no curso na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Na verdade, demorei muito para perceber que me tornaria professora. Mas, a partir do momento em que pisei na sala de aula (em 2014), entendi que era aquilo que eu queria. Que, ensinando, seria uma maneira de promover o tal ‘impacto’ na vida de alguém. 

‘Transformar a partir da educação’ — sempre tive isso como propósito. Ainda acredito que a educação é o que transforma de fato. Mas o que posso dizer é que hoje sou muito diferente do que era dez anos atrás, quando comecei a dar aula. Atualmente, não tenho empolgação. Minha relação com a educação mudou bastante. Nos últimos três anos, não vejo mais isso na escola pública. Estamos soterrados em muitas questões, sobre como o modo de ensino é gerido pelo Estado. Por isso me vejo em conflito com minha profissão. Não me sinto mais realizada.

Amo ciências sociais, minha cabeça pensa como uma cientista social, não consigo olhar para nada sem essa perspectiva; mas já não amo mais ser professora. O dia a dia na sala de aula tem sido penoso e difícil. Em alguns momentos eu não quero ir trabalhar. Estou enfrentando um burnout. Sei que isso não é uma questão individual, mas coletiva na nossa categoria.

Conforme a Secretaria de Estado da Administração e da Previdência (Seap), mais de 8,8 mil professores da rede estadual paranaense foram afastados por questões de saúde mental em 2024. Foto: Eric Rodrigues/Plural

Os alunos são os que menos pesam para nós, professores. Muitas vezes, são eles que nos seguram. Mas, ao mesmo tempo, entendo que também estão saturados. A ‘plataformização’ banalizou o contato com a tecnologia e se tornou uma carga para eles. E são tantas plataformas…

Percebo que a escola não faz mais sentido para os estudantes. Eles estão lá por mera obrigação. O interesse em aprender, desenvolver conhecimento e buscar algo se foi. Quanto aos alunos mais jovens, noto que estão muito perdidos, não somente em relação à profissão e aos estudos, mas também há carências afetivas, psicológicas e familiares. 

O mundo está muito disponível para eles. Há muitas possibilidades, mas, ainda assim, não conseguem se concentrar em uma coisa. Por mais que não queiramos, essa geração mais recente sofrerá mais nesse aspecto.

Algum tempo atrás, uma professora faleceu na escola. Quando voltei à sala de aula após o ocorrido, me sentei com os alunos e perguntei: “Gente, o que vocês acham? O que está acontecendo?” Eles entenderam que isso tem um impacto devastador em nossa saúde mental e na qualidade do nosso trabalho. Então, questionei novamente: “E vocês? Como estão?” Um aluno respondeu: “Ah, professora, sinto que parei de aprender no oitavo ano”.

A ‘plataformização’ da educação pública, implantada no estado em 2019, mudou a dinâmica do ensino. Hoje, cerca de dez plataformas digitais concentram atividades obrigatórias. Em 2021, a carga horária das disciplinas de humanidades também foi reduzida; sociologia, por exemplo, passou de duas para uma aula semanal. Foto: Eric Rodrigues/Plural

Tenho para mim que não há ex-alunos, são sempre alunos. Encontro muitos que fizeram as coisas acontecerem, principalmente os mais antigos. Eles estão na faculdade, já viajaram para o exterior ou constituíram família.

Uma aluna minha fez comunicação na PUCPR e hoje trabalha para uma empresa lá na Europa, na Noruega. É uma jovem com consciência de classe. Recentemente, a encontrei, e ela me disse: “Nossa, professora! Se não fosse você, eu não sei… Estava perdida, não sabia o que queria fazer. Quando ouvi você falar sobre impactar a vida das pessoas, eu encontrei meu caminho”.

Sempre digo aos meus alunos que precisamos ter um propósito. Às vezes, me pergunto se meu trabalho vale a pena, mas, ao me deparar com situações como essa, sinto uma felicidade boa. Também tenho alunos que foram estudar ciências sociais e que dizem que foi por minha influência. Aí respondo com um “gente, pelo amor de Deus, não me coloquem essa responsabilidade. Logo vocês vão se frustrar com as ciências sociais e vão se lembrar de mim” (risos).

Dias atrás eu estava pensando sobre qual foi o último ano em que tive uma realização em sala de aula. Foi em 2022. Já faz tempo... O que foi essa realização? Ver aqueles jovens dando continuidade aos estudos, valorizando o conhecimento, com atitude do tipo ‘preciso me movimentar e ter um propósito na vida’.

Lembro com muito carinho da turma de 2022, porque era uma classe muito engajada nas aulas de sociologia, história e geografia. Engajada no sentido de ‘o mundo está acontecendo, as coisas estão rolando, e o que estamos fazendo? Vamos fazer alguma coisa’.

Hoje, as turmas detestam o modelo cívico-militar e as plataformas digitais. É muito difícil educar, no sentido de desenvolver autonomia e pensamento crítico, quando todo o sistema age na direção contrária. Um professor sozinho não consegue combater o sistema. Por mais que tentemos, fazemos parte dele.

Isso gera outros conflitos pessoais. Em casa, eu e meu marido conversamos muito sobre ter filhos e onde eles estudariam. Penso: ‘Sou professora da escola pública, tenho que defendê-la até o fim’. Mas, ao refletir, noto que não colocaria meu filho na escola pública. Não porque ache que os professores não são capacitados — muito pelo contrário.

Você sonha com seus alunos? Sim, sonho bastante. Não sei se são sonhos ou pesadelos (risos). É aquela coisa: tenho receio de ir à cozinha, pegar um copo d'água e me deparar com um aluno. Sonho que estou atrasada, que preciso aplicar uma avaliação, que chego na sala de aula e está uma bagunça. Às vezes nem sei se estou sonhando ou na escola de verdade. E você já está preparada para se despedir de seus alunos em dezembro? Não estou pronta para me despedir dos segundos anos. Vou sentir muita saudade deles.

Professora de Sociologia no Ensino Médio, Nicolle Camillo atua na rede estadual do Paraná. É graduada em Ciências Sociais pela PUCPR, com especialização em Política, Educação e Sociedade. Foto: Eric Rodrigues/Plural

Este texto faz parte do Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional.

Eric Rodrigues

Eric Rodrigues

Repórter, fotojornalista e documentarista. Mestrando em comunicação pela UFPR. Participante do 15º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Autor de "Comadre São".

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