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Estudantes negros enfrentam desafios para acessar o sonho do intercâmbio

Alunos negros contam de dificuldades para sair do país e relatam experiências transformadoras em visita à África

Estudantes negros enfrentam desafios para acessar o sonho do intercâmbio
Hiully com outros estudantes intercambistas durante uma visita do programa Caminhos Amefricanos em Cabo Verde. Foto: rquivo pessoal de Hiully
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Carla Louyse é estudante de Relações Públicas da UFPR e se prepara para iniciar o intercâmbio acadêmico em fevereiro de 2026 em Portugal, onde cursará Marketing no Instituto Politécnico de Leiria por seis meses. Segundo Carla, o processo de mobilidade é demorado e a burocracia se torna parte da rotina.

Os gastos iniciais para realizar o intercâmbio começam com passaporte, autenticação de documentos e seguro viagem. “O visto é bem caro, cerca de novecentos reais, só neste mês. Além dele, vou gastar com seguro e passagens pelo menos treze mil reais”, explica Carla. A mensalidade do curso de seis meses na universidade portuguesa será de cerca de mil euros, valor que será coberto pela UFPR. No entanto, moradia, transporte, alimentação e todas as demais despesas do cotidiano ficam sob responsabilidade do próprio estudante.

O sistema de meritocracia usado para a seleção de alunos que receberão o apoio financeiro é também um impasse, tornando o programa inacessível à maior parte dos estudantes “para os alunos que se encaixam dentro de minorias dentro da universidade é inviável, a UFPR não possui política de ação afirmativa específica para mobilidade internacional e as poucas bolsas, são destinadas aos alunos com maior rendimento acadêmico, as maiores notas”

A organização e condição financeira é um dos principais obstáculos, a estudante relata que a viagem será viabilizada com o auxílio dos pais, familiares e empréstimos bancários. Carla estima que seus gastos mensais alcancem 900 euros, mais de 5 mil reais na cotação atual, totalizando em seis meses em torno de R$ 35 mil.

Durante sua preparação, Carla conversou com diferentes estudantes que já participaram do programa e relata a dificuldade de identificação “Eu não conversei com ninguém negro ou indígena. Além de mim, só um outro aluno negro do meu setor, passou. Das pessoas que encontrei, não tinham mais estudantes negros classificados”.

Segundo o Instituto de Educação Internacional em parceria com Associação Brasileira de Educação Internacional, o Brasil apresenta baixa mobilidade acadêmica, com apenas 0,6% dos estudantes universitários estudando no exterior. Entre os que vão, a maioria está na graduação sendo 77%, indicando que o interesse por experiências internacionais começa cedo na carreira acadêmica. Do total de estudantes em mobilidade, 52% saem de universidades públicas federais, enfrentando dificuldades burocráticas e custos elevados, muitas vezes sem suporte institucional formal. 

Legenda: Aluna que não passou no processo de intercâmbio mostrando planilha com gastos que teria caso seja aprovada no processo para estudar na Europa

Burocracia

Éric Carneiro planejava realizar o intercâmbio desde o início da graduação. Ainda no primeiro período, buscava orientação com professoras e decidiu tentar uma vaga no programa. Filho de agricultores da região dos Campos Gerais do Paraná, Éric saiu da casa dos pais aos 15 anos para fazer o ensino médio e não retornou. Hoje, mora sozinho em Curitiba para concluir a graduação.

A colheita da família em dezembro representa uma possibilidade de sustento para os seis meses que passará no exterior. Os gastos com a viagem internacional não eram uma surpresa, motivo pelo qual o estudante e a família vêm se preparando financeiramente há três anos. Esse planejamento, aliado à rede de apoio, possibilitará a ida dele para Portugal no próximo ano.

Os custos com documentação não diferem dos enfrentados por Carla. Éric também destaca a preocupação com a compra antecipada de roupas adequadas para o rigoroso inverno europeu, uma despesa que quase passou despercebida.

Sem uma rede de apoio oficial da universidade, os alunos recorrem à experiência de quem já passou pelo mesmo destino para entender como preencher formulários de visto, reunir extratos bancários e enviar documentos. Por meio desses contatos, Éric recebeu dicas sobre a entrevista e os conteúdos importantes para o processo seletivo.

Relata que apesar de ser um momento empolgante na vida acadêmica, o processo de intercâmbio é cercado de dificuldades e solidão. Sem apoio formal da universidade, o estudante precisa reunir inúmeros documentos, lidar com a espera e acompanhar o andamento de vistos e passaportes praticamente sozinho “Embora seja um momento muito legal da vida, viver tudo isso é, ao mesmo tempo, muito difícil, porque são muitas etapas e é super solitário. Você precisa juntar muitos documentos e ainda lidar com a expectativa de ser aceito ou não. Talvez precisasse só de alguém dizer: ‘Vai dar tudo certo. Vem aqui, vamos conferir os papéis que você vai enviar.’ Esse acompanhamento, esse ‘tapinha nas costas’, já ajudaria muito, porque seria, de certa forma, um auxílio, um apoio que a gente não tem; ficamos meio largados”, afirma.

O estudante se acostumou desde cedo a resolver tudo por conta própria. Parte da sua rotina inclui orientar os pais à distância para assinatura de documentos, reconhecer firmas e devolver papéis — tudo isso enquanto organiza a mudança do apartamento, que será devolvido à imobiliária no fim do ano.

A despedida do lar e do estágio, embalando seus pertences para voltar temporariamente à casa dos pais após o retorno ao Brasil, é encarada com serenidade “Não é frustrante, mas é um capítulo da minha vida que realmente vai se encerrar”.

Para ele, a experiência combina desafio pessoal, enquanto lida com a alegria e a pressão de representar a universidade no exterior “Vejo isso como uma oportunidade de abrir horizontes e de me desafiar. Como vou me virar em outro lugar, interagir e conhecer novas pessoas, toda essa bagagem cultural é fundamental, assim como a profissional. Para nós, que temos essa corzinha, é sempre necessário ter um ‘algo a mais’. Me formar pela UFPR e fazer um intercâmbio vai trazer um diferencial para minha carreira. Estou ali representando a universidade e, de certa forma, preciso zelar pelo nome dela até mais do que pelo meu próprio. Preciso agir com cuidado, fazer tudo certo. Existe, sim, um peso em carregar esse nome”.

No canto inferior esquerdo, Eric aparece ainda criança, com um olhar admirado voltado para os pais, ao lado dos irmãos mais velhos. Foto: Arquivo pessoal de Éric

Lucimar Rosa Dias, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB) da Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (PROAFE) e pesquisadora do grupo ErêYá/UFPR, aponta que é responsabilidade da universidade, e o Neab pode colaborar na construção de políticas para melhorar o apoio aos estudantes. “É possível pegar o conhecimento do edital do programa Caminhos Amefricanos como aprendizado de construção com estudante. De estabelecer o diálogo junto com o aluno, de compreender qual é a cultura do país que ele vai, como são as relações sociais, promover encontro entre estudantes estrangeiros com brasileiros, levar o aluno com mais conforto para o intercâmbio e lidar também com o problema complexo do uso da meritocracia que sabemos que não é um critério justo.”

A coordenadora explica que o núcleo está elaborando um plano de enfrentamento ao racismo, que será entregue à reitoria até o final de 2026. Segundo ela, é fundamental que a internacionalização contemple os estudantes negros, garantindo acompanhamento nesse processo. “Ao pensar na política de enfrentamento ao racismo, é importante que esse assunto apareça. Se a internacionalização é relevante para a universidade, é necessário criar políticas de ações afirmativas para que estudantes negros estejam incluídos e acompanhados nesse processo.”

Ela ressalta que a internacionalização é critério de avaliação de programas acadêmicos e um diferencial importante na carreira dos alunos. “Essas experiências qualificam o currículo, e para nossos estudantes negros, muitos vindos de famílias sem experiência internacional, é essencial ter essa oportunidade. Embora existam exceções, a maioria vem de comunidades em situações de vulnerabilidade, e programas de intercâmbio podem e devem ser transformadores.”

A coordenadora também aponta que foi solicitado um levantamento do perfil de gênero e raça dos alunos que participam de intercâmbios, como base para a construção de políticas mais inclusivas e efetivas.

Ensino e empoderamento

Hiully Thainá Oliveira, de 25 anos, está no curso de Licenciatura em Letras Português e é professora de Língua Portuguesa no estado do Paraná. Ela descobriu o programa Caminhos Amefricanos por meio de postagens no Instagram do Ministério da Igualdade Racial. A estudante foi a primeira aluna da UFPR a ser selecionada para o programa, o destino foi a Universidade de Cabo Verde.

O Programa Caminhos Amefricanos é um intercâmbio sul-sul promovido pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR) e pela CAPES, destinado a estudantes e docentes negros ou quilombolas. O objetivo é promover a troca de conhecimentos e experiências para combater o racismo e fortalecer a educação das relações étnico-raciais. Com duração de cerca de 15 dias, o programa inclui seminários, visitas a escolas e museus e debates sobre a temática. Podem participar estudantes a partir do 5º semestre de licenciatura em instituições públicas e professores da educação básica.

A conquista da estudante foi divulgada no perfil oficial da UFPR, e a repercussão gerou diversos comentários, incluindo ataques preconceituosos e racistas. Hiully se viu sozinha para lidar com todos os comentários, sem apoio institucional sobre o caso, contando apenas com a defesa espontânea de amigos e desconhecidos. “O estresse com o curso preparatório para a viagem e outras preocupações não deixava tempo para debater ou buscar suporte nesse cenário terrível. Pensei em fazer boletim de ocorrência, mas achei que não daria em nada”. Hiully afirma que, apesar do incômodo, os ataques não a impediram de seguir com a viagem com leveza.

A curta duração do intercâmbio torna a participação mais acessível para estudantes que trabalham e não podem se afastar de empregos ou compromissos. “Na época, eu pagava um aluguel do valor do meu salário, dividia com outra pessoa e contava com a bolsa permanência da universidade, então era impossível fazer intercâmbio por um semestre inteiro. Também recebi uma bolsa para custear todos os gastos da viagem. Considerando que Cabo Verde tem custo de vida mais baixo que no Brasil, pude me divertir e comer muito bem com tranquilidade”, compartilha.

Segundo dados da Agência Gov, o governo federal concedeu 10 mil bolsas de estudo no exterior em 2024. também segundo a CAPES, o número de bolsistas internacionais (indo para fora do brasil) dobrou entre 2022 e 2024 

Hiully relata como a experiência no país durante o intercâmbio a impactou: “Me senti verdadeiramente gente… Lá existe um forte consumo de cultura brasileira e, ao andar pelas ruas, ouvia as músicas de quando eu era adolescente; era nostálgico, ouvir o som de quando fazia festas na garagem da minha casa. Via pela universidade, estudantes negros, a maioria mulheres, e toda a programação era conduzida por elas. Tudo estava totalmente ligado a temáticas da negritude.”

Hiully em sala de aula, apresentando Carolina Maria de Jesus para estudantes do ensino médio em uma escola de campo na região metropolitana de Curitiba. Foto: Arquivo pessoal de Hiully

Durante o intercâmbio, sentiu pela primeira vez que podia estudar temas de seu interesse e com os quais se identificava. “Era totalmente o contrário do ambiente que vivo na UFPR”, afirma. Hiully desenvolve atualmente um trabalho de pesquisa na iniciação científica, orientado pela professora doutora Gesualda dos Santos Rasia, que mapeia os autores estudados nas disciplinas obrigatórias de literatura. O levantamento aponta que dos autores de literatura analisados, 95% são brancos. Dos poucos restantes, alguns nem são reconhecidos como negros, segundo ela, por terem sido embranquecidos ou por essa informação nunca ter sido mencionada.

Um dos momentos mais marcantes para Hiully durante o intercâmbio foi ouvir a fala da professora Kátia Regis, do Ministério da Igualdade Racial, intitulada “Fomos em navio negreiro e voltamos de avião”. A estudante também foi acolhida pela população local, deu entrevista para a TV de Cabo Verde, tirou foto com o presidente e descreve como as pessoas na rua sabiam e celebravam a presença dos estudantes brasileiros no país.

A programação do intercâmbio incluía rodas de conversa, apresentações culturais, discussões sobre hip-hop, desfiles de cabelo, exibição de documentários e visitas coletivas à praia. Hiully destacou o impacto de estar em um ambiente inteiramente negro “Foi muito bonito ver todo mundo negro, junto, se divertindo, estudando, rindo. Eu me sentia radiante, brilhante… Eu não queria nem dormir, foi a melhor experiência da minha vida. Queria que todo mundo passasse por isso sem se preocupar com dinheiro”, afirma.

De volta ao trabalho como professora na região metropolitana de Curitiba, Hiully também leva a experiência para dentro da sala de aula, onde atua como professora de Língua Portuguesa. A vivência em Cabo Verde, conta ela, mudou profundamente sua percepção sobre o currículo e o papel da escola na construção da identidade dos estudantes. Nas atividades com turmas do ensino médio, passou a discutir não apenas aspectos estruturais da língua, mas também quem escreve, quem é lido e quem ocupa os espaços de produção de conhecimento

“Explico para eles como o intercâmbio afeta a forma como nós jovens negros nos vemos no mundo e levo novas referências e o que significa estar em um espaço que afirma sua existência algo que deveria ser um direito e não uma exceção”

Descreve que muitos dos seus alunos, também negros e de famílias com poucos recursos, se reconhecem nessas barreiras. Ela então, transforma sua trajetória em exemplo concreto de que outras possibilidades existem, mesmo quando parecem distantes “Eu tento mostrar que esses espaços também são nossos, além de professoras negras na universidade, não tive ninguém para me dizer isso antes de entrar na graduação, mas agora eu posso ser essa pessoa para eles”.

Este texto faz parte do Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional.

Vitória Smarci

Vitória Smarci

Estudante de Jornalismo na UFPR, fotógrafa e engajada com o jornalismo socioambiental

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