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Desafio para a saúde pública, efeitos da Covid longa podem ter afetado milhares no Paraná

Sintomas prolongados exigem atenção diferenciada e acompanhamento efetivo

Desafio para a saúde pública, efeitos da Covid longa podem ter afetado milhares no Paraná
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Poucas cenas são mais típicas dos lares portenhos que uma parrilla em plena brasa e um espaço reservado em área livre para os assados de fogo de chão do fim de semana. Era essa uma das tradições à qual o argentino Ariel Santos, 52, se mantinha mais fiel desde que deixou Buenos Aires para viver em Curitiba, há 12 anos. Mas há cerca de dois meses, a fumaça que antes se difundia como um festejo passou a representar perigo. Quinze meses depois de ser diagnosticado com Covid-19, o empresário se viu ameaçado por um cansaço fora do comum, uma falta de fôlego que só depois de uma romaria entre médicos e clínicas foi diagnosticado como consequência tardia da infecção pelo Sars-Cov-2.

“Eu beirei o perigo em silêncio, sem sintomas”, lembra Santos. Hoje, com quase 40% da capacidade pulmonar comprometida e pouco mais de dois meses depois de começar o rito de tratamentos para aliviar o peso do legado malicioso, ele sabe que uma nova rotina o espera. “Os médicos me dizem que eu nunca mais vou conseguir fazer o que fazia. Eu até vou poder fazer tudo, mas em outro ritmo. Se antes eu subia uma montanha em oito horas, hoje, talvez, leve dois dias.”

O relato de Santos não está em um terreno distante. Desde as primeiras internações provocadas pela Covid, pesquisadores ao redor do mundo começaram a olhar com cautela para a recuperação dos pacientes infectados. A fisioterapeuta e pesquisadora Cristina Baena, uma das responsáveis pelo ambulatório pós-Covid do Hospital Universitário Cajuru, de Curitiba, mantido em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), explica que a performance sistêmica da infecção no organismo, atrelada, em alguns casos, à demanda de abordagens mais agressivas, já havia despertado desde o início um olhar mais crítico dos cientistas para o possível conjunto de sequelas.  

“Já é esperada a associação do paciente internado em UTI por algum tempo, que recebeu ventilação mecânica, à definição da síndrome pós-cuidados intensivos. Não é algo novo e não foi a Covid que trouxe. Mas o que a gente está percebendo é que essa síndrome no pós-Covid provoca um comprometimento um pouco maior nos jovens, na saúde mental dos pacientes. Parece ser, até aqui, um pouco maior quando comparado a pacientes que passaram tempo internado por outras causas”, afirma a especialista.

Em outubro do ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) deu à chamada “Covid longa” status de doença emergente, um meio encontrado para facilitar o tratamento de pessoas que sofrem com os sintomas. Embora ainda não exista clareza entre os profissionais sobre a condição e sobre os diagnósticos – milhares de pesquisas continuam em desenvolvimento –, há uma prevalência de indícios como fadiga, falta de ar e disfunção cognitiva e de efeitos de longo prazo em várias funções do organismo, incluindo os sistemas pulmonar, cardiovascular e neuropsicológico, diz a entidade.

No início de maio, resultado de um estudo conduzido pela Fiocruz Minas apontou que 50,2% dos 646 infectados acompanhados pelos pesquisadores, por um período de 14 meses, desenvolveram sintomas pós-infecção. Foram 23 sintomas constatados. Fadiga – estado de cansaço extremo e dificuldade em realizar atividades rotineiras – foi a principal queixa entre os pacientes, alertada por 35,6% deles, seguido de tosse persistente (34%), dificuldade para respirar (26,5%), perda do olfato ou paladar (20,1%) e dores de cabeça frequentes (17,3%). Os sintomas se manifestaram tanto após a forma grave e moderada como também a leve da doença - a manifestada em Santos.

O empresário argentino teve sintomas clássicos como dor de cabeça e perda de olfato. Ficou sem sentir cheiro por três meses. Os distúrbios de concentração também incomodaram, mas achou que havia parado por aí.

Mas agora, enquanto acrescenta na agenda compromissos médicos de reabilitação - Santos tem acesso ao serviço privado, continua a buscar uma explicação para o quadro de comprometimento descoberto depois de muito tempo.

Entre o fim do período de infecção ativa pelo Sars-Cov-2 e o diagnóstico de lesão no pulmão recebido em março, ele viajou de carro por 18 estados brasileiros – até chegar ao Pará –, passou horas em um avião até à charmosa Nápoles, no sul da Itália, e começou 2022 com um roteiro do Ushuaia, no seu país natal, à Bolívia. No percurso, enfrentou climas diferentes e chegou a andar 22 quilômetros em montanha de alta altitude. Foram cinco exames do tipo PCRs durante a viagem, todos sem mostrar alteração.

O histórico levou o primeiro médico a determinar um caso de trombose pulmonar. No exame, constatou-se outro dano ao pulmão, e a afirmação que, pelo estrago, havia infecção ativa por Covid. Os diferentes testes, no entanto, contrariaram a hipótese. Ainda na busca por respostas, foram 15 tubos de sangue coletados e 57 exames feitos sem indicar qualquer outra alteração.

“Um outro médico que busquei disse que eu tinha todos os sintomas de quem desenvolve Aids. Não sabia nem o que dizer a ele”, relembra o empresário, que só conseguiu encontrar uma explicação para o problema ao buscar por uma terceira ajuda médica.

Depois do sufoco, ainda resta muito o que fazer, “mas a mensagem precisa ser dada”, diz ele. “É horrível essa sensação de não saber o que está acontecendo. Que fique de aviso isso, quem pegou Covid é preciso ficar atento ao que está acontecendo, ao que é diferente. Não é bem assim curou e pronto para todo mundo. Acho que todos os que pegaram precisam ir atrás, precisam desse suporte.”

Uma das interpretações que os inúmeros estudos quantitativos de sequelas de Covid fornecem recai justamente sobre desafios de suporte ao grupo de afetados. Mesmo com a retomada de uma aparente vida normal – o Ministério da Saúde mesmo já derrubou a condição de emergência –, ainda há muito o que se entender, inclusive porque a pandemia não acabou. Grupos de pesquisadores ainda seguem em ritmo acelerado atrás de respostas provocadas pela fisiopatologia da Covid, e uma das interrogações são os sintomas persistentes da doença em uma parcela da população.

Não existe no Brasil, ainda, um acompanhamento sistematizado de possíveis portadores das sequelas da pandemia. No Paraná, as secretarias estadual e municipal (Curitiba) da Saúde não têm estimativas de quantas pessoas estariam em condição de diagnóstico de Covid longa. É uma tarefa ainda sem fórmula.

Baena, também à frente do programa de pós-graduação em Ciências da Saúde da PUCPR, diz que a literatura mundial aponta hoje para uma prevalência de sintomas persistentes, atestados por até três meses depois da infecção, capaz de atingir em torno de 53% dos recuperados. Outros 18% podem ter sido afetados por uma condição ainda mais prolongada, com efeitos sentidos por pelo menos seis meses e até dois anos. Índice que, se aplicado nos dados mais recentes da Secretaria de Estado da Saúde, levariam a um universo aproximado de 450 mil paranaenses que sofreram com os sintomas do pós-Covid por um período mínimo de meio ano ou ainda têm de lidar com eles.

“Isso tem um impacto importantíssimo na sociedade”, ressalta a pesquisadora. “Você junta esse quadro todo e sabe que isso gera um impacto na vida das pessoas porque, além do evento do episódio agudo, da questão do medo da morte, da questão da internação, desse sofrimento psíquico que envolve o paciente e a família, você ainda tem o impacto da dificuldade da reabilitação. Os pacientes mais idosos, muitos precisam de mais cuidados dos familiares, e os pacientes mais jovens, muitos sequer conseguem voltar a trabalhar”, diz.

O impacto social deixado pelas consequências da Covid na saúde pública funcionou como motor estimulante para a OMS propor a primeira definição clínica da Covid longa. A proposta era, além de orientar os tratamentos médios, encorajar legisladores e os sistemas de saúde a estabelecerem modelos integrados para atender especificamente esse conjunto de pacientes.

Uma análise sobre os sistemas de saúde europeus divulgada pela organização no início deste ano mostrou um avanço desordenado dos governos em relação à assistência da Covid longa. Enquanto o NHS inglês, equivalente ao SUS brasileiro, chegou a criar uma guia para atendimento clínicos dos casos e estabeleceu um mecanismo próprio para atendimento a pacientes com sintomas persistentes além de 6 semanas, outros países, como França e Bélgica, priorizaram o acolhimento de quem foi internado, embora efeitos persistentes também sejam identificados em casos menos agressivos.

Em março, o Ministério da Saúde publicou uma portaria de liberação de verbas para os municípios, em caráter temporário e de apoio às ações das equipes e dos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS) para o cuidado de pessoas com condições pós-Covid. À região Sul foram destinados R$ 31 milhões. Apesar disso, o Brasil não tem, por ora, diretrizes de tratamento. Nem mostrou, até agora, propostas para lidar com as consequências mais amplas do problema. A OMS orienta, além de uma rede de assistência, ações de atenção aos direitos trabalhistas, políticas de auxílio-doença e acesso a pacotes de benefícios e benefícios por incapacidade, por exemplo.

“Claro que existem gestores preocupados com os impactos da pandemia, mas isso não é uma realidade em todo o país. É importante ter em mente que, para a superação dos antigos e novos desafios, é necessária uma organização, uma resposta coordenada e pactuada nacionalmente entre os três níveis de gestão [municípios, estados e União]. Não podemos continuar sem uma coordenação nacional, sem a articulação do governo federal junto a estados e municípios para enfrentar a pandemia, os seus desafios, e paralelamente a isso pensar na agenda da saúde.”

Alexandra Boing, epidemiologista da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e docente da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Em Curitiba, boa parte dos atendimentos a pacientes com sequelas prolongadas de Covid hoje está concentrada em serviços independentes.

Um deles é o Centro Avançado de Atenção Multiprofissional Pós-Covid-19 do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR), onde já foram acompanhadas mais de 530 pessoas em recuperação. O espaço começou a desenvolver ações específicas em meados de 2020 para tratar limitações decorrentes do próprio tratamento, como perda de massa muscular, e sequelas emocionais. Com o aumento da demanda diante do alargamento e agravamento dos casos, ganhou um endereço próprio em dezembro passado.

Segundo a enfermeira Daniele dos Reis, uma das coordenadoras do projeto, somente agora a unidade vai conseguir incluir nos atendimentos pacientes encaminhados pela rede. Até então, por causa da limitação de vagas, o serviço era restrito para ex-internados do HC cuja recuperação exigia acompanhamento profissional específico. Com o avanço da vacinação e a queda de casos graves de Covid, serão disponibilizadas 24 vagas mensais para pacientes encaminhados de fora do hospital, em paralelo à assistência a outras doenças crônicas que elevam os riscos da infecção.

“Como o número de pacientes pós-Covid diminuiu, decidimos abrir também para pacientes de outras doenças crônicas, principalmente da pneumologia, que causa bastante limitação. Isso até para a gente tentar melhorar o atendimento ambulatorial e reduzir o número de internações.”

Outro centro multidisciplinar é o do Hospital Cajuru, que mantém convênio com a prefeitura de Curitiba, embora outros espaços particulares ganhem espaço e relevância na capital.

No ambulatório mantido em parceria com a PUCPR, a média de idade dos pacientes atendidos, diz Baena, uma das coordenadoras, é de 51 anos. No entanto, por lá já passaram pessoas mais bem jovens, um indicativo de que não é somente a idade um critério para os males causados pela Covid.

“Chama a atenção mais casos em jovens”, afirma a fisioterapeuta. “E quando a gente olha para os jovens, chama a atenção o comprometimento da saúde mental. Alguns desses jovens atendidos pelos nossos neuropsicólogos apresentaram performance cognitiva compatível com idosos com quadro de demência. Não são muitos, mas imagina o quanto o impacto disso na vida dessas pessoas é grande."

O mundo tem uma marcha em larga escala de estudos que também buscam compreender os impactos da Covid no desenvolvimento de transtornos neurocomportamentais de infectados. Na prática, alguns pontos já se definem.

Em um grande hospital público de Curitiba, a psicóloga Bianca Lemes, parte da Comissão de Psicologia Hospitalar do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), percebeu na rotina efeitos ainda mais nítidos em jovens e pessoas em idade laboral.

“Às vezes, uma internação de um mês, dois meses, faz com que a pessoa saia do hospital de cadeira de rodas. E uma pessoa que perdeu muita massa muscular, ficou muito tempo internada, vai levar quase seis meses para voltar a andar e fazer as coisas sozinha. Muitas dessas pessoas eram provedoras do lar, muitas têm famílias que se organizavam em torno delas e, de repente, não podem mais nem voltar ao trabalho. Imagina uma senhora que trabalha como merendeira numa escola, tem dois filhos pequenos, mora no interior e, de repente, não mexe mais os dois braços. O que eu mais ouvi de alguns pacientes foi o quanto precisaram ressignificar a vida.”

Para ela, os impactos psicológicos são muitos e devem exigir muito mais tempo para serem compreendidos. Mas já constam nas anotações dos profissionais mais indícios de ansiedade, depressão, casos de estresse provocados por medo de uma nova contaminação. Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) acompanharam quantitativamente 425 pacientes com alta entre seis e nove meses e conseguiram mostrar, com isso, que mais da metade percebeu declínio da memória após a infecção (51,1%). Um conjunto importante (15,5%) relatou ansiedade generalizada, e outra parcela (13,6%) passou a conviver com transtorno de estresse pós-traumático.

Na avaliação da psicóloga, esses efeitos configuram mais um desafio ao sistema de saúde pública brasileiro. Será preciso, a partir de agora, pensar na qualidade de vida de uma sociedade onde não apenas os infectados passaram a conviver com traumas – distúrbios também são uma realidade de um novo modelo de vida imposto pela pandemia – e retomar os debates sobre a capacidade e a qualidade de oferta da rede de atenção de saúde básica.

“É muito comum a gente ver as pessoas falando em recuperados. Mas recuperados em que sentido? Como está a qualidade de vida dessa pessoa depois da Covid?”, questiona. “E temos ainda um desmonte da rede de saúde mental no SUS. A gente tinha CAPS [Centros de Atenção Psicossocial] que antes eram separados, mas eles mudaram a política e resolveram fazer o Caps territorial que mistura todas as patologias. A gente não tem, dentro da Saúde, ambulatório preventivo que você possa fazer terapia antes da coisa ficar aguda, então a gente vai enxugando gelo. Faltam muitos psicólogos e falta, sobretudo, uma rede de saúde mental com mais opção de tratamento.”

A epidemiologista da Abrasco, Alexandra Boing, também integrante do Observatório Covid-19Br, reforça que, apesar de não haver dados precisos sobre o conjunto de pessoas dependentes de assistência por causa da infecção, os serviços de saúde já estão se deparando com o aumento da demanda. E não se trata apenas de exigência a curto prazo.

O financiamento de pesquisas, por exemplo, é fundamental para guiar as condutas clínicas e políticas. "Como você vai planejar o serviço sem conhecer a magnitude do problema? Sem saber quantas pessoas têm Covid longa com necessidade de atenção, quais as repercussões clínicas mais comuns, as terapias mais eficazes, a duração dos sintomas?", questiona.

“Para que se ofereça a devida atenção a essas pessoas será importante aumentarmos o financiamento do SUS, qualificar a organização dos serviços de saúde de fato em redes de atenção e investir em pesquisa. De forma paralela teremos de continuar o combate a fake news, lidar com o aparecimento de novas doenças e doenças erradicadas, reforçar a formação profissional na área da saúde baseada em evidências científicas e com habilidades de comunicação, organizar as vigilâncias em saúde para dar respostas para futuras epidemias, qualificar os laboratórios de saúde pública, os sistemas de informação em saúde e combater as desigualdades sociais.”

Cristina Baena, da PUCPR, corrobora a necessidade de apoio a pesquisas e estudos multicêntricos para acompanhar os impactos da Covid longa como uma forma de suporte aos pacientes que enfrentam dificuldades no pós-infecção. Mas, segundo ela, apesar de as discussões sobre um cenário pós-pandemia já estarem ganhando cada vez mais relevância, a medida mais importante para diminuir a proporção de pessoas com essas sequelas continua sendo a priorização de medidas para evitar a disseminação da doença.

“Seja com vacina, máscara, distanciamento, mas ainda evitar ter a doença. Infelizmente não está escrito na testa da pessoa se ela vai ter sequela ou não.”

Em resposta ao questionamento feito pelo Plural sobre como atua para atender usuários da rede impactados pelos sintomas da Covid longa, a prefeitura de Curitiba disse que desde o início da pandemia se organizou para o acolhimento desses pacientes.

"As próprias equipes das Unidades de Saúde estão aptas a atender esses casos e, se for necessário, encaminhar para as equipes multiprofissionais próprias, com fisioterapeutas, nutricionistas e fonoaudiólogos que também prestam suporte a esses pacientes", explicou.

Já a Sesa não se manifestou.

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