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Para que serve uma livraria?

Ela serve para vender livros, você pode dizer, mas o papel de uma livraria é muito mais importante do que esse

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Em agosto, completo 16 anos à frente de uma livraria. É uma data fácil de lembrar porque abri as portas uma semana antes de casar. E lembro que, no dia do casamento, trabalhei até um pouco antes de colocar o terno e dizer "sim".

Por uma dessas coincidências, a data chegou no momento em que estou lendo "Livrarias", do espanhol Jorge Carrión. Com pequenos textos, Carrión narra a história de diversas livrarias e o impacto que muitas delas tiveram em suas respectivas cidades e também na história da literatura.

Com a data e o livro, foi impossível não refletir sobre duas questões. Afinal, 16 anos é um tempo considerável. A primeira questão é se minha livraria teve algum impacto, se ela fez a diferença de alguma forma. Espero, realmente, que tenha feito. Mas não tenho como saber com certeza. Talvez daqui a alguns anos mais. A segunda questão, sobre a qual penso com frequência, é: qual o papel de uma livraria?

Como diria quando eu jogava bola, nos tempos de guri, "de prima" a resposta é vender livros. E não está errada, mas felizmente a coisa não é tão simples assim. Vender livros é uma forma que se encontrou para a sobrevivência das livrarias, para que elas possam pagar as contas e existir como espaço.

É assim também que todas as pessoas ligadas ao livro conseguem seguir trabalhando para que o livro exista. Escritores, editores, tradutores, ilustradores, revisores, impressores e tantas outras pessoas necessárias para que os livros sigam sendo feitos. Quando você compra um livro, você está possibilitando que essas pessoas possam continuar seu trabalho. Então vender livros é um dos papéis da livraria e isso, por si só, é importante.

Mas quando pensamos sobre livrarias e sobretudo, sobre livrarias de rua, a função e o impacto acabam indo muito além. O que mais acontece em uma livraria, para desespero de quem cuida dos números e das contas, não é a venda de livros, mas o encontro. Não apenas o encontro entre pessoas, mas especialmente o encontro de uma pessoa com uma ideia.

Um livro sempre guarda uma frase, um parágrafo ou um personagem que vai fazer você refletir, provocar você, fazer ideias aparecerem na sua cabeça. Pode ser que dure um instante ou pode ser algo que mude a sua vida.

A livraria de rua é o lugar onde ideias existem. Organizadas em prateleiras, esperando por um encontro. Nesses 16 anos, não foram poucas as vezes que vi esses encontros acontecerem, mas também vi pessoas se encontrarem, conversarem e criarem uma ideia juntas. Presenciei autores se encontrarem com leitores, tradutores e ilustradores falarem sobre trabalho. Leitores se reunirem para conversar sobre leituras. 

O que posso dizer é isso: ao longo dos anos, ficou claro para mim que vender livros não é a principal função de uma livraria. É um caminho necessário para poder realizar sua verdadeira vocação: a de criar encontros.

Deixo aqui uma ideia, ou uma provocação: quando decidir comprar um livro numa livraria de rua, lembre-se de que você não estará apenas comprando um livro. Estará ajudando na manutenção de um espaço onde encontros acontecem.

Tags: Artigos

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