O papel profético da Igreja diante da criminalização de corpos negros, pobres e migrantes foi ressaltado frequentemente pelo Papa Francisco ao longo de seu pontificado. Para teólogos contemporâneos, como o Pe. José Abel de Sousa, jesuíta e doutor em Teologia Pastoral e professor no Studium Theologicum Claretiano de Curitiba, e a professora Ana Beatriz Dias Pinto, doutora em Teologia Ético-Social e professora na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), as sementes plantadas pelo pontífice, falecido em 21 de abril de 2025, ainda devem reverberar amplamente em sentido pastoral e ético-social.
Segundo o Pe. José Abel, a Igreja deve denunciar profeticamente estruturas injustas que criminalizam esses grupos, sustentando um discurso firme que combate preconceitos e promove justiça e equidade. “O profetismo exige uma posição clara e ativa, capaz de confrontar poderes estabelecidos, inspirando ações sociais concretas que garantam dignidade e respeito aos marginalizados”.
De acordo com o sacerdote, a Doutrina Social da Igreja (DSI) oferece importantes fundamentos teológicos para políticas públicas antirracistas e de acolhimento. A DSI reconhece a dignidade inviolável de cada pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, estabelecendo assim uma base sólida para o combate à discriminação racial e à xenofobia. Documentos escritos pelo Papa Francisco, como a "Fratelli Tutti" e a "Laudato Si", oferecem diretrizes claras sobre a importância da fraternidade universal e do cuidado com o próximo, elementos fundamentais para a construção de políticas públicas inclusivas e integrativas.
Quanto às práticas pastorais para acolher e integrar migrantes e refugiados, o Pe. José Abel destaca a importância de comunidades eclesiais abertas e acolhedoras, que promovam espaços de diálogo intercultural e inter-religioso. Iniciativas como grupos de acolhimento, cursos de idiomas, orientação jurídica e apoio psicológico podem ser fortalecidas ou criadas para auxiliar no processo de integração. A sensibilização das comunidades locais é essencial, promovendo a conscientização sobre as realidades e desafios enfrentados pelos migrantes e refugiados, fortalecendo assim a solidariedade e a hospitalidade cristã.
O conceito de "Igreja em saída", proposto pelo Papa Francisco, ganha relevância especial no contexto do enfrentamento das múltiplas formas de exclusão social. Pe. José Abel ressalta que uma Igreja em saída não se restringe aos templos ou estruturas tradicionais, mas vai ao encontro das periferias existenciais e sociais. Essa saída implica uma presença ativa junto aos que mais sofrem, incluindo negros, pobres e migrantes, ouvindo suas vozes, compreendendo suas realidades e agindo concretamente para transformar estruturas injustas. A Igreja em saída é, portanto, uma Igreja comprometida com a promoção integral do ser humano, especialmente dos mais vulneráveis. “O papa Francisco não apenas falou sobre misericórdia; ele a viveu intensamente, tornando-se exemplo vivo de acolhimento e esperança para todos os marginalizados pelos horrores da guerra, da pobreza, da violência, do racismo e das realidades humanas mais duras”, comenta o sacerdote.
Reconstruir uma espiritualidade cristã que reconheça a dignidade de todos os povos e culturas, sem exotizar ou subalternizar suas expressões religiosas, é outro desafio destacado pelo Pe. José Abel. Para ele, é crucial uma espiritualidade aberta, dialogal e respeitosa das diversas tradições e expressões culturais. A espiritualidade cristã deve se nutrir do reconhecimento da presença divina em todas as culturas, evitando superioridades ou exotizações e valorizando as riquezas espirituais de cada povo. Este processo exige uma formação teológica e pastoral capaz de discernir e acolher positivamente a diversidade cultural como manifestação legítima do Espírito Santo.
A professora Ana Beatriz Dias Pinto complementa, ressaltando que o compromisso da Igreja deve ultrapassar discursos e gerar práticas concretas que promovam equidade racial e social. "A luta contra o racismo e o apoio às periferias existenciais devem ser vistos como prioridades pastorais urgentes. É necessário fomentar uma cultura de escuta e acolhimento genuíno, buscando reconhecer e corrigir injustiças históricas que continuam afetando profundamente a dignidade humana de milhões de pessoas. Neste quesito, entendo que a Igreja deve dar o primeiro passo, servindo de exemplo para a sociedade, que espera isso do clero e dos fiéis, pois nada mais é do que a vivência do Evangelho pregado por Cristo," opina.
Em conclusão, os teólogos acreditam que o enfrentamento das questões migratórias, do racismo e das diversas formas de exclusão social demanda uma Igreja profética, fundamentada na Doutrina Social, comprometida com práticas pastorais acolhedoras e com uma espiritualidade inclusiva e respeitosa.
“Este compromisso eclesial não apenas reforça o testemunho cristão no mundo contemporâneo, mas também contribui significativamente para a construção de sociedades mais justas, fraternas e acolhedoras, conforme já temos sementes plantadas pelo papa Francisco, que devem se transformar em muitos frutos a curto prazo. Francisco foi o papa das periferias: sua vida ensinou a Igreja a caminhar ao lado daqueles que o mundo muitas vezes ignora. O que aprendemos com ele, deve permanecer”, conclui a professora Ana Beatriz.