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O vendedor que não desistia

Em sua crônica de estreia, Felippe Anibal conta a história de um vendedor que não parava de falar das maravilhas de seu produto, mesmo sendo incapaz de ganhar um real com isso.

Por Admin
O vendedor que não desistia
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Postado diante da mesinha mambembe armada em pleno calçadão, o homem fatiava uma cabeça de repolho com elogiável destreza. Enquanto reduzia a hortaliça a um amontoado de tiras milimétricas, apregoava o instrumento que tinha em mãos: “Vejam que maravilha da cozinha! Descasca a cenoura, corta a verdura! Olhem como é fácil!”. Embora estivesse vestido de maneira simples – tênis gasto, calça e uma camisa que parecia um tanto maior –, tinha a elegância de um maître. O produto que colocava à venda não tinha nada de sofisticado: consistia em um cabo plástico alaranjado que terminava em uma forquilha, na qual estava afixada uma lâmina afiada. Nada mais. Mas a forma como ele o anunciava – sempre com voz clara, pronunciada com entonação de locutor e ornamentada por um sorriso de indelével confiança – fazia crer que, de fato, se tratasse de um utensílio indispensável.

Eujá havia topado com o vendedor em outras ocasiões – na entrada de umsupermercado, nos arredores da feirinha do Largo ou ali mesmo, no calçadão –,mas naquele comecinho de tarde ele me chamou a atenção em especial. Talvezporque o entusiasmo com que enumerava as qualidades do item que vendiacontrastava com os modos insossos de seus colegas ambulantes: uma jovem aserviço de uma operadora de celular, um rapaz que oferecia carregadores para smartphonese um homem de maus bofes, que portava uma placa em que se lia “compro ouro”. Essespareciam estar ali a contragosto, entediados e sem o mínimo resquício deorgulho do próprio ofício, ao passo que o homem continuava a bradar asmaravilhas do descascador de verduras, como se desempenhasse a mais nobre dasprofissões.

Não vendeu um

descascadorzinho que fosse.

Nem por isso, no entanto,

o homem esmoreceu.

Pareipara contemplar. Apesar de todos os salamaleques do mercador e de suaapresentação resoluta, quase ninguém dava por ele. Nos cinquenta minutos em quefiquei ali, de butuca, apenas duas freiras e uma senhorinha desviaram o olharpara o vendedor por uns poucos segundos, mas nem sequer chegaram a parar paraver o funcionamento do utensílio fabuloso. Não vendeu um descascadorzinho quefosse. Nem por isso, no entanto, o homem esmoreceu. Resiliente, permaneceuanunciando seu produto, qual falasse para um público seleto que lhe desseplenos ouvidos. Apesar de tudo – ou melhor, do nada – ele seguia, com féinquebrantável.

Quandoo relógio me chamou de volta à rotina, parti, dividido. Por um lado, sentiapena do pobre homem, porque apesar de toda devoção que dispensava ao seuofício, o sucesso profissional lhe passara longe. Fico me perguntando senaquele dia ele voltou pra casa com o gosto do fracasso na boca, depois de terpassado o dia em pé, gastando seu latim ininterruptamente e em vão. Não deveser fácil. Por outro lado, no entanto, era louvável a dignidade que aquelecamelô mantinha, cumprindo sua ventura e entregando o melhor de si. Creio que,apesar de tudo, naquela noite ele deve ter dormido o sono dos justos e, nosdias seguintes, persistido até tempos mais favoráveis.

Agorapor esses dias, no finzinho de dezembro, lembrei-me do ambulante durante umaconversa com ela, enquanto olhávamos o ano em retrospecto, em uma espécie debalanço. Foram meses difíceis, é escusado dizer. (A vida, às vezes, nos mete emum emaranhado tal, que nem um abraço é capaz de proteger). Para ela, noentanto, o fardo parece ter sido maior. Alguns acontecimentos quase a tiraramde seu curso, enquanto, em outra seara, outros quase a puseram estática. Aquantos não devem ter ocorrido dissabores em série, de forma semelhante? Aolongo da prosa, o episódio do mercador do calçadão emergiu como ensinamento.Pode soar elementar, mas em meio a turbilhões acabamos por nos esquecer doóbvio. O que eu queria que ela se lembrasse neste novo ano é de que há ocasiõesem que nos cabe apenas isso, mesmo: pôr um sorriso no rosto e seguir com nossopropósito com determinada convicção e integridade. Há que persistir. Como ovendedor.

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