Pular para o conteúdo

O velho e a guitarra

Cercada de sol e montes sem fim, sob um céu puro, impiedoso, a casinha de pedra é só sossego

Por Admin
O velho e a guitarra
Publicado:

Cercada de sol e montes sem fim, sob um céu puro, impiedoso, a casinha de pedra é só sossego. Nenhum barulho vem de fora. Como o perro de Goya, a cachorrinha me olha semifundida à penumbra. Ao lado dela, compacto em sua calvície de homem pequenino, o velho transmontano toca a guitarra portuguesa. Ouço a música meio adormecido. Conheço um pouco da história do velho. Sei que ela se funde aos sons plangentes do instrumento, como o leito do Douro reverbera abismos na superfície calma e sedosa. Ele toca, eu me lembro das coisas que me contou ao longo desses dias. Encaixo as peças esparsas no pano de fundo da História.  Foi mais ou menos assim.

Em algum momento no fim da década de 60, quando este senhor simpático tinha muitos cabelos e a força de um jovem camponês de Trás os Montes, ele foi chamado pelo exército para defender os interesses do salazarismo na Guiné. Naquela época os portugueses já estavam cansados de ver seus filhos morrerem feito moscas nas guerras coloniais. Mesmo induzidos pelos órgãos oficiais, pela imprensa e pela Igreja Católica a confundir o bem-estar das elites com o de um povo famélico e analfabeto, começavam a desconfiar dos planos sanguinários e obsoletos de Salazar. Apoiadas pelas grandes potências, as colônias africanas se rebelavam com eficiência crescente. E o exército português ia perdendo a força, já percebera o absurdo de suas ações. Portugal era um país carcomido pela miséria material e humana. E o mundo já trocara o velho colonialismo pelas armas mais sutis da dominação financeira.

O jovem não foi levado para o front. Era respeitoso, disciplinado e sabia tocar guitarra. Suas habilidades manuais foram usadas para enviar mensagens sigilosas em código Morse. Ficou aquartelado em Bissau. Enquanto dedilhava o transmissor, Amílcar Cabral comandava a eficiente luta armada dos guineenses, que abateu de vez o já dividido exército português.

Quando o devolveram à sua desolada província de agricultores em Trás os Montes, não encontrou trabalho. Como tantos outros rapazes da sua geração, resolveu ir para a França, onde havia demanda por mão de obra barata. Lá aprendeu movelaria numa grande fábrica de móveis. Ganhou dinheiro, levou a jovem esposa para lá, teve uma filha. Ao voltar para casa, após o 25 de Abril, montou uma fabriqueta de móveis de cozinha na sua aldeia.

O país, liberto dos grilhões de milicos e padres, pulsava, estudava, crescia. As mulheres saíam aos poucos das tocas, os jovens falavam de sexo, política e arte, já era possível ler os beatniks, Henry Miller, Marx, Jorge Amado, Urbano Tavares Rodrigues, usar livremente anticoncepcionais, biquínis como os de Brigitte Bardot, discutir a igualdade de gêneros, a desigualdade social, o racismo, a xenofobia. Como aprendera a fazer na Guiné, o jovem viu tudo isso acontecer sem emitir opiniões fortes. Ia à igreja, comia suculentas feijoadas transmontanas com a família, sorria e trabalhava. E prosperava, renovando as cozinhas rançosas das casinhas encravadas nos montes, às margens do Sabor e do Douro. Adaptava-se ao tempo e colhia dele os melhores frutos para que sua vida continuasse sendo a mesma de antes da guerra, pacata e ordeira, como fora a de seus calejados e soturnos avós. O mundo mudava, mas a monogamia e o Cristo na parede eram a base imutável sobre a qual ele discutia com os vizinhos os castigos que caíam do céu sobre almas e plantações.

Agora está diante de mim. Sentado na cadeira de palha, cercado pelas fotos da família que repousam na estante da sala, toca sua velha guitarra. Veste bermuda, uma camisa de mangas curtas desabotoada no peito, chinelos de couro. É um homem bom, cujas ambições mínimas, anteriores a ele, não encontraram resistência externa nem interna. O neto o acompanha ao violão. Tocam um fado, “Povo que lavas no rio”, uma triste e bela canção daqueles tempos sem futuro. Sua filha, a menina que nasceu na França e agora, perto dos cinquenta, me trouxe à aldeia, canta com uma voz fina e hesitante. Parece intimidada pela minha presença. As mãozinhas muito brancas adejam na penumbra da sala. Eu os observo em silêncio, bem aninhado num sofá coberto por uma colcha de tricô, diante da fruteira de vidro amarelo que ostenta as maçãs reluzentes da paz doméstica. Pela janela vejo as linhas de oliveiras descendo as terras pedregosas da colina, como cabelos bem penteados. A cachorrinha vai até a porta, onde a cortina de miçangas não se move, olha o sol tórrido, volta para a poltrona. O fado atravessa o tempo, conta a história de uma gente sofrida, sentimental e dura, de cujas mãos esfoladas nascem oliveiras e arpejos:

Ai, povo que lavas no rio,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Há de haver quem te defenda,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida não.

O velho tange as cordas duplas da guitarra, sorri para mim. Faz coro com a filha e o neto. Às vezes eu queria ser como ele, amar brandamente assim o que me coube. Acreditar que “todo trabalho é bom”, como ele me disse, cantar aos domingos com uma melancolia cultural. Me sentir feliz por ser mais uma folha entre as folhas das oliveiras que espalham o árduo trabalho da vida pelos montes da minha terra. Deixar que a história repita sua terrível comédia e cultivar minha horta ancestral, ensinar uma canção para os meus netos entre os ingênuos pastores de porcelana dos meus avós. Às vezes eu queria… Mas como? Eu não saberia. Uso a minha vida sem convicções de proprietário, como se ela tivesse sido emprestada a mim mesmo. Não sei se Deus existe e desconfio de quem sabe. As divagações me afastam das coisas imediatas, básicas, óbvias, só posso acariciar um gato na lembrança de acariciar um gato. Fujo de grupos, rituais, tradições, se todos fazem a mesma coisa logo suspeito de uma estupidez coletiva, inercial. Não, eu não saberia ser como eles, me falta isso de querer estar no mesmo lugar com as mesmas pessoas queridas. Morei em oito cidades, três países. Assim que o homem da padaria sabe o meu nome penso novamente na estrada – só acredito na estrada, no indivíduo em movimento, desapegado, inconcluso. Estou tão longe desta família transmontana, polida por atavismos como as pedras do chão de sua igreja… Mas posso amá-la, mesmo de passagem, como amo agora o velho tocando sua guitarra da vida inteira, pequenino e forte, intocado pelo mistério que suscita. Como amo a canção que nasce e renasce desses lábios colados ao tempo:

Dormi com eles na cama,
Tive a mesma condição.
Povo, povo eu te pertenço,
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida não.

Mais de Admin

Ver todos

De nossos parceiros