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O homem do Livrada! lança seu próprio livro

Yuri Al Hanati. Foto: Divulgação.
Escrito por Rogerio Galindo
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Yuri Al Hanati é de uma geração de jornalistas que começou achando que ia escrever e terminou falando para webcams. Repórter de política e cultura no início de carreira, com o tempo se viu, meio que sem querer, como youtuber.

Seu canal, o Livrada!, tem 36 mil inscritos e virou referência na área. Ao mesmo tempo, Yuri mantém uma produção como cronista no site A Escotilha. E agora decidiu reunir isso em um volume pela Dublinense.

Bula para uma Vida Inadequada é a volta do autor ao papel, ao impresso. Na entrevista abaixo, Yuri fala sobre ser youtuber, sobre jornalismo e, claro, sobre livros.

Como todo aficionado por livros, você deve querer escrever os teus. Como foi esse projeto?

Bom, é claro que existem vários caminhos para se construir uma carreira literária. Para mim, esse caminho é formado de pequenos impulsos que se pega quando o vento sopra a favor. Preferiria escrever um livro que tivesse algum tipo de demanda do que criar a minha própria e escoar uma produção inteira por preciosismo. Como eu já escrevia há algum tempo na Escotilha, pensei que seria uma boa reunir as melhores em um livro, juntando com algumas inéditas. Procurei algumas editoras e a Dublinense começou a analisar a proposta mais de perto do que as outras. Logo fechamos o contrato.

Você sonha em fazer coisas de ficção mais longas, como contos ou romances?

Por enquanto não. Acho que sou muito mau ficcionista, mas além disso também considero importante a intenção de uma discussão num romance. Como tenho uma predileção por microtemas, a crônica parece ser o gênero que melhor comporta o que tenho para escrever.

Teu trabalho de cronista tem algo a ver com os quadrinhos? De observação da realidade?

Os efeitos que busco na tirinha e na crônica são um tanto contrários, muito embora, é claro, algum tipo de observação e assimilação do momento presente se fazem necessários em ambos. Com a tirinha eu quero a infâmia, a canalhice da economia, a antiarte gráfica, o duplo sentido rebuscado associado ao punchline anticlimático. Na crônica eu procuro os menores temas que me rendam ensaios ligeiros ou investigações hiperbólicas de superfície. Criar algo a partir de pouca coisa, como um olhar ou uma ideia — como é próprio do gênero.

Você estava bem feliz esses dias com as vendas. É possível vender livros ainda?

Cada vez mais. Existe uma variedade imensa de pontes possíveis de serem estendidas entre autor e leitor. A Aline Bei, que publicou o romance de estreia dela, O Peso do Pássaro Morto, virou um case desse tipo. Ela foi buscar o leitor dela na Internet, mandou mensagem, vendia pelo correio, mandava autografado, fez o que pôde para se aproximar do público que em princípio não tinha, mas que criou dessa maneira. Hoje ela é uma autora muito lida e das mais vendidas na editora dela, a Nós. O problema é quando o escritor vê a si mesmo como artista indigno desse tipo de expediente. Todo mundo quer que a coisa marche com as próprias pernas, é claro, mas o artista recluso que se lança hoje é o próximo ressentido da fila. E é, claro, quando falamos em vender livros no Brasil, estamos falando de números bem abaixo daqueles que a imaginação supõe, então mesmo quando eu digo que dá pra vender livros, não é muito não.

O Livrada! é um sucesso. Conta de onde surgiu e qual o destino do canal?

Hahahah não acho que o Livrada! seja de forma alguma um sucesso. Mas bem, ele surgiu de uma insatisfação minha com o meu trabalho da época. Escrevia um blog para um site de importação de medicamentos oncológicos. Era câncer o dia inteiro, todo os dias da semana. Resolvi fazer um blog para falar das minhas leituras e tentar buscar uma abordagem menos esnobe em relação a literatura. Muita gente que escreve sobre livros tenta camuflar a falta de insight sobre a leitura com um estilo rebuscado, donde vem a discussão sobre crítica literária ser um gênero literário também (e os jornalistas sempre acham que essa discussão se estende a eles também). Queria fazer algo mais perto de um texto de humor que pudesse, ainda assim, discutir alguma coisa sobre literatura. Em 2014, uma amiga sugeriu fazer uma versão em vídeo da resenha. Eu topei, alheio ao fato de já existir uma ampla rede de leitores e resenhistas fazendo vídeos para o YouTube – os chamados booktubers. O canal se propagou com uma velocidade assustadoramente maior do que o blog em quatro anos de sólida periodicidade. O destino dele agora pouco importa, pra ser bem sincero. Já devo estar fazendo hora extra no YouTube. Mas gosto daquilo que ele me traz.

Você se imaginava “youtuber”? Dá pra viver disso?

Eu adoro e ao mesmo tempo odeio ser youtuber. Odeio a superexposição, odeio a minha própria persona virtual, que é sempre resultado de uma censura coletiva que te transforma num autêntico vaselina, odeio que meus amigos tenham contato com ela. Mas adoro a contundência da relevância sobre a vida das pessoas. Recebo muitas mensagens de gratidão por ter apresentado autores, discutido ideias, estimulado a leitura. Gente leitora que mora no interior do Brasil, centenas de cidades sem uma livraria sequer. Gosto de poder ser algum tipo de companhia para os desajustados. Gosto de falar sobre um livro que sei que não vai ser falado, de ir na contramão da pauta, fazer a minha própria cena. Se dá pra viver disso eu não sei. Não faço a menor ideia, na verdade. Sei que eu não vivo.

E o jornalismo convencional? Ainda te interessa?

Acredito que tenha largado o jornalismo convencional pelo mesmo motivo que permaneci no YouTube mesmo com meus vários pés atrás: como comunicador, gosto de falar às massas. Não às massas orteguianas, essa coisa das multidões inaptas, mas às pequenas massas. Ao maior número possível de gente para o qual é possível falar sem precisar achatar muito o debate, comprimir o tempo de atenção, esse tipo de concessão que fazemos aos poucos em nome do alcance, enfim. Meu canal hoje tem 36 mil inscritos, acho que dificilmente passará disso numa nação de 75% de analfabetismo funcional, da qual a população alfabetizada que se interessa por YouTube e pelo tipo de literatura sobre a qual eu trato ao mesmo tempo há de ser mínima. Sinto falta da sinergia do jornal diário, a imprevisibilidade da semana, o convívio com os colegas. Trabalhei em um ótimo caderno de cultura da cidade, uma equipe de primeira. Sempre estávamos na rua, falando com artistas, fãs, gerando debates interessantes. Hoje sou só consumidor mesmo.

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Sobre o autor

Rogerio Galindo

Rogerio W. Galindo é jornalista e tradutor. Responsável pelo blog Caixa Zero, é um dos profissionais que criaram o Plural.jor.br

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