Tenho refletido sobre a insana perseguição ao vereador Renato Freitas do PT, que pela segunda vez sofre processo de cassação do mandato por iniciativa de alguns dos seus pares, vereadores conservadores da bancada do prefeito Rafael Greca. Da primeira vez não lograram êxito. Agora, a partir de uma falsa versão de que o vereador Renato Freitas invadiu a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Largo da Ordem, em Curitiba. Interessante observar que não houve invasão pois o culto havia terminado e as portas da Igreja estavam abertas para quem quisesse entrar no templo.
Porém, essa não é a razão fundamental. O que se quer mesmo é cassá-lo, pouco importando o motivo. Para alcançar tal intento, estão se apoiando na falsa narrativa e no boletim de ocorrência feito pela igreja na Polícia Civil. Essa tese também caiu por terra diante do depoimento do padre à polícia ao afirmar que não houve invasão. A partir daí, temos que buscar entender o que de fato move esses vereadores da bancada do prefeito Rafael Greca a dar continuidade ao andamento do processo por decisão da primeira reunião da Comissão de Ética e Decoro Parlamentar. Poderiam não ter acatada a denúncia e encerrado o processo.
Logo, ao que tudo indica, a posição da maioria em cassar o mandato popular do vereador Renato Freitas do PT, tem a ver com as próximas eleições presidenciais, já que caracterizaram o Renato e seu partido como invasores de igreja, o que poderá ser explorado nas próximas eleições. É mais do que isso, Renato é um vereador negro, independente, que resiste a se enquadrar nos cânones dos preceitos legislativos, o que o torna simpático e popular, podendo se tornar uma liderança de massa, que poderá pôr em risco a supremacia dos vereadores e políticos brancos que dominam as instituições políticas, então o “mal” tem que ser cortado pela raiz. Aliás, têm vários vereadores negros sob ameaças de cassação em várias Câmaras Municipais no país. O que demonstra que a direita conservadora branca nos parlamentos está agindo em sintonia.
O elemento que parece dominante nessa sanha da cassação do mandato é o componente racial.
Essa ação de cassação faz vir à tona a não aceitação da ascensão política dos negros, que representam sua raça, cujas representações podem mudar a pauta dominante nas instituições políticas que é hegemonizada pela elite branca, com a manutenção dos seus interesses e privilégios. Para comprovar tal tese basta dar uma rápida olhada nas pautas dos legislativos. A maioria absoluta dos eleitos são brancos, com uma minoria branca que defende as pautas populares, porém, as pautas majoritárias aprovadas atendem aos interesses da minoria econômica e social branca e “cristã”, que inclusive dirige as mesas legislativas.
Nós, brancos, temos que assumir a defesa dos mandatos dos vereadores e vereadoras negras e negros, que sofrem todo tipo de ameaças e violências como toda a população negra deste país.
Por longas décadas, nós, brancos, fomos acostumados a conviver com o preconceito racial, que vivenciamos nas famílias, nas escolas e nas igrejas. Ouvíamos reiteradamente que negro é ladrão, perigoso, violento. De forma inconsciente reproduzíamos esse preconceito, que hoje se revela como o racismo estrutural, institucional. Temos essa dívida para com os negros e precisamos resgatá-la com ações em defesa dessa população negra, explorada e marginalizada. Esses mandatos dos negros e negras são fundamentais na luta pela superação da discriminação racial e das minorias.
Esse processo da cassação do Renato Freitas do PT fez transparecer também que a frágil imagem que se construiu de uma Curitiba cordial, solidária, terra de todas as gentes, sofreu desgaste com a chamada “República de Curitiba”, no episódio da prisão do ex-presidente Lula, que foi inocentado em todas as instâncias judiciais. A operação Lava Jato, cujo procurador Deltan Dallagnol, que armou a operação, acabou sendo condenada com a pena de indenização a Lula. Essa operação expôs Curitiba demais na mídia, ajudando a desgastar a sua boa imagem.
Agora, se o vereador Renato Freitas do PT for condenado ou cassado, o desgaste da imagem da cidade de Curitiba será ainda maior, pois o repúdio a mais essa tentativa de cassação extrapola o país, é internacional e a responsabilidade recairá sobre o governador e o prefeito Rafael Greca e sua bancada majoritária na Câmara Municipal de Curitiba.
Ficará registrado para a história que essa Câmara Municipal de Curitiba pela primeira vez cassou um vereador e negro.