Aquele foi um dia que já começou pesado.
Como estava garoando, não fui, como de costume, trabalhar de bicicleta. Fui de busão mesmo. (¡busão! Quantas histórias…) E como estava friozinho (sim, aqui no Paraná em outubro faz frio), vesti uma blusa. Escolhi aleatoriamente (certamente a Psicologia discordaria dessa afirmação) minha blusa novinha cuja estampa ostenta em letras garrafais a singela e inofensiva sigla da antiga e extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Blusa vermelha, com o CCCP, a foice, o martelo e tudo mais. (¡Outubro Vermelho! pensei depois). Não que eu seja comunista (não me tornei samurai quando usava coque samurai), mas certamente a peça de roupa diz algumas coisas sobre as inclinações e a visão de mundo do proprietário (!). Mas o que aconteceu foi que levei uma firme encarada de um cara assim que passei a catraca. Encarada feia, quase deu medinho. Tive plena certeza, nestes tempos bipartidos como a língua das cobras, de que a motivação da encarada era a blusa. Tive certeza também de que não iria ficar só na encarada. E não ficou. O cara me percorreu de cima a baixo, lentamente. Fixou os olhos no meu tênis e, como quem acredita finalmente ter encontrado um ponto fraco no adversário, não se conteve. Sorriu um sorriso pretensiosamente irônico e soltou:
─ Comunista de Adidas…
Pensei que não podia levar na pasta do colégio um desaforo desses, de alguém que não me conhece, de alguém que obviamente não fazia ideia do que estava dizendo (embora tivesse certeza da genialidade da frase), e com o agravante de ser justo no dia do meu aniversário. Como um tenista em plena forma (já que o papo era sobre tênis), devolvi:
─ Não, fera. ¡Comunista de coletivo!
Não sei se o camarada entendeu (pelos resmungos, não), mas eu desci do ônibus sorrindo, e com o firme propósito de passar numa loja e comprar uma camiseta do Che. E um charuto…
Aliás, de tanto que qualquer coisa hoje é chamada de comunismo, imaginei um mundo em que até a palavra "coisa " fosse substituída pela palavra "comunismo". Dá-lhe:
Olha que comunismo mais lindo mais cheio de graça.
Não quero lhe falar, meu grande amor, dos comunismos que aprendi nos discos.
Mas se ela voltar, se ela voltar, que comunismo lindo, que comunismo louco.
Algum comunismo acontece no meu coração, que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João.
Amarás a Deus sobre todos os comunismos.
O homem é a medida de todos os comunismos.
Há mais comunismos entre o céu e a terra do que sonha a vã filosofia.
Um comunismo é um comunismo, outro comunismo é outro comunismo.
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta, com cada comunismo em seu lugar.
Mas os comunismos findos, muito mais que lindos, esses ficarão.
E, para mim, a melhor de todas: Existem comunismos que o dinheiro não compra. Para todos os outros existe Mastercard. ¿¡Que comunismo, hein!?
Contei primeiramente a história do ônibus por ter acontecido no dia de meu aniversário. E por ter acontecido primeiro. Mas teve uma outra, melhor, pois se é bem verdade que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, é só porque na segunda vez o raio é outro.
Eu percorria de bicicleta, sem muita pressa, os 6 km diários entre o trabalho e minha casa. E com a já lendária blusa vermelha. Ao parar num semáforo, percebi que um sujeito (¡ómi e branco!) baixou o vidro do carrão parado ao meu lado. O incidente do ônibus teve como um dos efeitos fazer eu me preparar para situações semelhantes, cada vez mais comuns neste país ensandecido. Tive certeza, novamente, pelo rosto desfigurado da figura, que a coisa ia ser comigo.
De dentro de seu escudo de vidro e lata, o ómi branco começou a esbravejar inteligências do tipo “¡seu comunista safado! ¿Por que não vai pra Cuba, que é teu lugar? ¡Vai pra Venezuela! ”, num tom pretensiosamente furioso, mas que soava esganiçado e quase engraçado.
Não há o que responder a um sujeito desses. Palavras servem muito melhor a outros propósitos. Por outro lado, baixar a cabeça e seguir como se nada tivesse acontecido estava e está fora de cogitação. Não dá. Pode até ser uma boa opção. Provavelmente seja a melhor. Provavelmente seja a mais lúcida e segura. Mas não é a mais prazerosa. Acionei, então, a estratégia previamente traçada que me propusera a acionar caso novamente acontecesse o que novamente estava acontecendo. Se é guerra de guerrilha o que querem, pois que estejam preparados.
Levei o dedo indicador até a altura da boca. Passei a língua na ponta. Levantei a blusa lendária e vermelha. Fiz um carão irresistivelmente sexy (se é pra ser duro, que seja com ternura). E, com lentos e estudados movimentos circulares, passei o dedo em meu mamilo. Esquerdo.
O sujeito ómi esmurrou o volante e gritou lá de dentro mais alguma coisa ininteligível, mas eu já tinha me posto em marcha, pedalando rumo ao trabalho, livre e feliz, e pensando em por que caralhos os mamilos – destros ou canhotos − são tão polêmicos.
O sujeito e seu carrão ficaram lá atrás. Presos no vermelho.