2 dez 2021 - 14h52

Veja por que a UFPR é essencial para o software livre (e como Bolsonaro põe isso em risco)

Espelho da universidade é referência em Linux, mas pode ser sucateado

Reportagem produzida pelo Manual do Usuário

Se você está no Brasil e usa Linux, é bem provável que já tenha se deparado com um domínio da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o c3sl.ufpr.br, ao atualizar seu sistema ou aplicativos. Trata-se do espelho do Centro de Computação Científica e Software Livre (C3SL), um grupo de pesquisa do pessoal da Informática da UFPR.

Um espelho é um servidor que hospeda e distribui softwares — ou, no jargão técnico, os repositórios de softwares. Existem vários espalhados pelo mundo; o do C3SL é o maior do hemisfério Sul dedicado a software livre, um dos maiores do mundo. Nele estão distribuições Linux e seus pacotes, como Ubuntu, Debian e Fedora; aplicativos diversos, como Firefox, LibreOffice e KDE; e projetos como Open-WRT e Source Forge. Tudo de código aberto, ou seja, que qualquer pessoa pode analisar, usar, modificar e redistribuir sem pagar um centavo.

“A finalidade [dos espelhos] é aumentar a disponibilidade e a velocidade de acesso”, explica Carlos Alberto Martins de Carvalho, doutor pela Université Pierre et Marie Curie, pesquisador e responsável pela manutenção do espelho do C3SL/UFPR. O trabalho, prossegue, começou para uso próprio do grupo de pesquisa, para receber e distribuir o sistema operacional que os membros usavam (e ainda usam; o Debian). Aquilo acabou crescendo e, graças ao profissionalismo e à alta velocidade do servidor, virou referência.

O espelho do C3SL hospeda dezenas de softwares. Os repositórios mais populares em tráfego são os do Ubuntu e do Source Forge. O tráfego é sempre alto, mas varia bastante a depender de fatores externos. Quando há um lançamento de nova versão importante, por exemplo, ele sobe. “O mínimo é uns 3 Gbps”, diz Carlos, “mas às vezes, em picos, vai até 15 Gbps.”

A infraestrutura do espelho é enxuta e, como todo o C3SL, não gera custos à UFPR. Carlos é o único responsável pela manutenção, e nem é um trabalho em tempo integral. “É por isso que a gente consegue oferecer, porque se precisasse de dedicação exclusiva, mesmo que fosse de uma pessoa só ou ter várias pessoas, não seria viável”, diz. Depois de montado o espelho e integrados os repositórios, o trabalho consiste em monitoramento de problemas e novidades dos repositórios. “Precisa de supervisão diária, mas eu não gasto três horas por dia com isso.”

Em termos operacionais, o espelho do C3SL/UFPR é um servidor com muito disco (para abrigar todos os pacotes de softwares) e um link de internet fornecido pela Rede Nacional de Pesquisa (RNP), que é financiada pelos ministérios da Ciência e Tecnologia e da Educação e tem por objetivo fazer a conexão das redes das instituições de ensino superior públicas (e algumas particulares). “É graças a isso que a gente conseguiu fazer o serviço de espelho aqui”, esclarece Carlos.

Apesar do tamanho e da importância do espelho, ele não é o foco do C3SL. Pergunto a Carlos quais vantagens ou benefícios esse trabalho reverte ao grupo. “Nada, né?”, responde-me bem humorado, antes de dizer, a sério, que o benefício é indireto, serve para dar publicidade à comunidade do C3SL. “É exclusivamente prestação de serviço à comunidade.”

Monitoramento remoto

Se a face mais conhecida do C3SL tem pouco a ver com sua razão de existir, para que serve esse grupo de pesquisa, então? Marcos Sfair Sunye, doutor pela Université de Bourgogne, na França, também pesquisador do C3SL e professor na UFPR desde 1997, gentilmente elucidou essa dúvida.

O C3SL tem quase 20 anos de existência. É um laboratório de pesquisas e conta com 14 professores pesquisadores, todos da Informática com exceção do Carlos, que veio da Física. O C3SL costuma ter entre 40 e 60 bolsistas trabalhando, de mestrado e doutorado. “Sempre foi um grupo muito grande para os padrões brasileiros”, diz Marcos.

Isso é possível graças ao “modelo de negócio” do C3SL. O laboratório atende clientes da esfera pública e privada, mas em especial os da primeira. São essas demandas que financiam o C3SL, o que significa que notícias lamentáveis como o sucateamento do Ensino Superior nos últimos anos, promovido pelo governo de Jair Bolsonaro, não o afetaram tanto. “A gente nunca usou recursos da própria UFRP. O custeio da universidade, a gente nunca usou”, diz Marcos.

Um dos primeiros projetos do C3SL, que lhe rendeu projeção internacional e serviu de carta de apresentação para fechar contratos maiores com o Governo Federal, foi o Paraná Digital. Em 2006, 2007, o Paraná, à época governado por Roberto Requião, recebeu recursos do Banco Mundial para investir em tecnologia nas escolas. Decidiu, então, informatizar e conectar à internet todas as mais de 2,1 mil escolas públicas estaduais.,

Data center da UFPR: referência em software livre para todo o país. Imagem: Divulgação C3SL

O projeto previa o uso de uma distribuição Linux criada internamente pelo C3SL, um sistema de administração centralizado na capital Curitiba e o uso de fibra óptica para conectar as escolas. “Era um projeto que saltava aos olhos porque facilitava muito a manutenção remota, um problema recorrente em escolas públicas”, onde, ainda segundo Marcos, sempre faltava alguém para dar manutenção no parque de máquinas.

O C3SL se deparou com desafios à altura da dimensão e objetivos da demanda — basicamente, ou conecta todas as escolas ou não se faz nada. Entrou em cena um projeto de código aberto alemão de multiterminal, descoberto pelos pesquisadores, atualizado e adaptado à realidade brasileira. Com ele, tornou-se possível ligar quatro conjuntos de monitor, teclado e mouse a apenas um computador, o que representou uma economia gigantesca de recursos.

“A gente barateou muito o hardware. O C3SL otimizou esse projeto alemão, recuperou ele, fez um ‘fork’ dentro do grupo e conseguiu fazer a aquisição do hardware para as escolas para [uso em] multiterminal. Foi a primeira solução multiterminal em larga escala”, lembra Marcos.

Tudo que é feito no C3SL é publicado como software livre, com o código-fonte aberto. (Veja os repositórios.) Isso está no cerne do grupo, cuja atuação é norteada pela promoção de software livre. A solução multiterminal usada no Paraná Digital, por exemplo, anos depois foi usada por uma ONG alemã no Afeganistão. Sobrava verba, injetada pelos alemães, mas faltavam tomadas no país do Oriente Médio devido à precariedade da infraestrutura. “Uma coisa que a gente nem tinha pensado no projeto aqui”, reconhece Marcos. “Estávamos só economizando dinheiro da licitação.”

Desse primeiro grande trabalho, o C3SL conseguiu fechar novos contratos com órgãos do Governo Federal, como os Ministérios da Educação, da Saúde, da Cultura e das Comunicações. Com o MEC, desenvolveu o Proinfodata, uma espécie de versão em escala nacional do Paraná Digital. Foi ali que nasceu uma solução de monitoramento remoto que tornou o C3SL referência no assunto.

“Acontecia muito, naquela época, de o professor ficar com medo de usar as máquinas e elas acabarem fechadas [sem uso]. Como a gente tinha essa facilidade, um servidor central, conseguíamos ver se o pessoal estava usando ou não [os computadores]”, diz Marcos. “O MEC estava sendo pressionado pela CGU [Controladoria Geral da União] e a gente começou a usar a tecnologia que tínhamos aqui para fazer esse monitoramento à distância, supervisionar.”

“A gente não sabe o que eles querem fazer”

A relação do C3SL com o Governo Federal está num momento crítico, como quase tudo relacionado à educação pública. “Com esse governo atual [de Bolsonaro], estamos tendo uma dificuldade imensa de dar continuidade aos projetos”, desabafa Marcos. Segundo ele, faltam políticas públicas definidas pelos ministérios. “A gente não sabe o que eles querem fazer, é difícil ajudarmos.” Marcos acredita também que há uma desconfiança de Bolsonaro em relação a qualquer iniciativa que vise dar transparência à administração pública.

O pesquisador cita o monitoramento do GESAC como exemplo do descaso do Governo Federal. O programa oferece conexão gratuita à internet a telecentros, escolas, unidades de saúde, aldeias indígenas, postos de fronteira e quilombos — é direcionado a comunidades em vulnerabilidade social. “Chegaram a ter 11 mil conexões para regiões remotas, onde não chega nem fibra nem rádio”, diz Marcos.

O C3SL sempre fez o monitoramento do GESAC, cuja estrutura já foi fornecida pela Embratel e, hoje, é de responsabilidade da Telebrás. Para isso, desenvolveu um sistema próprio, o SIMMC. Na atual gestão, de Bolsonaro, o Ministério das Comunicações descontinuou o monitoramento do C3SL e contratou o serviço de uma empresa norte-americana, que não oferece a mesma transparência que o grupo da UFPR oferecia.

“Isso aí você não sabe direito o que está acontecendo, apesar de o projeto estar ativo até dezembro. Para você ver as coisas que estão acontecendo no governo federal”, diz Marcos.

O SIMCAQ, outro sistema desenvolvido pelo C3SL que simula o “custo-qualidade-aluno” e baliza investimentos de prefeituras e estados na educação pública, está sendo sucateado. “Foi uma batalha para conseguirmos manter o SIMCAQ no ar”, diz Marcos. “Hoje estamos mantendo meio que com recursos do C3SL e um pouquinho de outra coisa que chega.”

É assim que, mesmo sem depender de recursos da UFPR, o apagão do Governo Federal tem afetado o dia a dia do C3SL. As lacunas criadas desde 2019 têm sido compensadas com novos contratos com prefeituras e empresas privadas. Um deles, com a cidade de Curitiba, diz respeito a dados abertos, por exemplo. Outra frente, esta mais recente, foi o credenciamento junto ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) para que o departamento de Informática da UFPR possa receber recursos via Lei da Informática.

“Diversificamos muito a captação de recursos, até para não ficarmos dependentes do Governo Federal. Eu falo mais do Governo Federal porque é preocupante a troca que teve. Esses projetos com prefeitura, com governo estadual e com empresas, eles mais ou menos mantêm o que a gente tinha antes, mas… como a gente mantém muito projeto por fomento, então a gente não está com a vida fácil, vamos dizer assim. Mas estamos mantendo, estamos tocando a coisa para frente.”

O C3SL está sempre aberto a novos desafios, como coloca Marcos — e sempre devolvendo os resultados à comunidade, gratuitamente, na forma de software livre. “É um centro que não necessariamente faz projetos de pesquisa, acadêmicos. Temos feito vários projetos de desenvolvimento tecnológico, principalmente controle de projetos de infraestrutura de grande porte. Essa que é a nossa grande especialidade. Todo projeto que tem muita escala, fica muito difícil de ser controlado e monitorado, e a gente tem trabalhado com várias soluções quer empresas não conseguiram entregar, e a gente conseguiu depois. Esse acho que é a nossa principal conhecimento que a gente pode contribuir com mais força.”

Para saber mais do C3SL — projetos, disponibilidade de bolsas e contato —, visite o site oficial.

Para ler a reportagem no Manual do Usuário clique aqui.

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10 comentários sobre “Veja por que a UFPR é essencial para o software livre (e como Bolsonaro põe isso em risco)

  1. Robô detectado. Façam um esforço e leiam a íntegra do artigo. Nem que seja para conhecer um pouco mais sobre o trabalho desenvolvido, para, posteriormente, aí sim, apresentar as críticas.

  2. Excelente exemplo de servidores públicos prestando serviço de qualidade para a sociedade. A Universidade está aí para trabalhar junto com a sociedade, formar profissionais de excelência e ajudar a encontrar soluções. Porque gastar mais, contratando serviços de empresas estrangeiras?? esse é o governo que se diz patriota!

  3. Não sou Bolsonarista nem Lulista. Fiz uma graduação em Universidade Pública e escutei de um professor conservador que uma das coisas que ele admirava do governo da época, PT, foi a forma como estavam tratando as Universidades: tinha recurso disponível, salários bons e em dia, investimento em estrutura todo ano.

    O C3SL sempre foi referência em Software Livre e quem usa Linux como eu fica triste em ver uma notícia como essa.

  4. O resto do mundo está assentado em cima da universal plataforma do Windows, agora porque a UFPR acha que o melhor é o Linux e que o governo federal deve investir numa coisa que pssivelmente só a UFPR quem vai continuar a usar…
    É o mesmo sobre a tal vacina contra o Covid que eles anunciaram já até estar pronto, se os paranaenses estivessem nesta dependência já estaríamos todos mortos.

  5. Tradicionalmente, os governos brasileiros só investem migalhas no desenvolvimento da ciência no Brasil. De tanto conviver com esses absurdos, nós (brasileiros) descuidamos e permitimos a eleição de um ser ignorante, que despreza e destrói qualquer possibilidade de avanço científico. Considerando o cenário atual, a continuidade desse governo ou a mudança por uma das peças disponíveis hoje, não trará avanços consideráveis.

  6. O legal foi ver como o Molusco deixou as universidades. Viraram antros de formação de drogados e prostitutas diplomadas. São esses ogros nojentos que vão cuidar dos seus filhos no futuro. Muitos já estão na ativa.

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