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28 jun 2020 - 21h43

Negro, cotista e diplomado

Como o Afroatitude, um programa de apoio a cotistas raciais, ajudou a mantê-los na universidade, fortaleceu a luta contra o racismo e contribuiu para formar uma geração de mestres e doutores negros oriundos de famílias de baixa renda

Alexsandro nunca teve contato com o pai e foi criado apenas pela mãe, empregada doméstica; hoje é doutor e professor universitário. Mariana, filha de uma empregada doméstica e de um motorista de ônibus, cresceu numa família em que ninguém tinha curso superior; ela está fazendo pós-doutorado. Wellington era garçom e catava latinhas para ajudar nas despesas da casa, sustentada pela mãe, também doméstica; tornou-se doutor em Psicologia e dá aulas em uma universidade pública. Hélio, filho de um pedreiro com uma balconista, se vira em mil para conciliar o mestrado em Enfermagem com o trabalho em três estabelecimentos de saúde.

Essas são quatro histórias bem resumidas de brasileiros negros que, além da cor da pele e do fato de terem ingressado em universidades públicas pelo sistema de cotas, compartilham outra experiência: todos foram bolsistas do Brasil Afroatitude, um programa do governo federal que entre 2005 e 2008 (governo Luiz Inácio Lula da Silva) apoiou 500 cotistas negros com bolsas de iniciação científica e extensão no valor de R$ 241, o que equivaleria a pouco mais de R$ 500 hoje. O programa foi implantado em 10 universidades, com o objetivo de garantir a permanência desses alunos, incutir neles o gosto pela pesquisa e propiciar vínculos que os ajudassem a superar as dificuldades de inserção no meio acadêmico.

Nos últimos meses, tive contato com 31 ex-bolsistas do Afroatitude, de oito universidades públicas, entre estaduais e federais, na tentativa de traçar um desenho, ainda que parcial, das trajetórias de alguns beneficiados e das implicações do programa em suas vidas. O levantamento foi realizado graças a uma bolsa obtida por meio de um edital nacional lançado em 2019 pelo Itaú Social e Associação de Jornalistas da Educação (Jeduca).

O projeto inscrito no edital consistia em contar um pouco das trajetórias desses egressos antes e principalmente depois da graduação – já que nem o governo federal nem as universidades têm levantamentos dos rumos tomados pelos participantes do programa, que foi uma experiência inédita e não substituída depois por nenhuma outra iniciativa nos mesmos moldes. Dos 65 ex-bolsistas que localizei, 31 se dispuseram a responder a um questionário de três páginas, com 21 perguntas, e alguns ainda foram entrevistados depois, pessoalmente ou por videochamada.

Os relatos mostram como um programa barato – que em quatro anos custou algo em torno de R$ 3,5 milhões, em valores da época (pouco mais de R$ 8 milhões em valores atuais) – contribuiu para transformar a vida desses bolsistas, todos oriundos de famílias de baixa renda e, em geral, de baixa escolaridade.  

Passados 12 anos do encerramento do programa, agora exercendo suas profissões ou continuando os estudos, os entrevistados são unânimes em reconhecer a importância do Brasil Afroatitude, em três aspectos:

1. O programa efetivamente ajudou esses estudantes a se manterem financeiramente durante a graduação;

2. Quase todos os entrevistados disseram que o Afroatitude foi essencial para a construção e o fortalecimento de sua identidade negra e, por conseguinte, para o enfrentamento do racismo; e

3. O Afroatitude introduziu os estudantes no mundo da pesquisa, que, sem o sistema de cotas, provavelmente continuaria inacessível para a maioria.

Dos 31 ex-bolsistas que responderam ao questionário, 22 disseram que foram os primeiros de suas famílias a concluir um curso superior. E 26 continuaram os estudos depois de concluir a graduação, cursando especializações, nova graduação, mestrado, doutorado e/ou pós-doutorado. Vários deles são mestres e doutores cujos pais e mães não concluíram sequer o ensino fundamental ­– um indicativo que reforça como a educação, as políticas afirmativas e programas de apoio como o Afroatitude podem promover a mobilidade social para pessoas que de outra forma talvez não conseguissem superar as barreiras de uma sociedade desigual como a brasileira.

Resistência e críticas

Quando a criação do Afroatitude começou a ser discutida, em 2004, fazia pouco mais de um ano que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) passara a adotar políticas afirmativas, num movimento pioneiro no país. A Universidade de Brasília (UnB), primeira instituição federal a implantar cotas raciais, havia acabado de receber a primeira turma de aprovados por esse sistema, enquanto outras universidades (como a Federal do Paraná) se preparavam para adotar as cotas no ano seguinte.

Bolsistas participam de reunião do Afroatitude em 2007 (Acervo pessoal de Karen Bruck)

Assim, ao ser implantado, em 2005, o Afroatitude alcançou universitários da primeira leva de cotistas raciais do Brasil, num momento em que a resistência e as críticas às cotas ainda eram enormes em todo o país, inclusive dentro das universidades. Boa parte dos ex-bolsistas que entrevistei relata dificuldades de adaptação e situações de preconceito nas universidades.

A questão racial era tão marcante que minhas colegas brancas que haviam ingressado pelo sistema de cotas para escola pública nunca eram lembradas de sua condição de cotista; é provável que nem elas se lembrassem. Não obstante, colegas negros que nem sequer tinham utilizado as cotas eram identificados como cotistas”, conta Mariana Panta, que fez Bacharelado em Educação Física na UEL e hoje é pós-doutoranda em Sociologia na mesma universidade. “Na primeira confraternização entre estudantes calouros e veteranos, por exemplo, ouvi de um colega que as cotas fariam com que a UEL baixasse o seu nível de qualidade e excelência acadêmica pela entrada de alunos despreparados ou menos capacitados para ingressar no ensino superior.”

Não sofri discriminação direta, mas presenciei muita crítica velada, principalmente nos primeiros anos. Professores dizendo: ah, agora a qualidade do ensino vai cair. Havia um clima de torcida contra, esperando que os cotistas tivessem um desempenho pior, para que a elite estabelecida tivesse sua opinião validada”, relata Thiago Rodrigues de Paula, formado em Engenharia Florestal pela UFPR e hoje doutorando na mesma área e instituição.

Tive colegas de turma declaradamente contrários ao sistema, que nunca hesitaram em expressar suas posições”, afirma José da Paixão Júnior, formado em Direito pela UFPR e hoje sócio pleno de um escritório de advocacia trabalhista em Curitiba.

Hélio Henrique Alves da Silva relata vários episódios de preconceito durante a graduação em Enfermagem na UERJ, entre os quais um ocorrido já no dia do trote: “Estávamos três calouros, eu (preto), mais uma colega preta e uma branca de olhos claros, abordando gentilmente as pessoas em um ponto de ônibus no bairro do Méier (subúrbio do RJ) e fomos acusados de estar mentindo sobre nossa aprovação na universidade com a seguinte fala: ‘Ela (apontando para a caloura branca) eu até acredito que seja caloura de universidade, mas vocês dois eu duvido!!!’. Faço a ressalva que esta fala partiu de uma mulher negra que vendia doces no mercado informal”.

“Acendeu uma luz”

Muitos cotistas também enfrentavam dificuldades financeiras que ameaçavam a continuidade do curso. “Nos dois primeiros anos eu quase desisti, porque trabalhava como garçonete em um bar, e isso prejudicava o sono e rendimento no curso. Então resolvi me manter apenas com a bolsa do Programa AfroAtitude e, depois, da Fundação Araucária”, conta Neli Gomes da Rocha, uma piauiense que aos 18 anos deixou Teresina para “buscar uma vida melhor em Curitiba”, onde cursou Ciências Sociais na UFPR. Neli, que na época quase desistiu do curso, hoje é mestre em Sociologia e dá aulas em faculdades privadas.

Casos como o dela começaram a chegar aos defensores das políticas afirmativas no governo federal, e eles perceberam que era preciso ir além. “Conversando com reitores, eu fui descobrindo que um dos problemas dos alunos era a permanência”, lembra um dos “pais” do Afroatitude, Ivair Augusto Alves dos Santos, na época assessor especial da Secretaria Especial de Direitos Humanos, ligada ao Ministério da Justiça. “Uma reitora do Nordeste me disse: ‘O primeiro problema para o aluno cotista é chegar na universidade. Alguns não têm nem passe de ônibus’. Aí acendeu uma luz sobre uma coisa que era esperada, mas que eu não sabia que era tão séria.”

Santos – militante do movimento negro, mestre em Ciência Política e doutor em Sociologia – concluiu que era preciso também dar suporte para que os cotistas se integrassem efetivamente ao meio acadêmico e refletissem sobre sua própria condição: “Nós achávamos que eles precisavam entender por que estavam ali, precisavam assumir a ideia de grupo, e não havia um link que os aglutinasse”.

A fórmula pensada para tentar atender a todas essas necessidades foi inserir alunos cotistas em projetos de iniciação científica. Santos então levou a ideia à direção do Programa Nacional de DST/Aids, propondo que o Ministério da Saúde bancasse as bolsas. Em troca, os alunos beneficiados trabalhariam na pesquisa e divulgação de temas relacionados à prevenção e combate a essas doenças, articulando-os com a questão do racismo. Foi assim que nasceu o Brasil Afroatitude.

Além dos ministérios da Justiça e da Saúde (que utilizou recursos do Banco Mundial como principal fonte de financiamento do programa), o Afroatitude envolveu ainda os ministérios da Educação e de Direitos Humanos, por meio daSecretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR).

“Foi um programa inovador, barato e que teve resultados muito expressivos”, afirma a socióloga Karen Bruck, que coordenou o Brasil Afroatitude do início ao fim. Karen, que faz parte do quadro de servidores da UFRGS, na época estava cedida ao Programa Nacional de DST/Aids. De acordo com ela, o Afroatitude “foi decisivo para a permanência de muitos alunos cotistas e crucial para construção de identidades de grupo e resistência ao racismo recorrente e explícito nos primeiros anos de implementação das cotas”.

O professor Mário Ângelo Silva, que foi ativista da política de cotas e coordenou o Afroatitude na UnB, deu uma entrevista para esta reportagem antes de morrer, em março deste ano. De acordo com ele, o programa deu visibilidade política e institucional à questão do racismo: “As primeiras turmas de estudantes cotistas foram vítimas (como ainda hoje acontece) de expressões racistas partindo de professores, estudantes e servidores administrativos – o racismo institucional, relatado em reuniões e oficinas, em alguns casos denunciado. O grupo de estudantes do Afroatitude teve um papel fundamental no processo de inclusão e fortalecimento dos estudantes cotistas no ambiente universitário e acadêmico, como polo de resistência”.

A piauiense Neli, hoje mestre, comemora a graduação em Ciências Sociais na UFPR (Acervo pessoal).

Revelando pesquisadores

Outro aspecto comum nas avaliações sobre o Afroatitude é o fato de ele ter propiciado aos bolsistas experiências de pesquisa e extensão desde o primeiro ano de faculdade. “Nossa ideia era que professores assumissem a tutoria desses alunos, que assim sairiam com um currículo em melhores condições para competir no mercado de trabalho, continuar estudando e quem sabe fazer carreira na universidade. Queríamos criar uma certa unidade entre eles, para que não ficassem sozinhos, tivessem um professor que pudesse ajudá-los”, diz Ivair Santos.

A iniciação científica fez diferença, acho que pra todos os bolsistas, no direcionamento para a pesquisa, para a leitura e a escrita, para o entendimento do meio científico. Isso repercutiu no curso da vida de muitos bolsistas”, afirma Hélio Alves da Silva, carioca de 36 anos que, durante a graduação em Enfermagem, foi representante do Afroatitude na UERJ. Depois de ter concluído duas especializações, Silva hoje cursa o mestrado profissional em Atenção Primária à Saúde na UFRJ, mesmo trabalhando em três lugares diferentes, e planeja emendá-lo com o doutorado.

Minha participação no programa poderia ter sido melhor, pois me faltou leitura, maturidade, tempo. Mas o programa me ajudou a me tornar um pesquisador. Me ajudou a ler e a escrever para além da decodificação  e codificação”, relata Amilton Alves de Souza, que fez seis tentativas de ingressar na universidade até ser aprovado pelo sistema de cotas, já com 25 anos, para o curso de Letras/Espanhol da Universidade Estadual da Bahia (Uneb). Ele depois fez nova graduação, em Pedagogia. Hoje é coordenador pedagógico na Secretaria de Educação do estado da Bahia e cursa o doutorado em Difusão do Conhecimento na Federal da Bahia (UFBA).

O professor Frederico Fernandes, que coordenou o Afroatitude na Universidade Estadual de Londrina (UEL), afirma que o principal problema enfrentando foi a falta de “traquejo” de parte dos bolsistas para a pesquisa acadêmica, “o que fazia com que alguns deles não levassem a sério os grupos de pesquisa dos quais participavam”.

“Por outro lado, havia bolsistas geniais que se integravam plenamente ao modus operandi da pesquisa, produziram trabalhos excelentes de iniciação científica e deram continuidade no mestrado e doutorado”, contrapõe, dando como exemplos dois participantes do Afroatitude que foram seus alunos no curso de Filosofia.

Um deles é Marco Antônio Oliveira Nunes. Filho de uma dona de casa com um coletor de materiais recicláveis, Nunes conta que a bolsa do Afroatitude foi sua principal fonte de renda durante a maior parte da graduação. Ele conheceu o mundo da pesquisa estudando, sob a orientação do professor Frederico, as práticas poéticas de rappers, e depois prosseguiu no caminho fazendo mestrado. É professor de Filosofia em Londrina.

Medo da discriminação

O Brasil Afroatitude também enfrentou outras dificuldades. Ex-bolsistas relatam atrasos no pagamento das bolsas em alguns períodos e professores que coordenaram o programa contam que algumas universidades tiveram dificuldades para preencher as 50 vagas de bolsistas.

“No início sobraram bolsas, porque muitas pessoas tinham dificuldade de se identificar como cotistas raciais. Tinham medo de discriminação, de preconceito e preferiam imaginar que, não sendo bolsistas, não seriam identificadas dessa forma”, conta a médica Rita Esmanhoto, que coordenou o Afroatitude na Universidade Federal do Paraná, onde era professora do Departamento de Saúde Comunitária. “Ainda havia muita dúvida com relação à aceitação, ninguém queria ser tachado como cotista”, confirma o ex-bolsista Thiago Rodrigues de Paula, da UFPR.

Helio Alves, durante a graduação em Enfermagem na UERJ e hoje, em atividade no Complexo da Maré (Acervo pessoal)

Rita Esmanhoto relata o caso de uma aluna de Medicina que recebeu em casa uma correspondência convidando-a para participar do Afroatitude. “A mãe dela telefonou para dizer que o assunto das cotas estava encerrado e a família não queria mais discutir a questão”. Para Rita, “essa aluna provavelmente entrou e saiu da universidade do mesmo jeito, que não tem nada a ver com a política que propiciou que ela entrasse na universidade”.

Quase todos os ex-bolsistas que responderam ao questionário concordam que a descoberta ou fortalecimento da identidade negra foi um dos principais resultados do Afroatitude. Muitos deles dizem que a questão do racismo não era discutida em casa ou na comunidade onde viviam.

A gente morava numa casa de duas peças num loteamento em Araucária. Ali eu não conhecia ninguém que fez faculdade. Eu estava na minha bolha e não vivia esse conflito que um ambiente totalmente diferente traz. Com o Afro comecei a prestar atenção no tamanho do problema do qual eu fazia parte”, conta Thiago de Paula.

É um relato parecido com o do carioca Hélio Alves, que nasceu, cresceu e ainda vive em Queimados, município da Baixada Fluminense que as estatísticas apontam como um dos mais violentos do país: “Aqui na Baixada Fluminense a grande maioria das pessoas são negras. E se não são negras, todas têm quase o mesmo nível econômico. É todo mundo pobre, então não tem muita disparidade. No contato com coletivos de estudantes negros na UERJ, foi um choque observar, por exemplo, algumas falas que eu não percebia, inclusive reproduzia. Começou um processo de construção de identidade que eu acho que não termina”.

O Afroatitude fez eu me reconhecer como negra, entender as questões raciais e sua repercussão no dia a dia. Hoje me sinto muito feliz quando vejo que minhas pacientes se reconhecem em mim e acreditam que, assim como eu, podem ser o que quiserem”, diz a enfermeira Joyce Emanuelly da Silva Alves, formada pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e hoje trabalhando na rede de saúde de Salvador (BA).

BRASIL AFROATITUDE

Programa Nacional DST/Aids do Ministério da Saúde, Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República e Secretaria de Ensino Superior do MEC

Duração

2005 – 2008

Principais objetivos

Viabilizar a permanência dos estudantes na universidade Dar oportunidades de participação em atividades de iniciação científica
Fortalecer a autoestima dos alunos negros Combater o racismo e fortalecer as políticas afirmativas

Orçamento

Bolsas R$ 2,8 milhões
Outros custos* R$ 700 mil
Total 3,5 milhões
*Viagens de estudantes e coordenadores para participação em congressos e reuniões, viagens de técnicos para monitoramento dos projetos, publicações. (valor estimado pela coordenadora do programa, Karen Bruck)

Beneficiados com bolsas

500 alunos negros cotistas, de 10 universidades públicas:
  • Universidade Montes Claros – MG (UNIMONTES)
  • Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS)
  • Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
  • Universidade Federal do Paraná (UFPR)
  • Universidade de Brasília (UnB)
  • Universidade Estadual da Bahia (UNEB)
  • Universidade Federal da Bahia (UFBA)
  • Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG)
  • Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)
  • Universidade Estadual de Londrina (UEL)

Perfil dos entrevistados

31 ex-bolsistas, de 8 universidades,
consultados para esta reportagem (por meio de questionários e entrevistas)

  • 22 foram os primeiros de suas famílias a concluir um curso superior
  • 30 disseram que o Brasil Afroatitude foi importante para a permanência na universidade
  • 26 continuaram os estudos depois da graduação:
    • 13 – graduação e/ou especialização
    • 5 – mestrado (concluído ou em andamento)
    • 7 – doutorado (concluído ou em andamento)
    • 1 – pós-doutorado

O fim do programa

O Brasil Afroatitude recebeu vários prêmios ao longo de sua existência. Apesar disso e dos bons resultados que mostrava, não teve continuidade. “Eu tentei conseguir parcerias com outros ministérios, mas não consegui”, relata Ivair Alves dos Santos, que foi um dos criadores do programa. A UnB decidiu assumir o Afroatitude como uma política própria, que se mantém até hoje, mas com outra configuração.

Não existe uma avaliação final, consolidada, sobre os resultados do programa em todas as universidades, mas algumas publicações pontuais com balanços feitos pelas próprias instituições, além da tese de mestrado da socióloga Karen Bruck, coordenadora do programa, na Escola Nacional de Saúde Pública, ligada à Fiocruz.

Karen fez um estudo sobre o primeiro ano de implantação do Afroatitude na UnB. Com base em entrevistas e análise de documentos, ela concluiu que o programa atingiu seus objetivos nos critérios de permanência, desempenho e envolvimento dos bolsistas. Segundo o estudo, no período estudado (dezembro de 2005 a agosto de 2006) “não houve desistência de curso nem abandono da universidade por nenhum dos 50 alunos participantes do programa (…) e a grande maioria cumpriu os compromissos assumidos com a bolsa e permaneceu como bolsista do programa”.

Depois da Lei de Cotas

Doze anos depois do encerramento do Brasil Afroatitude, a realidade nas universidades públicas é outra. As políticas de reserva de vagas, que antes eram iniciativas isoladas de universidades ou governos estaduais, tornaram-se obrigatórias depois da Lei nº 12.711/2011, conhecida como Lei de Cotas.

Um estudo publicado no ano passado pelos pesquisadores Adriano Souza Senkevics e Ursula Mattioli Mello mostra que o percentual de pretos, pardos e indígenas no total de alunos das instituições federais de ensino superior (Ifes) passou de 33,9% em 2012 para 42,7% em 2016 – um aumento de 26%, enquanto no mesmo período a participação desse grupo demográfico na população total cresceu 8%. Apesar desse avanço, pretos, pardos e índios continuam sub-representados no ensino superior público: são 54,3% da população total e 42,7% nas Ifes.

Senkevics afirma que os dados mostram um avanço inegável na inclusão de grupos menos privilegiados no ensino superior, mas destaca que os desafios ainda são grandes – e a permanência é um deles. “Passado este momento de crise, precisamos continuar ampliando o acesso ao ensino superior e garantir a ocupação das vagas e permanência dos estudantes de extratos menos favorecidos, por meio de políticas de assistência estudantil”.

Para o pesquisador – que é doutorando em Educação na USP, trabalhando numa tese sobre a democratização do ensino superior, e atualmente está na Universidade de Toronto como aluno visitante –, “é preciso mostrar melhor para a sociedade o que aconteceu nas universidades em decorrência das cotas, mostrar que não houve piora da qualidade. Qualquer mudança na legislação é parte natural do processo de aprimoramento da política, mas não pode deslegitimar um iniciativa importante, politicamente complicada e que é uma vitória da sociedade e da juventude brasileira”.

Para Ivair Santos, o fim do Afroatitude “deixou uma lacuna grande, pois a permanência sempre será um problema para o estudante que vem de uma condição econômica insuficiente pra se manter na universidade”.

“Tudo no Brasil parece começar e acabar sem um porquê e isso se torna um verdadeiro desperdício de tempo e talento”, critica o professor Frederico Fernandes, da UEL. “Todo ser humano possui talentos e um país que não oportuniza ao jovem condições para seu desenvolvimento educacional e social está fadado à violência e à miséria.”

*Colaborou Jorge Eduardo Mosquera

O projeto desta reportagem foi o único do Paraná entre os oito vencedores de um edital de bolsas lançado em setembro de 2019 pelo Itaú Social e Associação de Jornalistas da Educação (Jeduca). O objetivo foi viabilizar a produção de reportagens que colaborem para o debate público sobre a melhoria da educação pública brasileira.

Leia amanhã: “Por que eles não conseguiriam?”

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