Morte e surtos por Covid em Casas Lares de Araucária | Jornal Plural
30 abr 2021 - 20h05

Morte e surtos por Covid em Casas Lares de Araucária

Um menor morreu e outra continua internada; foram 14 contaminações na mesma instituição em abril

As únicas duas casas de acolhimento – Casas Lares – de crianças e adolescentes em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, enfrentam surtos de Covid-19 entre seus funcionários e acolhidos. Em uma delas são 4 – sendo uma garota hospitalizada – e na outra Casa são 14 positivados para a doença somente neste mês de abril – 8 servidores e 6 menores. Um deles, um adolescente de 17 anos, morreu ontem (29) após 11 dias internado.

As informações são do Sindicato dos Funcionários e Servidores Públicos de Araucária (Sifar) e foram confirmadas pela Prefeitura de Araucária – que diz estar adotando todas as medidas e protocolos de segurança – e pelo Ministério Público do Paraná (MPPR) – que acredita não haver a necessidade da adoção de “medidas extremas” para conter os casos, estando a situação “sob controle”.

As condições sanitárias irregulares das casas de acolhimento, no entanto, já foram denunciadas anteriormente pelos servidores, apontando a falta de condições para evitar a propagação do vírus em caso de contaminação. As Casas Lares são instituições mantidas pelas Prefeituras para abrigar crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, a maioria retirada de suas famílias por serem vítimas de maus-tratos.

Pelo levantamento do Sifar, na Casa 1 (que abriga 8 meninas), dois trabalhadores e duas menores foram contaminados ao mesmo tempo. Desde o início da pandemia, 11 trabalhadores do local já testaram positivo para coronavírus.

Na Casa 2 (que abriga 8 meninos), o surto de Covid-19 foi caracterizado, segundo o Sifar, com 8 trabalhadores e 6 acolhidos contaminados juntos. Destes, um deles, um rapaz de 17 anos, foi hospitalizado no dia 18 de abril e faleceu ontem (29) no Hospital de Reabilitação, em Curitiba.

O sistema de obituários da Capital confirma a morte do rapaz – que não terá o nome divulgado – e seu enterro “direto”. Procurada, a funerária responsável confirmou que não houve velório por ter sido mais uma morte causada pelo coronavírus.

“A casa dos meninos tem uma área com pouca ventilação e acredito que aquele ambiente era propício para disseminação. Os quartos ficam nos fundos e para chegar lá tem que passar por um corredor estreito, com janelas pequenas que não permitem a passagem do ar. Assim como nos quartos. O menino que faleceu usava o mesmo banheiro de todos e passava sempre por este corredor”, conta uma fonte que prefere não se identificar.

Ofício

No dia 20 de abril, o Sifar enviou um ofício (42/2021) ao representante do Ministério Público em Araucária, o promotor David Kerber de Aguiar, da 2ª Promotoria de Justiça, expondo os casos de Covid-19 entre os acolhidos e os trabalhadores das duas Casas Lares. “Tal situação caracteriza-se como surto, necessitando de providências urgentes a fim de viabilizar o isolamento, o devido tratamento e barrar a contaminação dos que permanecem sadios”, diz o requerimento.

 “A estrutura da Casa 2, especialmente na parte dos quartos dos acolhidos e na sala de descanso dos educadores, não é arejada, tem pouca disponibilidade de janelas, o que restringe a ventilação no ambiente.”

Foram apontados, ainda, dificuldades para o isolamento dos contaminados. “A estrutura precária, por sua vez, não permite o adequado distanciamento entre os acolhidos e nem destes dos profissionais que os atendem, nem dos profissionais entre si, nem a ventilação e arejamento adequado, necessitando ainda de mais áreas externas do que atualmente há. A estrutura local, por exemplo, não permite o isolamento individual do acolhido em seu quarto, com acesso a mecanismos próprios para distração individual para passar período tão sofrido.”

Carta Aberta

Os riscos de contaminação por coronavírus entre os servidores, em especial os da Assistência Social, também foram expostos em uma Carta Aberta encaminhada para a Prefeitura de Araucária, em março de 2021. Nela, os trabalhadores lembram o papel dos assistentes sociais no atendimento à população em vulnerabilidade e pedem a inclusão da categoria na vacinação contra a Covid-19.

“Nós estamos mais expostos e nos contaminando cada vez mais. E, pior, de uma doença que já possui vacina. As instituições de longa permanência (como as Casas Lares) são um risco iminente de surto, um profissional que contraia o vírus e circule na população antes de ter sintomas, é um vetor perigoso.”

Plano de Contingência

Procurada pelo Plural, a Secretaria de Assistência Social de Araucária confirmou que, no mês de abril, foram contaminados 8 servidores efetivos e 6 acolhidos da Casa 2, mas que vem adotando todas as medidas e protocolos de segurança para atendimento e apoio de todos, o que inclui máscaras, álcool, luvas, touca e avental para os trabalhadores da unidade.

“A Casa de Acolhimento 2 possui Plano de Contingência e o espaço foi reorganizado conforme orientação da Vigilância Sanitária no que diz respeito às medidas de prevenção. A SMAS permanece acompanhando e monitorando os processos de trabalho para mitigar os impactos da pandemia junto aos trabalhadores e usuários dos serviços”, diz a nota.

Situação “sob controle”

O promotor de Araucária, David de Aguiar, não quis dar entrevista. Em nota, o MP informou que acompanha o trabalho de prevenção nas duas casas por meio de um procedimento administrativo. “No momento, embora tecnicamente possa se falar em surto (ao menos três contaminados no período de 14 dias), a situação é considerada sob controle.”

“Em uma das casas lares, há três educadores afastados por suspeita de terem contraído o vírus, mas nenhum adolescente atingido, o que significa que, fisicamente, não há infectados no local. Na outra casa, são duas acolhidas contaminadas, sendo que uma está internada e a outra em isolamento”, diz a nota.

“Diante desse cenário, e apesar de nesta sexta-feira, 30 de abril, ter sido registrada, lamentavelmente, a morte de um adolescente acolhido em uma das casas, que estava internado, a Promotoria entende que não há necessidade da adoção de medidas extremas para o controle dos casos e se solidariza a todos os acolhidos e servidores que diariamente estavam ao lado do adolescente que faleceu. A situação continuará sendo monitorada nas duas casas lares, com a adoção de outras providências caso seja necessário”, conclui o Ministério Público.

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Um comentário sobre “Morte e surtos por Covid em Casas Lares de Araucária

  1. Mais uma matéria excelente. Valeu Plural.
    Curitiba e a RMC continuam sendo assoladas por esta praga, que tem, dentre seus aliados, as falas e as políticas das autoridades.
    Resta continuar documentando os discursos, o descalabro, a tragédia e o genocídio.

    14 contaminações numa mesma instituição. Um adolescente morto. Porque as condições objetivas e a infraestrutura não permitem os cuidados necessários. Quantas mais situações assim que passam sem serem documentadas, registradas e tornadas públicas. (Ora! São pobres, afinal.)

    A ladainha “vem adotando todas as medidas e protocolos de segurança…” continua sendo repetida ad nauseam (álcool em gel e limpeza cândida de superfícies, enquanto que o vírus se propaga vorazmente pelo ar).

    As declarações do tipo “não há necessidade da adoção de medidas extremas para o controle dos casos” demonstram o grau de normalização da barbárie.

    Cá entre nós, continuo acreditando – como bem dizia a minha avó – que “extrema é a morte”. Repita-se o que deveria ser o óbvio: toda e qualquer autoridade, em toda e qualquer circunstância, deveria adotar toda e qualquer medida – inclusive as extremas – para promover, cuidar e salvar a vida.

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