Esse lugar também é meu | Jornal Plural
Clube Kotter
29 jun 2020 - 21h57

Esse lugar também é meu

Trajetórias de 31 ex-bolsistas do Brasil Afroatitude mostram o acerto da premissa do programa: integrantes da primeira leva de cotistas raciais do país, esses estudantes precisavam de apoio para se afirmar e aproveitar seu potencial intelectual

A médica e professora aposentada Rita Esmanhoto responde sem hesitar quando questionada sobre o que sente ao ter notícias das conquistas de pessoas que entraram na universidade pelo sistema de cotas e participaram do Brasil Afroatitude, programa que ela coordenou na UFPR: “É legal saber, mas não é surpresa. Eu sabia que eles teriam essa trajetória. Por que não teriam?”

A frase de Rita exprime, de certa forma, a crença que sustentou o Afroatitude, programa do governo federal que entre 2005 e 2008 apoiou com bolsas de iniciação científica e extensão 500 estudantes da primeira leva de cotistas negros que chegou às universidades públicas: esses estudantes, quase todos oriundos de escolas públicas e de famílias de baixa renda e baixa escolaridade, precisavam de suporte para permanecer na universidade e aproveitar seu potencial intelectual. O programa beneficiou 500 cotistas de 10 universidades, entre estaduais e federais.

Embora não possam ser olhadas como uma avaliação geral do programa, as informações dos 31 ex-bolsistas que servem de base para esta reportagem mostram que, pelo menos para eles, o objetivo foi em grande parte alcançado.

Muitos desses participantes têm trajetórias parecidas, marcadas por dificuldades financeiras, impossibilidade de acesso ao ensino básico de qualidade e “falta de familiaridade com capitais culturais, como língua, literatura, filmes, etc.“, como destaca Alexsandro Eleotério Pereira de Souza, professor universitário que participou da primeira turma do Afroatitude na Universidade Estadual de Londrina, onde cursou Ciências Sociais.

Souza, que hoje detém dois títulos de doutor (em Ciências Sociais e em Política Social, ambos obtidos com estudos relacionados a relações raciais e ações afirmativas), foi criado pela mãe, empregada doméstica, e nunca teve contato com o pai. Ele tentou ingressar na universidade duas vezes antes de ser admitido por cotas. Durante o curso, trabalhou como auxiliar de telemarketing e como garçom. Pensei em desistir. Tive dificuldades pedagógicas, de aprendizado, além de questões financeiras e cansaço devido ao trabalho, lembra.

Mas não desistiu, e o Afroatitude teve um papel importante nisso, não apenas por causa da bolsa. O dia a dia em meio a estudantes com realidades sociais, raciais, econômicas e psíquicas semelhantes à minha propiciou-me um espaço de acolhimento fundamental. Além disso, o acesso a material bibliográfico sobre a questão racial foi um divisor de águas em minha trajetória, me fortalecendo individualmente e me fazendo compreender que só coletivamente eu poderia enfrentar minhas inseguranças, despertadas particularmente pelo racismo vivido.

O Brasil Afroatitude buscou apoiar cotistas negros em três aspectos: financeiramente, por meio de uma bolsa de R$ 241,00 mensais (o equivalente a pouco mais de R$ 500,00 em valores atuais); proporcionando espaços de convivência que permitissem aos estudantes refletir sobre sua condição e seus desafios; e oferecendo a possibilidade de participar de projetos de iniciação científica, de forma a reforçar seus vínculos com a universidade e com a pesquisa.

Bolsistas do Afroatitude durante encontro nacional de representantes. Crédito da foto: acervo Karen Bruck

As dez universidades participantes tiveram autonomia para desenvolver o programa, mas deveriam atender algumas exigências da coordenação nacional: “Os bolsistas deveriam trabalhar em projetos de pesquisa, extensão ou monitoria, e não em atividades administrativas. Outra exigência era que houvesse momentos de formação e de convivência, para criar um espírito de grupo e ajudar no fortalecimento da identidade. E o foco obrigatoriamente deveria ser Aids e racismo”, explica Karen Bruck, que foi a coordenadora nacional do Afroatitude.

Na prática, nem todos os bolsistas trabalharam com os temas propostos pela coordenação nacional, como indicam as respostas ao questionário e como avalia o professor Frederico Fernandes, que coordenou o programa na Universidade Estadual de Londrina (UEL): “Uns 20% das bolsas eram efetivamente empregadas nesse tema. Agora, da perspectiva socioeducacional, o programa mudou a vida de muita gente e permitiu abrir para o aluno cotista um outro horizonte de possibilidades de atuação social e de pesquisa participativa”.

Entre os 500 bolsistas do Afroatitude estavam universitários de todas as áreas do conhecimento: Humanas, Saúde, Tecnologia, Sociais Aplicadas, Exatas, entre outras. Em muitos casos, os coordenadores enfrentaram resistências de professores e dirigentes das universidades na implantação do programa. “Os coordenadores foram verdadeiros heróis da resistência”, afirma Karen Bruck.

Ao longo dos quatro anos de vigência, professores e estudantes participaram de uma série de eventos, como encontros nacionais e mostras de trabalhos específicos do Afroatitude, além de congressos e seminários de várias áreas, para os quais levaram sua experiência com o programa, nas suas três dimensões, conforme detalhado a seguir.

Incentivo à pesquisa

A defesa da tese de Wellington Oliveira dos Santos no doutorado em Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 2017, foi uma celebração coletiva. Primeiro egresso do programa Brasil Afroatitude na instituição a obter o título de doutor, ele atraiu para a plateia de sua defesa ex-colegas, ativistas do movimento negro e professores, que compartilharam o espaço com a mãe de Wellington, Lucinda, emocionada e orgulhosa da trajetória do filho, que criou sozinha com sua renda de doméstica e cozinheira, em Colombo, região metropolitana de Curitiba.

A tese de Wellington, professor de Psicologia da Educação da Universidade Estadual de Goiás, é um estudo comparado entre políticas educacionais antirracistas no Brasil e na Colômbia – confirmando a escolha de direcionar seus esforços de pesquisador para questões raciais, desde a monografia da graduação. “Aprendi que argumentar que os negros são minoria na mídia brasileira, algo que eu sabia há anos, não bastava: era preciso pesquisar, interpretar, qualificar e quantificar os espaços ocupados de um modo que fosse possível ser verificado por outros estudiosos – em outras palavras, era preciso fazer ciência”, escreveu na introdução de sua dissertação de mestrado.

“Ele vem colocando seu investimento intelectual num tema que é muito importante não apenas para a comunidade negra, mas para o país”, disse o professor Paulo Vinícius Baptista da Silva, orientador de Wellington no mestrado e no doutorado e atualmente superintendente de Inclusão, Políticas Afirmativas e Diversidade da UFPR.

A professora Maria Tarcisa Silva Bega, que era vice-reitora quando a UFPR discutiu e aprovou o Plano de Metas de Inclusão Social e Racial e trabalhou diretamente na implantação do Afroatitude, integrou a banca examinadora do doutorado e, em entrevista ao portal da universidade, destacou o simbolismo da conquista de Wellington: “Ter um doutor negro, cotista, se titulando na UFPR representa o sucesso da política e sua função social no combate ao preconceito e à intolerância. Indica, para a comunidade negra, interna e externa, que estes jovens podem sonhar e efetivar seus sonhos. E demonstra, da parte dessa primeira turma de cotistas, alta capacidade de resiliência e de mobilização para a luta cotidiana dentro dos espaços da instituição”.

Às conquistas acadêmicas se somaram conquistas simbólicas, como a oportunidade de viajar de avião, então inédita para muitos bolsistas. Eu fui participar de um curso de manejo florestal no Inpa, em Manaus. Foi a primeira vez que alguém da minha família andou de avião. Por sorte, naquela época podia parcelar passagem aérea no boleto. Peguei uma promoção, parcelei em 20 vezes, pagando R$ 39 por mês, e fiquei 45 dias em Manaus”, recorda Thiago Rodrigues de Paula, hoje doutorando em Engenharia Florestal, que depois de formado deu aulas como voluntário em um cursinho pré-vestibular gratuito para “retribuir tudo o que a universidade pública fez por mim”. A universidade e o Afroatitude me abriram o mundo e me fizeram entender que esse lugar também é meu.”

Integrantes da primeira leva de cotistas da UFPR reunidos no pátio da Reitoria da universidade. Crédito da foto: acervo de Neli Gomes da Rocha

Assim como Wellington e Thiago, outros bolsistas do Afroatitude encontraram no programa o início de um caminho para o estudo e a pesquisa, para além da graduação:

O programa foi fundamental para a minha trajetória acadêmica, pessoal e profissional. Fui da primeira turma de cotas. O ambiente hostil as incertezas e a torcida para o fracasso das cotas foi o clima que encontramos, mas superamos por meio da convivência e apoio dos professores e funcionários que nos deram suporte. Por meio do programa olhamos para a universidade com olhar de pertencimento, tivemos experiências inesquecíveis e uma formação mais humana.

Kaciane Daniella de Almeida – Graduada em Ciências Sociais pela UFPR, mestre e doutora em Tecnologia e Sociedade, foi a primeira da família a concluir um curso superior.

O Afroatitude foi o primeiro projeto de pesquisa em que me envolvi, logo no começo da graduação. Ele me permitiu conhecer o meu espaço dentro da instituição e facilitou o prosseguimento do curso, com apoio da Cris (Ribeiro, da coordenação do programa), da professora Rita (Esmanhoto, coordenadora do programa na UFPR) e professor Nizan (Pereira, então titular da Secretaria de Estado de Assuntos Estratégicos, que apoiou o Afroatitude).

Thiago Rodrigues de Paula – filho de um pintor industrial e uma doméstica, graduou-se em Engenharia Florestal na UFPR, é mestre na área e bolsista Capes no doutorado em Engenharia Florestal – Economia e Política.

O Afroatitude possibilitou a convivência com estudantes cotistas de diferentes áreas, permitiu intercâmbio acadêmico pelo Brasil com apresentação de trabalho de pesquisa em seminários, simpósios, congressos, ampliou minha rede de relações com pessoas de diferentes universos sociais, crenças, valores, e permitiu superar limitações para falar em público e escrever, além de dar acesso a uma língua estrangeira (inglês).

Neli Gomes da Rocha – filha de uma dona de casa e um comerciante, graduou-se em Ciências Sociais na UFPR e fez mestrado em Sociologia na mesma instituição.

Através do AfroAtitude, aprendemos o que era pesquisa, desde a elaboração e execução de projetos, extensão e trabalho interdisciplinar.

Joyce Emanuelly da Silva Alves – filha de uma professora e um autônomo e mãe, é graduada em Enfermagem pela UFAL e especialista em Saúde da Família. É enfermeira da rede pública municipal de Salvador (BA).

Através desse projeto participei de vários cursos de aprimoramento, com destaque aos treinamentos para realização de ações de prevenção das DSTs/AIDS junto à comunidade universitária e capacitações sobre a questão racial; integrei projetos e grupos de pesquisa nos quais tive a oportunidade de enriquecer minha formação e compreender minha própria história; viajei para diferentes cidades e participei dos primeiros eventos científicos.

Mariana Aparecida dos Santos Panta – filha de um motorista de ônibus de turismo e uma doméstica, tem bacharelado em Educação Física pela UEL, é mestre e doutora em Ciências Sociais e bolsista Capes de pós-doutorado. Pesquisa temas relacionados à população negra e segregação urbana.

Nos desenvolvemos para que hoje fôssemos profissionais mais seguros e melhor qualificados para enfrentar as barreiras éticas e morais de nossa sociedade. Alguns colegas não conseguiram se desenvolver tanto, por terem maiores dificuldades em lidar com o racismo; outros foram longe e hoje são doutorandos ou doutores e conseguiram dar outra qualidade de vida às suas famílias.

Ariane Cristina Ferreira de Souza – filha de um casal de professores da rede pública estadual do Paraná, formou-se em Nutrição na UFPR e depois fez graduação em Dança e uma pós-graduação.

Apoio financeiro

O valor das bolsas pagas pelo Afroatitude não era expressivo, mas nove dos 31 ex-bolsistas que responderam ao questionário-base desta reportagem disseram acreditar que, sem esse auxílio de R$ 241 na época (em torno de R$ 500 em valores atuais) não teriam conseguido concluir a graduação. Entre os que disseram que teriam concluído de qualquer maneira, vários destacam que, sem a bolsa, teriam precisado fazer ainda mais sacrifícios.

O valor financeiro que eu recebia do programa determinou que eu pudesse custear passagens e alimentação durante os anos em que não trabalhei como técnico de enfermagem.

Hélio Henrique Alves da Silva – filho de um pedreiro e uma balconista, é enfermeiro formado pela UERJ, gerente do Centro Municipal de Saúde Athayde José da Fonseca, no Rio de Janeiro, e mestrando em Atenção Primária à Saúde na UFRJ.

Antes de receber a bolsa da universidade, por diversas vezes faltava-me dinheiro para transporte e/ou alimentação, me obrigando a “dar coleto” no transporte público e passar dias inteiros apenas com lanches, lembrando que na época ainda não havia o refeitório para os alunos e o curso era integral.

Edinaldo Bezerra dos Santos Junior – enfermeiro pela UERJ, filho de pedreiro e cozinheira/empregada doméstica, formou-se em Enfermagem na UERJ e hoje é oficial enfermeiro no Corpo de Bombeiros Militar do Rio de Janeiro.

O auxílio financeiro proveniente da bolsa contribuiu significativamente para que eu pudesse concluir os primeiros anos da graduação.

Mariana Aparecida dos Santos Panta – filha de um motorista de ônibus de turismo e uma doméstica, tem bacharelado em Educação Física pela UEL, é mestre e doutora em Ciências Sociais e bolsista Capes de pós-doutorado. Pesquisa temas relacionados à população negra e segregação urbana.

O programa foi de fundamental importância para a minha permanência na universidade uma vez que a bolsa ajudava nos custos com materiais, xerox, alimentação e transporte.

Ariane Cristina Ferreira de Souza – filha de um casal de professores da rede pública estadual do Paraná, formou-se em Nutrição na UFPR e depois fez graduação em Dança e uma pós-graduação.

A questão financeira era uma grande dificuldade porque dependia da ajuda de meus pais que possuíam um renda baixa, e como o curso era no período da tarde era difícil conseguir emprego em meio período. Com o auxílio recebido eu pude custear alguns gastos na faculdade, bem como no cotidiano para me manter financeiramente.

Alexandre Quaresma Fonseca – filho de trabalhador rural e uma professora, cursou Letras/Inglês na Unimontes. É policial militar em Minas Gerais.

Sou de origem pobre, minha mãe era provedora do lar, pois o meu pai faleceu aos 45 anos, quando eu tinha 8 anos de idade. Minha mãe criou 4 filhos sozinha e, com exceção da minha irmã, entramos na faculdade no mesmo ano. Dos 4 irmãos, eu fui a única a estudar em universidade pública, porém era em outro município do estado, o que acabou gerando custos adicionais. Mas com o Programa Afroatitude, minha mãe pode administrar melhor os gastos e eu passava o mês com R$ 300, sendo R$ 240 da bolsa e R$ 60 que minha mãe depositava.

Érica Bento Bernardes – filha de um auxiliar de escritório e uma professora, cursou Enfermagem na UEMS. Depois da graduação concluiu três especializações. É enfermeira da rede pública do Mato Grosso do Sul, no município de Naviraí.

Fortalecimento da identidade negra

Esse foi um aspecto destacado por quase todos os 31 bolsistas com os quais tive contato. “Muitos alunos negros começaram a entender por que estavam na universidade, o que tinha possibilitado sua chegada lá. Muitos não conheciam a história do movimento negro nem dos programas de ação afirmativa. Então passou a existir um espaço de convivência onde eles podiam fazer reflexões”, afirma Ivair Augusto Alves dos Santos, que como assessor especial da Secretaria Especial de Direitos Humanos, ligada ao Ministério da Justiça, foi um dos idealizadores do Afroatitude.

A baiana Aurelielza Nascimento Santos, a Léa, conta que a participação do Afroatitude foi essencial para sua formação como militante da área de direitos humanos e questões raciais. Filha de um técnico de enfermagem leigo e uma doméstica, ela cursou Licenciatura em Geografia na Universidade Estadual da Bahia (UNEB), na qual ingressou depois de cinco tentativas feitas antes da adoção das cotas.

Nesse período, ela escreveu um artigo intitulado “Afroatitude: a raiz ancestral fez território em mim”, no qual resume a experiência com o programa: “Fomos desafiados a pesquisar, a conquistar o lugar de falar, a desenvolver atividades de extensão nas nossas comunidades e nos diversos territórios vulneráveis e silenciados. Adquirimos autonomia, comprometimento social, enegrecemos as universidades, construímos nossa identidade para enfrentarmos as dores e as delícias do mundo acadêmico”.

Em 2008, Léa foi uma das homenageadas com o Prêmio Direitos Humanos na categoria Igualdade Racial, pela sua luta pela igualdade racial, pelas ações afirmativas e pela saúde da população negra, incluindo a militância no Afroatitude. Hoje ela é professora substituta de Geografia no Instituto Federal da Bahia, ao mesmo tempo em que conclui o mestrado em Educação e Contemporaneidade na UNEB.

O programa foi fundamental para possibilitar a permanência na universidade, mas também por proporcionar um ambiente e espaço de fala, escuta, representatividade, agrupamentos e pesquisas específicas voltadas para as demandas da população negra local e nacional.

Marco Antônio Oliveira Nunes – filho de uma dona de casa e um coletor de materiais recicláveis, graduou-se em Filosofia na UEL. É professor de Filosofia e mestre em Educação, com uma dissertação sobre a autonomia como pressuposto ético, com base na obra de Paulo Freire.

O programa veio reforçar para nós mesmos nossa importância na sociedade, e nos deu visão ampla para enfrentarmos qualquer desafio.

Claudia de Souza – filha de uma dona de casa com um cuidador de fazenda, fez graduação em Enfermagem na UEMS e, depois de duas pós-graduações, está iniciando o mestrado em Saúde da Família.

Para além da importância da bolsa, o Afroatitude me fez entender a questão racial – “ser preto” – e me inseriu no mundo acadêmico da pesquisa científica, sem o programa talvez eu tivesse prosseguido um caminho profissional diferente.

Hélio Henrique Alves da Silva – filho de um pedreiro e uma balconista, é enfermeiro formado pela UERJ, gerente do Centro Municipal de Saúde Athayde José da Fonseca, no Rio de Janeiro, e mestrando em Atenção Primária à Saúde na UFRJ.

Foi importante o ajuntamento com os demais cotistas em um momento de efervescente discussão e muita resistência por parte da própria universidade; conhecer outras pessoas que passaram por experiências semelhantes a minha e ressignificar diversas experiências.

Crisfanny Souza Soares – graduada em Psicologia pela UFPR, hoje cantora e coordenadora de projetos de impacto da OCIP Aliança Empreendedora.

O programa Afroatitude, através dos estudos e das interações sociais, me ajudou a fortalecer minha identidade e me assumir como negro, além de me encorajar a adotar postura militante pela causa e a não me calar diante das inúmeras situações de racismo para comigo e com meus pares.

Edvando Eduardo Gomes da Silva – graduado em Engenharia Civil pela UFPR, gerente de obras e pós-graduando em Estruturas de Concreto e Fundações.

O programa foi muito importante na minha vida acadêmica. Me proporcionou primeiramente a oportunidade de permanecer na universidade através do programa de bolsas e, além disso, pude me conhecer como afrodescendente, como negro. Pude entender muitas questões raciais, a importância dessas discussões, e me deu embasamento para ser um defensor das cotas e mostrar para outras pessoas a importância disso.

Felipe Rodrigues do Nascimento – filho de um ator e uma empresária, graduado em Agronomia pela UFPR, é gerente de produção e responsável técnico em uma indústria de fertilizantes.

Era o primeiro ano das cotas e muitos professores deixaram claro que eram contra esse sistema já no primeiro dia de aula. Então o grupo foi necessário. Aprendi sobre saúde, aprendi a trabalhar com tanta gente de diferentes áreas. Me tornou mais segura para falar e não aceitar preconceitos, além de ficar mais questionadora. O sucesso de cada um dos meus amigos feito neste grupo virou o meu. Só agradeço por tudo.

Flávia Martins Abdalla – pai autônomo e mãe chefe de cozinha. Graduada em Nutrição na UFPR, fez duas pós-graduações e é nutricionista na rede municipal de saúde de Campo Largo (PR).

O Afroatitude foi muito mais do que uma mera fonte de financiamento. Ele se configurou como um espaço de integração social, de construção e afirmação identitária, de formação acadêmica e política, bem como de legitimação do espaço dessa nova categoria de estudantes que passou a emergir no âmbito universitário: pobres e negros.

Mariana Aparecida dos Santos Panta – filha de um motorista de ônibus de turismo e uma doméstica, tem bacharelado em Educação Física pela UEL, é mestre e doutora em Ciências Sociais e bolsista Capes de pós-doutorado. Pesquisa temas relacionados à população negra e segregação urbana.

Eu tinha receio de me assumir como negro e não percebia o que era preconceito, achava que era algo normal. Somente tive consciência de mim mesmo e do mundo que nos cerca com a ajuda dos professores. Não concordo com tudo relacionado ao programa, mas foi muito importante para mim e para as pessoas para as quais eu pude reproduzir o que aprendi.

Jaime das Almas Santos (Jay Vrindavana) – graduado pela UFPR, cursa a terceira especialização. É professor.

No programa encontramos nossos iguais, éramos pessoas de uma mesma realidade, a qual não encontrávamos muitas vezes em sala de aula. Criamos vínculos de amizade e ajuda mútua conforme podíamos.

Priscila do Rocio Oliveira de Souza – filha de uma funcionária pública com um autônomo, foi a primeira da família a concluir um curso superior (Terapia Ocupacional na UFPR). É mestre em Antropologia e hoje trabalha como teleatendente no comércio buscando juntar dinheiro para custear o doutorado.

O programa sem dúvidas foi um marco em minha vida. Abriu-me os olhos pra enxergar a desigualdade social e racial que temos em nosso país.

Thascila Ribas Cavalcante – graduada em Nutrição pela UFPR, pós-graduada em Gestão de Unidades de Alimentação e Nutrição, atua como nutricionista.

O programa para mim foi como um despertar para as questões que envolviam a desigualdade de raça. Até então eu vivia a experiência, mas não tinha a elaboração teórica do que eu vivenciava. A princípio eu tinha certa resistência, porquê, como algumas meninas negras, eu tinha a autoestima baixa, não me sentia preparada para ocupar o espaço universitária, alisava o meu cabelo e achava alguns discursos radicais. Aos poucos, estudando, e em contato com os colegas que vivenciavam experiências parecidas, e também passavam por muitos tipos de abuso, fui me aprofundando no debate. E o Afroatitude foi essencial, como um catalizador da experiência teórico-prática. 

Dayane Augusta Santos da Silva – pai aposentado por invalidez e mãe faxineira. Graduada e mestre em História pela Universidade de Brasília (UnB). É professora no Instituto Federal de Brasília.

O Afro me possibilitou me encontrar naquele espaço, estar junto aos meus, fazer nossos debates, me empoderar para as lutas, sem contar o aspecto financeiro e a produção teórica.

Tatiane Pereira da Costa – filha de um policial militar aposentado e uma dona de casa, é graduada em Serviço Social pela UnB e pós-graduanda.


O projeto desta reportagem foi o único do Paraná entre os oito vencedores de um edital de bolsas lançado em setembro de 2019 pelo Itaú Social e Associação de Jornalistas da Educação (Jeduca). O objetivo foi viabilizar a produção de reportagens que colaborem para o debate público sobre a melhoria da educação pública brasileira.

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