Decreto de Greca cria Plano Cicloviário de Curitiba sem aprovação de ciclistas | Plural
21 nov 2019 - 0h51

Decreto de Greca cria Plano Cicloviário de Curitiba sem aprovação de ciclistas

Entidades reclamam falta de participação popular na elaboração do projeto e ausência de políticas de mobilidade sustentável. Ippuc nega

As discussões para o Plano de Estrutura Cicloviária de Curitiba começaram em abril de 2018 e foram realizadas entre membros do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) e do Conselho da Cidade (Concitiba). O plano – que prevê conexão entre ciclovias – foi lançado em primeiro de novembro, por decreto do prefeito Rafael Greca. O texto, porém, vem gerando críticas de entidades ligadas ao ciclismo, à engenharia e à arquitetura. Segundo elas, a elaboração do documento não teve participação popular nem apresenta políticas públicas de mobilidade sustentável. A afirmação é contestada pelo Ippuc, que assegura envolvimento da sociedade civil organizada.

“Na prática, existe pouca esperança que este plano seja, de fato, implementado, visto que o prefeito Rafael Greca ainda trata o modal cicloviário como um modal de lazer e que a prefeitura não apresentou nenhum tipo de estudo de viabilidade econômica, ou plano de ação e investimento, que contemple as diretrizes propostas. Isto indica que é uma ‘vontade’ ou um ‘desejo’, mas não necessariamente um compromisso”, avalia o engenheiro civil, mestre em Planejamento Urbano, Luiz Henrique Calhau da Costa, diretor do Sindicato dos Engenheiros no Paraná (Senge-PR).

De acordo com ele, o plano não é muito diferente do que já vem se discutindo desde a gestão anterior. “Tecnicamente é um avanço, pois representa a valorização do modal cicloviário. No entanto, o plano ainda é tímido, principalmente se considerarmos que várias vias importantes no sistema viário ainda não contarão com estrutura cicloviária.”

Entre elas, a Avenida Marechal Floriano Peixoto depois da Linha Verde até o Centro; a Avenida Manoel Ribas depois da Via Veneto até o Centro e todas as outras em que não há um prazo em projeto.

Para o Senge, e outras cinco entidades ligadas a ciclistas, arquitetos e professores da UFPR (que chegaram a publicar uma nota de repúdio à Prefeitura), houve um processo de negligencia na participação popular. “O Ippuc tem dificuldade em sistematizar quaisquer propostas da sociedade civil, seja de conselheiros ou de participantes externos, como a Ciclo Iguaçu. Estes promovem estudos técnicos e debates, tendo forte representatividade frente aos ciclistas da cidade. São capazes de mobilizar o cicloativismo.”

Cruzamentos registram muitas mortes, apontam ciclistas. Foto: Luiz Costa/SMCS

Ciclistas

Integrante do Concitiba até 2016, em 2019, a Associação de Ciclistas do Alto Iguaçu (Ciclo Iguaçu) participou das discussões para elaboração do Plano apenas como convidada. Mas poucas sugestões dos ciclistas foram aceitas, como mais pesquisas e dados. “Só há duas pesquisas no plano, uma de origem-destino outra do perfil do ciclista. Mas não aceitaram nossas pesquisas, realizadas com mil ciclistas da cidade, com questionário qualitativo. Fizemos contagens e sugerimos melhorias em cruzamentos, onde há muitas mortes”, explica o coordenador da associação, Fernando Rosenbaum.

Outras sugestões são campanhas de educação no trânsito e uma reavaliação do mapa proposto por onde passarão as ciclovias, considerando os lugares que os ciclistas já passam como sendo rotas usuais. “E o plano não considera isso, mostrando uma análise defeituosa da estrutura cicloviária. Além das novas, é necessário refazer ou melhorar a qualidade das estruturas já existentes”, diz Rosenbaum.

Ciclofaixas nas canaletas são igualmente defendidas pela entidade. “Isso interligaria bastante a cidade para os ciclistas, além deles poderem fazer o transporte da bike no ônibus, o chamado transporte intermodal.”

Rosenbaum lembra que Curitiba é a cidade com maior proporção de automóveis por habitantes. “Além de termos o VT mais caro do país. O prefeito investe muito no asfalto para velocidade dos automotores quando a bicicleta deveria ser mais incentivada, havendo um desencorajamento aos carros. É preciso repensar que tipo de transporte a cidade quer priorizar.”

Para o coordenador, o lançamento do plano foi “um grande ato publicitário para dizer que vão dobrar o número de ciclovias até 2025, mas não há recursos previstos para isso.”

Ciclovias estão previstas no Plano Diretor da Cidade. Ilustração: Ippuc

Ippuc

O Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) destacou que ele está dentro do Plano de Mobilidade Cicloviária e precisa estar interligado ao transporte da cidade. Sua implantação integra o plano, porém, não há data para ela acontecer.

“Estratégico e parte do Plano Diretor de Curitiba, o Plano de Estrutura Cicloviária de Curitiba, recentemente concluído, é fruto de aprofundados estudos técnicos, que envolveram representantes da sociedade civil organizada ao longo de mais de um ano e meio de trabalho, num processo de debate técnico aberto, transparente e plural. O Plano estabelece metas para o bem da coletividade curitibana, não de vontades individuais ou de grupos específicos.”

Em nota, o Ippuc informa que houve seis reuniões com os participantes do Concitiba e representantes do poder público, com ampla agenda de apresentação e discussões em torno do tema.

“O Concitiba inclui representantes do Poder Legislativo, de lideranças do setor produtivo, de entidades profissionais, acadêmicas e de pesquisa, de organizações não-governamentais, sindicatos e movimentos populares. A CicloIguaçu não é efetiva do Concitiba, mas participou das discussões como convidada.

Representantes da Cicloiguaçu, elogiaram o plano e protocolaram sugestões, que foram remetidas à coordenação para análise e considerações. As demandas foram respondidas na íntegra pelos coordenadores do Plano de Estrutura Cicloviária e pela diretoria de Planejamento do Ippuc.”

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