Prefeitura manteve bandeira amarela com indicadores de bandeira laranja | Jornal Plural
5 out 2020 - 11h03

Prefeitura manteve bandeira amarela com indicadores de bandeira laranja

Dados mostram indicadores da Prefeitura acima do patamar da bandeira amarela enquanto o alerta menor esteve vigente

Durante 18 dias, de 18 de agosto a 4 de setembro, Curitiba esteve sob a bandeira amarela no Sistema de Monitoramento da Covid-19, instituído em 9 de junho pela Prefeitura. A mudança no nível de alerta veio depois de 65 dias de bandeira laranja, com muito mais restrições a atividades na Capital.

O Plural apurou, no entanto, que durante os 18 dias de bandeira amarela, a pontuação do sistema ficou acima de 2 em 11 deles, portanto, dentro dos indicadores para bandeira laranja. Além disso, desde 28 de setembro, quando o indicador voltou para bandeira amarela, depois de 22 dias na bandeira laranja, o valor diário dos indicadores só ficou um dia abaixo de 2.

A situação chamou a atenção do engenheiro mecânico Murilo Linzmayer, que acompanha os dados da doença diariamente e publica análises no perfil pessoal dele no Linkedin. “Percebi que a mudança na bandeira acabou seguida por um aumento nos indicadores”, diz. Linzmayer alertou então o Plural.

O sistema, criado para estabelecer critérios matemáticos para a definição de medidas de contenção da transmissão do coronavírus, tem nove indicadores: sete que avaliam a propagação da doença e três que mensuram a capacidade de atendimento.

Cada indicador tem um peso diferente. Uma vez calculado, o indicador é comparado com uma faixa de valores que atribui o valor da bandeira para cada item. Por exemplo, o primeiro indicador é calculado pela divisão: do total de casos confirmados de Covid-19 nos últimos sete dias, pelo total de casos confirmados nos sete dias anteriores.

Se o resultado da conta ficar abaixo de 1, isso quer dizer que o número de confirmações ficou estável ou diminuiu de uma semana para outra – indicando a bandeira amarela. Se ficar entre 1 e 2 significa que o número de pessoas com resultado positivo para Covid-19 aumentou de uma semana a outra, mas não dobrou, indicando a bandeira laranja. Se o número de confirmados dobrar, a indicação é de bandeira 3, ou seja, bandeira vermelha.

Bandeira definida pelo cálculo do Sistema de Monitoramento da Covid-19 entre os dias 01/06 e 30/09. Fonte: cálculo feito pelo Plural a partir de dados da prefeitura de Curitiba do SUS.

Com a bandeira de cada um dos 9 indicadores calculadas, esses valores são multiplicados pelo peso de cada indicador e o total geral é dividido por 10. O resultado indica a bandeira geral.

O Plural calculou o valor da bandeira por dia – de 1º de junho a 30 de setembro – com base em dados da própria Prefeitura e do SUS, num total de 122 dias.

No total, durante 90 dias o indicador ficou acima de 2, portanto, em bandeira laranja. Por 32 dias, ficou abaixo de 2, ou seja, em bandeira amarela. Destes 32 dias, em 22 deles o indicador ficou entre 1,90 e 1,99.

Valor por dia do Sistema de Monitoramento da Covid-19 entre os dias 01/06 e 30/09. Fonte: cálculo feito pelo Plural a partir de dados da Prefeitura de Curitiba e do SUS.

Solicitações

O Plural solicitou à Secretaria Municipal de Saúde (SMS)as atas do Comitê de Técnica e Ética Médica com a recomendação do grupo que embasou os decretos de instituição das medidas restritivas às atividades e serviços. A recomendação do órgão, que é composto pela secretária de Saúde, Márcia Huçulak, o diretor do Centro de Epidemiologia da SMS, Alcides Oliveira, e a infectologista da Secretaria, Marion Burger.

A reportagem também solicitou os dados e os cálculos usados na definição das bandeiras e esclarecimento de pontos no cálculo e na definição da bandeira. A Secretaria encaminhou a memória de cálculo de cinco datas no período:

  • 6 a 12 de junho
  • 8 a 14 de agosto
  • 15 a 21 de agosto
  • 22 a 28 de agosto
  • 29 de agosto a 4 de setembro

No entanto, a respeito do cálculo em si, e das recomendações feitas pelo Comitê, a Assessoria de Imprensa informou que a reportagem deveria formalizar os questionamentos por e-mail por serem “perguntas técnicas”. O Plural fez o pedido formal por e-mail no dia 1º de outubro e também protocolou um pedido de acesso à informação na mesma data, mas não recebeu nenhum retorno até o fechamento do material.

O Plural ainda solicitou entrevista com representante do Comitê, ao que a Assessoria respondeu que “são informações que cabem ao Comitê, que não é formado por uma única pessoa, responder”.

Entre a Saúde e a Economia

Para o médico epidemiologista Moacir Ramos Pires, o cálculo dos indicativos propostos pela Prefeitura não é ruim. Mas haverá sempre uma necessidade de equilibrar outros fatores. “A própria efetividade das medidas é afetada quando as restrições passam a pesar muito“, diz.

Cidades em todo mundo também tentam equilibrar a contenção do vírus com a necessidade de não prejudicar demais a atividade econômica. “É uma tentativa de não sacrificar demais a população ao mesmo tempo que tenta garantir recursos para atender a demanda médica. Isso nós [em Curitiba] conseguimos”, pontua.

Pires, no entanto, indica que segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a melhor maneira de tornar as medidas efetivas é ter um processo decisório consistente e transparente. “A população tende a se adequar quando a comunicação é clara”, diz.

Em Curitiba, o Plural verificou que desde março a Prefeitura mudou várias vezes o formato de divulgação dos dados usados no cálculo da bandeira. E há informações usadas no sistema que não chegam a ser divulgadas, como é o caso do número de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) internados em UTIs do SUS da Cidade.

Outros dados, como o número de leitos disponíveis, livres e ocupados de UTIs e enfermaria exclusivos para Covid-19 por dia, têm divulgação inconsistente. Atualmente as informações sobre isto estão entre os bancos de dados disponibilizados pela Prefeitura em seu site de Dados Abertos, mas só a partir de 2 de julho.

Mesmo assim, há diversos dias neste período sem informação alguma, nem a documentação técnica explica o porquê da ausência.

Para calcular os índices dos períodos sem dados divulgados pela Prefeitura, o Plural usou o banco de dados do SUS, de leitos credenciados no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNS), e o banco de dados de registros de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) do Sistema Único de Saúde (SUS).

Apesar disso, os cálculos do Plural só tiveram divergências inferiores a 0,1 com os da Secretaria de Saúde em duas das seis datas em que os dados são públicos. É possível conferir todos os dados e cálculos aqui.

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