Curitiba foi a mais afetada por superlotação no Enem 2020 | Jornal Plural
18 jan 2021 - 20h13

Curitiba foi a mais afetada por superlotação no Enem 2020

Em quatro locais de prova, estudantes não puderam entrar pois salas estavam cheias, algumas sem janelas

O relógio de Mariana Hachmann, 17 anos, marcava 12h30 quando ela chegou ao Colégio Estadual Professor Francisco Zardo, em Curitiba, para o primeiro dia de provas do Enem 2020, neste domingo (17). Preferiu entrar com tempo de folga para não se apertar. De nada adiantou. Mariana, assim como centenas de candidatos na Capital paranaense e em várias outras partes do Brasil, foi impedida de acessar a sala designada porque o local já estava cheio, ameaçando o limite máximo de 50% de ocupação estipulado pelas diretrizes sanitárias do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão do Ministério da Educação (MEC) responsável pelo exame.

“Eu cheguei meia hora antes e já me barraram na porta da sala. O fiscal mesmo pediu para eu ir até a coordenação e me avisou que eu não podia entrar porque a sala já estava com 50% da capacidade. Cheguei lá e tinha uma fila de estudantes na mesma situação. Depois, foram chegando outros”, relata Mariana, que vai usar a nota do exame para tentar entrar no curso de Design. “Eles pegaram nome e CPF, mas não deram nenhuma comprovação de que a gente estava lá. Depois, eles falaram que ninguém ia ser prejudicado, que eles podem garantir. Mas acontece que já teve prejuízo, muito prejuízo.”

O Inep não passou dados atualizados e indicou como referência a coletiva de imprensa deste domingo, que admitiu problemas em 11 escolas do país. Além de Curitiba, também houve casos em Florianópolis (SC), Canoas (RS), Pelotas (RS) Caxias do Sul (RS) e Londrina (PR). Se este for o número final, os relatos encontrados pelo Plural indicam que Curitiba – curiosamente o município escolhido pelo ministro da Educação para uma vistoria simbólica após as provas – foi a cidade mais afetada por problemas de superlotação de salas.

Por aqui, em pelo menos quatro estabelecimentos o limite máximo de 50% de ocupação era menor do que o conjunto de inscritos distribuídos em sala: Francisco Zardo; Universidade Estácio de Sá (campus Senador Souza Naves); UniCuritiba e campus Jardim Botânico da UFPR. Com base nos números informados pelo Inep na coletiva, não é possível que os demais municípios atinjam este total de locais com relatos de transtornos. Também não é possível isentar a pasta das responsabilidades.

Embora tenha afirmado que seguia as diretrizes sanitárias, há indícios de que o Instituto estava ciente da questão, já que é o próprio responsável por organizar a logística do Enem e definir, por exemplo, a distribuição de alunos por sala. Assim, mesmo antes de o tumulto acontecer, a pasta, provavelmente, já sabia da extrapolação do número máximo de alunos por ambiente.

Um exemplo é que, no sábado (16), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) chegou a emitir um comunicado em que alertava ter recebido plano de salas com ocupação de 80% de candidatos para a realização do Enem. Ao jornal Estadão, uma fonte que preferiu manter anonimato disse que a estratégia do MEC foi “confiar na abstenção”. De fato, em meio a recordes e colapsos provocados pela pandemia no Brasil, mais da metade dos inscritos não compareceu aos locais de prova neste domingo, recorde na história do exame.

Mas mesmo diante de todas as denúncias – que levaram a hashtag #CancelaEnem2020 a um dos assuntos mais comentados do Twitter –, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, que estava em Curitiba neste domingo, afirmou logo após a aplicação da primeira rodada dos exames que o cenário estava sob controle. “A conta [de alunos por sala] foi a conta de chegada para que a gente pudesse verificar o número de alunos que pudesse ocupar de maneira segura cada classe. Esse cuidado foi tomado”, afirmou aos jornalistas enquanto visitava o Colégio Estadual Pedro Macedo, no bairro Portão.

Para as provas, as escola distribuiu 646 estudantes em 30 salas – uma média de 21 alunos por cada local, bem abaixo da média geral prevista para o Paraná.

Com 233.247 mil inscritos e 8.436 salas de aplicação, a média de alunos por sala no Estado era de 27,64 (sem contar a abstenção do dia). No ano anterior, sem pandemia e cuidados necessários, o cálculo ficou em 32,61. Ou seja, pelo menos no Paraná não houve compensação de ambientes suficiente para evitar superlotação desde o início.

Salada mista

Estudante da escola pública, Giovana Burnier, de 16 anos, iria aproveitar a oportunidade para se aprimorar e começar a jornada até os vestibulares de fim de ano. A intenção é cursar Ciências Contábeis na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e, por saber do nível do vestibular da instituição, queria se acostumar desde já com a pressão e com a concorrência. Mas também não conseguiu.

“Quando eu cheguei, me falaram que a sala estava lotada e eu achei que eles estavam tentando avisar que eu faria em outra sala. No fim, escreveram à caneta meu nome em um caderninho, nada oficial, não pediram nem foto, nem para eu assinar, e só falaram para eu pedir reaplicação. Eu fiquei sem entender”, conta ela, também na lista para o exame na Escola Francisco Zardo. “E eu que fui como treineira, mas muitos amigos meus que não conseguiram fazer estavam esperando por isso, por essa data. Todo mundo estava muito ansioso, eu mesma nem consegui dormir direito pensando na prova, em como ia ser, imagina a frustração?”

Reclamações semelhantes na UniCuritiba e campus Jardim Botânico da UFPR foram compartilhadas por alunos no Twitter. Por outro lado, em alguns locais de Curitiba coordenadores seguiram o mapa do MEC e permitiram que todos os alunos inscritos entrassem na sala. A medida provocou aglomeração e tirou a atenção dos estudantes.

“Tinha muita gente na minha sala. Tinha umas 80 carteiras, mas teve faltantes. No final, eu perguntei para a aplicadora e ela disse que compareceram 64 dos 80 previstos. Iria ser um perigo enorme se estivem todos ali”, relatou ao Plural Pedro Sepulveda, de 17 anos.

Foto: Agência Brasil

Vestibulando de Direito, Pedro fez o Enem no campus Senador Souza Naves da Universidade Estácio de Sá, no bairro Cristo Rei. Ele atestou aglomerações de candidatos antes do início dos exames e disse que, em muitas filas formadas para a entrada nas salas, não havia distanciamento. No ambiente em que estava fazendo a prova, não havia janelas, mas deixaram as portas abertas.

“Impossível um metro e meio entre cada um na minha sala. No máximo, as pessoas do lado estavam um pouco mais distantes. Mas, em geral, era um atrás do outro e só com as carteiras livres de quem faltou. Inclusive, quando cheguei para fazer a prova, tinha carteira que estava marcada com ‘xis’, só que foi chegando tanta gente que foram sentando em qualquer uma.”

Ainda de acordo com Pedro, alguns alunos se recusaram a permanecer na sala cheia. Foi o que decidiu Rafaela Brito Lima, de 17 anos. Também alocada na Estácio de Sá, a jovem desistiu de permanecer em sua sala depois que o número máximo começou a ser extravasado. O fato de o ambiente não ter janelas para permitir ventilação natural, apenas dois ventiladores ligados na frente da sala, foi um dos motivos que fez ela tomar a decisão.

“Na hora que eu cheguei a sala já estava cheia, mas continuou chegando gente e entrando. Aí foi quando um menino reclamou e perguntou se eles não iriam cumprir a promessa de ter só 50% da sala ocupada. E a aplicadora falou que não, que era aquele tanto de gente mesmo e que se alguém não se sentisse confortável poderia ir à coordenação. Eu fui”, contou Rafaela.

Segundo a estudante, que vai usar a nota do Enem para disputar uma vaga em Medicina, foram vários os alunos que desistiram de permanecer nos ambientes da Faculdade. “Eu saí e fomos nos encontrando lá fora. Depois, veio ainda uma menina que foi avisada pelo fiscal que a sala estava cheia e que ou ela falava com a coordenação ou então ele teria que pedir permissão para os outros alunos ali dentro para ela poder entrar.”

Além de todos os percalços, alunos afirmam terem recebido informações desencontradas sobre como a avisar o Inep a respeito da superlotação das salas. Em alguns casos, não foi dada sequer garantia de que a prova seria reaplicada.

“Quando eu fui na coordenação e disse que a sala estava cheia, a mulher pegou meu CPF, meu número de inscrição e falou que não poderia me garantir que a gente iria ter reaplicação. Eu fiquei pensando que não tinha como”, falou Rafaela. Depois de deixar a Faculdade, o pai da estudante, o professor Geraldo Torres Lima, foi ao 4º Distrito Policial de Curitiba registrar um Boletim de Ocorrência.

Polícia Federal

“O delegado me disse que, a priori, não registra esse tipo de ocorrência. Mas eu falei para ele que o que eu tinha visto era uma ameaça à saúde pública, e é assim que eu entendo, porque isso foi um crime”, afirmou o professor. Segundo a Polícia Civil, a denúncia foi encaminhada à Polícia Federal, uma vez que o exame é de responsabilidade da União.

A estudante Mariana Hathmann também disse não ter recebido informações corretas no local de prova após ser mandada para casa sem acessar a sala. Ela foi informada pelos aplicadores que ainda no domingo deveria acessar a página do Enem na internet e solicitar a reaplicação. Contudo, até hoje não encontrou nenhum espaço destinado a casos como o seu.

“Eu entrei no site no dia já e não tinha ainda. E eles [no local de prova] não me deram nenhuma comprovação. Isso foi tudo muito frustrante. Foi um ano muito difícil para todo mundo e agora eu tenho medo que não dê certo. O certo seria cancelar esse Enem porque foi tudo muito injusto”.

Em resposta, ao Plural, o Inep afirmou que participantes afetados “por problemas logísticos durante a aplicação” podem pedir a reaplicação do exame no endereço enem.inep.gov.br/participante. O instituto receberá as solicitações entre 25 e 29 de janeiro, e,  junto às aplicadoras, vai apurar a situação e avaliar o pedido.

A reaplicação do Enem será nos dias 23 e 24 de fevereiro – quatro dias antes do vestibular da UFPR, o maior do Paraná.

Vitorioso

Apesar da perspectiva dos alunos, o ministro do MEC classificou o exame como “vitorioso” e atribuiu à mídia os questionamentos feitos sobre a aplicação dos testes em uma data crítica para a saúde pública. De acordo com balanço da Advocacia-Geral da União deste domingo, 111 ações judiciais, ao todo, tentaram barrar a aplicação do exame no Brasil. No Paraná, uma ação civil pública assinada pelo Ministério Público do Paraná (MPPR), Ministério Público do Trabalho (MPT/PR) e Defensorias Públicas da União (DPU) e do Paraná (DP/PR) pediram o adiamento das provas. O recurso foi negado pela Justiça.

A Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (Sesa) não respondeu se irá solicitar alguma revisão do MEC no plano de logística para evitar aglomerações nas provas do próximo domingo (24).

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