O clã mais poderoso da província | Plural
26 mar 2019 - 6h00

O clã mais poderoso da província

Abelardo Lupion tem a missão de domar o temperamento intempestivo das lideranças que acabaram de ascender do baixo clero, apaziguar as relações com o Legislativo e fazer a máquina trabalhar

No momento, as relações de Jair Bolsonaro com o Congresso Nacional podem estar esgarçadas e à beira do ponto de ruptura, mas Abelardo Lupion, 66 anos, ex-deputado federal pelo Paraná por seis mandatos consecutivos, garante que tudo se deve aos percalços naturais de um início de mandato. “Tudo está acontecendo a seu tempo. Dentro de 30 dias vamos ter esse governo azeitado”, promete.

Pode ser difícil de acreditar quando o Executivo e suas principais cabeças parecem incapazes de concordar com o que quer que seja e simplesmente seguir um plano, mas a missão de Lupion é justamente essa: domar o temperamento intempestivo das lideranças que acabaram de ascender do baixo clero, apaziguar as relações com o Legislativo e fazer a máquina trabalhar.

Desde o último dia 11, ele faz parte de uma espécie de tropa de elite montada pela Casa Civil, composta por ex-deputados experientes e responsável por articular dentro do Congresso a aprovação das políticas de governo, incluindo a Reforma da Previdência. Mas mais do que apenas ocupar oficialmente o cargo de “assessor especial da Casa Civil”, Lupion é amigo pessoal do ministro Onyx Lorenzoni – que é inclusive padrinho de casamento de seu filho Pedro – e do presidente Bolsonaro.

Quando era deputado, Lupion acostumou-se a ser rotineiramente eleito pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) um dos homens mais influentes do Congresso. Por isso, pode parecer estranha a sua proximidade com figuras à época tidas como inexpressivas. Entretanto, ele se aproximou de Bolsonaro e de Onyx por conta da atuação dos três na chamada Bancada da Bala, principalmente à época que ela elaborava a campanha que barraria a proibição da comercialização de armas de fogo no Brasil, no referendo do desarmamento, em 2005.

“O meu grupo agora ascendeu ao poder em Brasília. Nós trabalhamos juntos a vida inteira”, admite Lupion. “E o Bolsonaro nunca foi baixo clero. Sempre teve brilho próprio, uma visão voltada pra segurança, e sempre foi dos deputados mais votados do Rio de Janeiro”, pondera, antes de completar: “É uma personalidade totalmente diferente, incorruptível. Fala a linguagem da população”.

Tanto Abelardo quanto Onyx fazem parte da linha dura do DEM, a facção do partido que se recusou a moderar minimamente o discurso mesmo diante do sucesso da Era Lula, quando a sigla inclusive mudou de nome para sobreviver – eles compõem aquela que é conhecida dentro do partido como “a ala PFL”, ou “a velha direita”.

Pedro Lupion: atual representante da família em Brasília.

Na missão de sincronizar as demandas do Executivo com os anseios do Legislativo, Abelardo tem um aliado que criou desde o berço. O filho Pedro, deputado federal de primeiro mandato, conseguiu um feito notável para um recém-chegado: foi indicado pelo presidente como um dos vice-líderes do governo no Congresso.

É uma posição que exige tirocínio político, mas ele já provou que não é apenas um rosto novo: junto com o pai, foi um dos principais artífices da operação que derrubou o todo-poderoso Renan Calheiros da presidência do Senado e alçou ao posto o até então obscuro senador pelo Amapá Davi Alcolumbre (DEM), naquela que pode ser considerada a única verdadeira vitória política da administração de Jair Bolsonaro até agora, em quase três meses.

Toda essa proximidade com o Poder Central faz da família Lupion atualmente o clã mais poderoso do Paraná. Entre altos e baixos, a estirpe está habituada a comandar: o patriarca, Moysés Lupion, foi duas vezes governador do estado e tido como o homem mais rico do Sul do Brasil nos anos 1940.

Como resumiu Abelardo Lupion em entrevista recente para o jornal O Estado de S. Paulo: “O diabo é sábio porque é velho”.

O início da dinastia

A história da família Lupion, porém, não começa com o patriarca Moysés. Como o próprio Abelardo orgulha-se de contar, a dinastia remonta a um personagem histórico cujo nome soa familiar a qualquer paranaense: o desbravador, sertanista, maragato e político Telêmaco Borba.

Telêmaco, deputado estadual por nove legislaturas e prefeito de Tibagi por outros nove mandatos, é o avô materno de Hermínia Rolim de Moura, com quem Moysés se casaria em 1930, quando era um empresário em ascensão. O pai dela, Pedro Rolim de Moura, foi um grande proprietário de fazendas e prefeito de Piraí do Sul em três ocasiões.

“Foi o casamento de um novo-rico com a família política tradicional”, define o professor Ricardo Costa de Oliveira, do Núcleo de Estudos Paranaenses da UFPR. “O Moysés se casou com a grande propriedade”, completa Mônica Harrich, professora do Departamento de Estudos Sociais da UTFPR. “E quando você casa com alguém dessa estirpe, é claro que isso abre portas.”

Moysés Lupion: duas vezes governador.

Moysés Lupion nasceu em 1908, em Jaguariaíva, nos Campos Gerais, filho de um padeiro espanhol, João Lupion de Troya, e de Carolina Wille Lupion. No imaginário político paranaense, é tido como um exemplo de self-made-man, o homem que “se fez sozinho”, contra todas as probabilidades. Em relatos familiares, consta que um de seus primeiros trabalhos foi vender amendoins na estação de trem da cidade.

A ideia é contestada pela professora Mônica Harrich. “Ele não pode ser alguém que começa vendendo amendoins. Nos anos 1920, ele estudou no Colégio Duílio Calderari, que era um colégio particular de Curitiba. Quem botava os filhos pra estudar ali tinha dinheiro.”

Nessa mesma época, Lupion também se forma como contador. Aos 16 anos, vai para São Paulo, estuda Economia e é admitido como sócio de uma empresa de serrarias e exportação de madeira.

O império

E é no ramo madeireiro que ele começa a construir seu império. “Império”, nesse caso, não é exatamente força de expressão. No auge, seus negócios se estendiam por três estados – Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro.

Em 1945, um relatório solicitado pelo Banco do Brasil precisou de 76 páginas para citar e descrever todos os bens e negócios da M. Lupion e Cia. Parte desse conteúdo consta no livro Lupion, a Verdade, escrito pelo advogado Raul Vaz, amigo pessoal do ex-governador. No livro, Vaz admite que muitos bens ficaram de fora do documento por estarem “em negociação” e que ele mesmo havia aberto mão de citar alguns itens por “economia de tempo e para não tornar enfadonha a leitura”.

Mesmo assim, a lista do patrimônio de Moysés composta por Vaz mostra vários terrenos em Ponta Grossa, Castro e Paranaguá; 18 serrarias; entrepostos madeireiros; 12 fazendas; fábricas de compensados, caixas de papelão, fósforos e escovas de dentes; uma indústria de ferro; uma metalurgia; uma companhia de exploração de petróleo (que descobriu inclusive jazidas de urânio); sete embarcações no Rio Paraná e outras duas no Oceano Atlântico (que faziam a rota Paranaguá-Rio de Janeiro); uma frota de 1,2 mil automóveis e caminhões; 11 vagões próprios de trem; 12 aeronaves; uma destilaria; agências de automóveis; quatro bancos; o jornal O Dia; 49% das ações do jornal Gazeta do Povo; sete emissoras de rádio; uma rede de farmácias; e postos de combustíveis espalhados por todo o estado.

Revolta dos Posseiros.

“Ele abraça muitos setores, é uma coisa absurda”, constata a professora Mônica Harrich. “Em dez anos, o Lupion deu um salto incrível de enriquecimento.”

Mas como não há poder de fato sem poder de Estado, Moysés Lupion inicia sua vida política quando se aproxima do interventor de Getúlio Vargas no Paraná, Manoel Ribas, durante o Estado Novo. O próprio irmão de Moysés, David Willie Lupion, narra o início dessa relação, numa citação que consta no livro Nepotismo, Parentesco e Mulheres, de Ricardo Costa de Oliveira: “Tínhamos uma serraria na Fazenda das Almas, da família Ribas, que ficava entre Castro e Piraí, onde cortávamos os pinheiros que havíamos adquirido do então interventor. Ribas sempre aparecia por lá para fiscalizar os trabalhos da fazenda e ele e Moysés conversavam muito sobre negócios”.

O resultado dessas conversas sobre negócios é a filiação de Moysés Lupion ao PSD em 1946. Em 1947, ele é eleito governador, batendo seu principal adversário, Bento Munhoz da Rocha, por 91.059 votos contra 45.941.

Como chefe do Executivo, Lupion é tido por seus defensores como um “civilizador”, o homem que levou infraestrutura e desenvolvimento para o interior do Paraná. “Meu avô foi um progressista”, define Abelardo Lupion. “Abriu todas as estradas importantes do estado, abriu as regiões Noroeste, Norte e Oeste. Levou energia elétrica para a população.”

Para outros, porém, o ex-governador foi o homem que permitiu, em proveito próprio, uma assombrosa escalada de brutalidade nos grotões do estado.

A terra adubada com sangue

“O Moysés tinha uma ganância territorial muito grande, e usava a estrutura de Estado para satisfazer isso”, resume Ângelo Priori, professor de história da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e autor de O Levante dos Posseiros – a Revolta Camponesa de Porecatu e a Ação do Partido Comunista Brasileiro no Campo.

A história da Guerrilha de Porecatu começa quando Getúlio Vargas inicia sua política de Marcha para Oeste, a fim de colonizar os rincões do território nacional e aumentar a produção agrícola e de alimentos para sustentar as cidades que cresciam. Para tanto, no Paraná o interventor Manoel Ribas promete doar terras improdutivas para colonos que fossem para o Oeste, produzissem e ainda estivessem sobre a terra depois de seis anos. A oferta atraiu camponeses de São Paulo, Minas Gerais e do Nordeste. Eles chegaram a ser cerca de 3 mil na região. No entanto, nunca viram as escrituras empenhadas.

Isso porque as mesmas glebas sobre as quais agora estavam assentados haviam sido cedidas na segunda década do século para grandes companhias, também sob a condição de colonização. Elas haviam preferido especular com as terras, mas agora reivindicavam a posse. O ambiente de conflito estava instalado.

Quando Moysés Lupion assume o Executivo, em 1947, a situação piora. Ele decide retirar a oferta de terras para pequenos agricultores e negociar o território com grandes proprietário e fazendeiros. “Ele se beneficiava duas vezes”, conta Ângelo Priori. “Primeiro, vendia as terras. Depois, podia explorar a madeira nas glebas dos amigos.” Uma das beneficiadas pela guinada promovida por Lupion foi a família Lunardelli, de São Paulo. O patriarca, Geremia Lunardelli, faleceu em 1962, e os obituários da época o trataram como Rei do Café.

Apoiados pela polícia de Lupion, jagunços a soldo dos grandes proprietários iniciaram uma campanha de terror a fim de expulsar os posseiros: estupro sistemático de mulheres, espancamentos e incêndios de casas, plantações e depósitos. Muitas vezes, segundo Priori, esses capangas trabalhavam com a promessa de futuros cargos públicos. Um dos mais famosos, Fuad Nacli, tornou-se posteriormente fazendeiro e deputado estadual pela Arena.

Em 1948, atirado à clandestinidade, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) adere à tese da “solução revolucionária para o Brasil”. No Paraná, no Triângulo Mineiro, em Goiás e no interior de São Paulo – regiões em que haviam conflitos por terras – passa a sustentar os embates fornecendo aos colonos armamento. Até mesmo o ex-técnico da seleção brasileira de futebol João Saldanha, militante do chamado Partidão, vem parar na região de Porecatu para organizar a luta armada.

Dispostos numa espécie de guerrilha, os colonos passam a promover tocaias e emboscadas. Como eles conheciam muito mais o terreno do que os jagunços ou a polícia, o governo se vê obrigado – mesmo em tempos tidos como democráticos – a apelar ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops) para o trabalho de inteligência de se infiltrar no movimento revoltoso.

O mandato de Moysés Lupion termina enquanto o conflito está no ápice. O novo governador, Munhoz da Rocha, tenta uma solução negociada, que é rejeitada pelo PCB. Diante disso, com contingentes policiais do Paraná, de São Paulo e do batalhão de fronteira de Foz do Iguaçu, Munhoz da Rocha organiza o cerco a Porecatu. Em julho de 1951, 15 lideranças do PCB e dos colonos são presas e a guerrilha desmantelada.

Arquivos policiais analisados pelo professor Ângelo Priori mostram que a operação foi possível graças à delação de Celso Cabral de Mello, o “capitão Carlos”, dirigente do PCB, que chegara à região em 1950. Depois, ele teria tido sua fuga facilitada. Seu paradeiro é até hoje uma incógnita, mas sabe-se que ele foi jurado de morte pelo partido (era essa a política que, à época, o PCB reservava aos “traidores”).

O saldo de mortos do conflito é até hoje desconhecido, mas o professor Ângelo Priori estima que, de 1946 a 1951, 20 colonos tenham sido assassinados por jagunços ou pela polícia. No mesmo período, três ou quatro pistoleiros teriam sido abatidos pela guerrilha.

A revolta que tomou cidades

Em meados de 1957, oito dos melhores jagunços da Companhia Comercial e Agrícola do Paraná chegaram de surpresa à casa de um colono na região do Capanema, Sudoeste do estado. Em clara desvantagem, o camponês quis evitar o confronto. Fugiu e embrenhou-se em um matagal nos fundos da residência com um dos filhos, de 8 anos.

Na casa, os capangas encontraram a esposa e outras duas crianças, de 2 e 5 anos. Oito vezes estuprada, a mulher teve ainda os seios mutilados antes de ser decapitada pelos pistoleiros. A criança de 5 anos foi morta com um tiro na cabeça; a de 2, atirada ao ar e esfaqueada ainda durante a queda. A casa foi saqueada e incendiada.

O relato bárbaro foi feito pelo jornalista Luiz Manfredini e publicado no dia 1.º de outubro daquele ano no jornal O Estado do Paraná. Ele é citado no artigo “A polícia na revolta dos posseiros”, da pesquisadora da UFPR Danielle Wobeto de Araújo. O episódio também é abordado no documentário A Revolta, de João Marcelo Gomes e Aly Murtiba.

Ele ilustra bem a brutalidade que reinava no Sudoeste do Paraná por conta de conflitos fundiários quando Moysés Lupion estava em seu segundo mandato como governador (1956-1961). “O Sudoeste paranaense é, hoje, sucessão de tocaias, de assassinatos, de estupros, de saques e de incêndios”, resume uma matéria publicada no jornal Tribuna do Paraná, também em outubro de 1957.

Em maio daquele ano, o vereador de Pato Branco Pedro José da Silva, o Pedrinho Barbeiro, fora assassinado quando se preparava para ir ao Rio de Janeiro contestar a legalidade dos procedimentos das companhias colonizadoras na região. Em agosto, um grupo de agricultores fora recebido à bala por pistoleiros, quando se dirigia ao escritório de uma das companhias – um deles morreu. Outros sete colonos haviam sido chacinados numa emboscada entre as cidades de Francisco Beltrão e Pranchita na mesma época.

A lógica dos conflitos fundiários na região Sudoeste era a mesma da região Norte, e está inserida dentro do contexto de Marcha para Oeste de Getúlio Vargas. Numa região limítrofe como o Oeste, a política federal tinha ainda a intenção de consolidar fronteiras.

Para isso, em 1943 é criada a Colônia Agrícola Nacional General Osório (Cango), que deveria ocupar uma faixa de 60 quilômetros de fronteira, uma área de cerca de 300 mil hectares, que acomodaria reservistas e as levas de pequenos agricultores gaúchos que chegavam ao Paraná.

Pedro Lupion, vice-líder de Bolsonaro.

Essas terras, no entanto, eram alvo de uma disputa jurídica entre o estado do Paraná e a União. No meio do imbróglio, Moysés Lupion, em 1950, ainda no fim de seu primeiro mandato, fundou a Clevelândia Industrial e Territorial (Citla) que, consenso entre os historiadores, forjou documentos e grilou 475 mil hectares da região, incluindo toda a área da Cango e as sedes urbanas de alguns distritos e municípios.

A Citla, junto com outras companhias de colonização, como a Apucarana e a Comercial Agrícola do Paraná, tentava forçar a compra pelos posseiros de títulos de propriedades que seguiam em disputa judicial. A temperatura do conflito subiu ainda mais quando, ao assumir seu segundo mandato como governador, Moysés Lupion retirou o último entrave para a livre comercialização dessas terras pelas companhias, o chamado Imposto de Transmissão e Propriedade.

A chacina da família na região do Capanema acendeu o estopim da chamada Revolta dos Colonos. Associados aos “farrapos”, foras da lei que viviam na região, os camponeses começam no dia 10 de outubro de 1957 uma série de levantes que tomam cerca de oito cidades. Em Francisco Beltrão, Pato Branco e Santo Antônio, eles expulsam todas as autoridades. Entra em cena então o marechal Henrique Lott, ministro da Guerra, que envia um ultimato ao governador Lupion: ou ele fechava as companhias e acalmava os colonos, ou haveria intervenção federal.

A cidades são retomadas alguns dias depois, sob a promessa do governador de que não haveria retaliação da polícia, mas a situação só é totalmente resolvida em 1963, no governo de Ney Braga, quando cerca de 45 mil títulos de terras são concedidos a pequenos agricultores – é essa a configuração fundiária que predomina até hoje na região, a da pequena propriedade.

Em uma mensagem para a Assembleia Legislativa no fim do governo, Lupion definiu a Revolta dos Colonos como um “contratempo político”.

O patriarca esmorece

Moysés Lupion deixou o governo do estado em 1961, substituído por Ney Braga, um feroz adversário político. Soterrado por denúncias de corrupção, precisou se exilar na Argentina para escapar da prisão. “Meu avô sofreu a maior campanha difamatória da história do Brasil”, defende Abelardo Lupion. “Foi uma violência nunca vista.”

De volta ao país, Moysés exerceu ainda mais um cargo público: foi deputado federal de 1963 a 1964, quando foi cassado pelo Ato Institucional Número 1, do regime militar. Oficialmente, o motivo era o enriquecimento ilícito à época em que fora governador do Paraná, embora no início a ditadura tenha usado muito acusações de corrupção para esconder cassações por motivos políticos. Lupion acabaria inocentado em 1970.

“Na verdade, ainda falta um estudo que aborde de maneira aprofundada o Moysés Lupion nessas questões: os casos de corrupção, a rivalidade com o Ney Braga”, admite a professora Mônica Harrich. “Ele foi inocentado de todas as acusações, mas quem julgou? Eu não sei responder isso.”

O patriarca Moysés: família diz que ele foi vítima de calúnias.

Devido às acusações de corrupção, também boa parte dos bens do ex-governador foi confiscada e não mais devolvida – segue até hoje em disputa judicial. De acordo com o cálculo de Abelardo, 95% do patrimônio de seu avô teria se esvaído nessa época. “Uma parte ele também vendeu, para financiar sua defesa”, explica. Para Mônica Harrich, mesmo um pequeno naco do que um dia fora o império de Moysés era bastante coisa. “Se o Moysés tivesse perdido tudo, a descendência dele estaria hoje onde está?”

Moysés Lupion faleceu no Rio de Janeiro, em 1991, por conta de uma infecção. “Ele morreu extremamente amargurado”, lamenta o neto.

A descendência

A mãe de Abelardo Lupion, Leovegilda Lupion Mello, morreu quando ele tinha 10 anos de idade. Desde então, e até os 21, ele foi criado pelo avô, Moysés, a quem parece ter sido fortemente apegado. “Eu dediquei minha vida a resguardar a história dele”, diz.

O cuidado era recíproco. Já no fim da vida, o avô não queria que o neto entrasse para a política. “Foi uma necessidade da classe que me fez vir pra esse mundo”, conta. A classe, no caso, era a dos grandes proprietários de terras, aos quais Abelardo Lupion esteve umbilicalmente ligado durante toda a sua vida pública.

No fim dos anos 1980, ele foi um dos fundadores e o primeiro presidente da União Democrática Ruralista (UDR) do Paraná. Nas eleições de 1990, concorreu a deputado federal pelo Partido da Reconstrução Nacional (PRN), de Fernando Collor. Em 1995, fundou na Câmara a bancada ruralista, que já naquela época controlava 25% dos votos.

No relatório que apresentou na CPI da Terra, em 2005, classificou as ocupações promovidas pelo MST como “ato terrorista” e “crime hediondo”. Nunca escondeu seu lado. Em uma entrevista de 2011 para o jornal Gazeta do Povo, quando o PT ainda colhia as glórias do Lulismo, declarou: “Sou de direita, e isso não é pecado”.

Em 2012, foi um dos 29 deputados que votaram contra a PEC 438/01, que previa a expropriação de propriedades onde fosse identificada a ocorrência de trabalho escravo.

Nos últimos anos, no plano estadual, foi presidente da Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar) na gestão de Beto Richa e secretário de Infraestrutura e Logística de Cida Borghetti. Paralelamente, o filho Pedro Lupion se reelegia deputado estadual e chegava ao posto de líder do governo Cida na Assembleia Legislativa.

A ascensão dos dois à cúpula do poder em Brasília, junto com o grupo com o qual trabalharam a vida inteira, não faz Abelardo, no entanto, considerar a própria família como a mais poderosa do Paraná hoje. “A família mais poderosa do Paraná é a do governador Ratinho Jr.”, desconversa. Talvez, mas o governador não vai ser o posto avançado do presidente dentro do Congresso e ajudar a definir os rumos de todo o país, certo? “Ainda assim, o poder é uma coisa muito efêmera”, filosofa Abelardo.

A lição do avô é clara.

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